Internacional Após um mês no poder, Talibã mostra que não mudou essência

Após um mês no poder, Talibã mostra que não mudou essência

Especialista afirma que grupo segue adotando medidas radicais apesar de buscar uma nova postura diante do mundo

  • Internacional | Leticia Sepúlveda, do R7

Talibã retomou o controle do Afeganistão há exatamente um mês

Talibã retomou o controle do Afeganistão há exatamente um mês

EFE/EPA/STRINGER

Há um mês, no dia 15 de agosto, o Talibã retomou o controle do Afeganistão, ao ocupar a capital Cabul, 20 anos após ser derrotado pelas tropas dos Estados Unidos. A retomada do grupo extremista ocorreu em meio à retirada das tropas norte-americanos do país, processo que foi concluído em 30 de agosto.

Na tentativa de mudar a imagem diante do mundo, o Talibã adotou um discurso de que seria mais moderado em relação ao período em que governou o país, entre 1996 e 2001. O grupo aplica uma interpretação radical da Sharia (lei islâmica) e é conhecido por violar os direitos humanos.

Talibã: 7 pontos importantes para entender o grupo extremista

Por enquanto, as ações dos talibãs são menos severas, mas não refletem uma mudança real de postura. Nas últimas quatro semanas, jornalistas foram açoitados enquanto cobriam manifestações, mulheres foram excluídas de papéis importantes no governo e voltaram e enfrentar uma série de limitações, como a proibição de praticar esportes.

Para o professor Reginaldo Nasser, livre-docente na área de Relações Internacionais da PUC-SP, coordenador do GECI (Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais) e especialista em geopolítica do Oriente Médio e política externa dos EUA, o Talibã não irá conseguir governar da mesma forma que governou antes.

“Eles mostram sinais de mudança, nesses 20 anos também ocorreram mudanças de gerações e o Talibã quer ser reconhecido internacionalmente, diferente do que era no passado. Desta vez, houve o fato de ser reconhecido por potências como Rússia, China e Irã”, afirma Nasser.

“Por outro lado, não deve-se esperar que o grupo mude sua essência e, em um momento depois de 20 anos de guerra civil, quem está no poder sempre tem uma percepção exagerada de ameaça. As formas de manifestação vão ser vistas como ameaças, então acredito que haverá repressão.”

As afegãs também foram às ruas para lutar por seus direitos. Entre 1996 e 2001, elas eram proibidas de trabalhar, estudar e de saírem de casa sem a permissão do marido. Além disso, o uso da burca, traje que cobre o corpo da mulher da cabeã aos pés, era obrigatório.

Afegãs reivindicam direito ao trabalho e à educação em protesto realizado em Cabul, em 3 de setembro

Afegãs reivindicam direito ao trabalho e à educação em protesto realizado em Cabul, em 3 de setembro

REUTERS/Stringer

Nasser explica que a organização das afegãs reflete a presença estrangeira na região, nas últimas duas décadas. “A presença dos Estados Unidos e das forças ocupantes envolveram uma série de ações que fizeram com que essas mulheres começassem a participar de atividades relacionadas ao trabalho e a educação.”

Entretanto, o professor ressalta um recorte socioeconômico urbano: “Quando se fala das mulheres e da população em geral é bom levar em consideração que, no Afeganistão, 70% da população é rural. Quando se fala das mulheres, são as mulheres da cidade. A grande parte delas está no meio rural.”

Em seu livro “A luta contra o terrorismo: os Estados Unidos e os amigos talibãs”, o professor destaca que algumas mulheres começaram a tirar um visto para ir embora do Afeganistão, quando surgem os rumores de que o Talibã retornaria ao poder. Segundo ele, as mulheres do meio rural, que vivem com menos recursos, não tiveram essa alternativa e, qualquer que seja o regime, pedem por paz.

Refugiados


Logo que o Talibã retomou o poder no Afeganistão, cenas de cidadãos desesperados tentando deixar o país agarrados em aviões militares dos Estados Unidos chocaram o mundo. Esses novos refugiados enfrentarão dificuldades, assim como milhões de pessoas que tentam deixar seus países. A estimativa da ONU é que, até o fim deste ano, mais de 500 mil de afegão vão deixar o país e tentar abrigo principalmente nas nações vizinhas.

Segundo o professor Reginaldo Nasser, os países mostram interesse no Afeganistão para se posicionarem em relação à policia externa dos Estados Unidos, ou quando o país tem visibilidade da opinião pública internacional. Para o especialista, assim que o assunto deixar de ser tratado pela grande mídia, os refugiados afegãos enfrentarão dificuldades semelhantes a de sírios e palestinos. 

Após retomada do Talibã, avião dos EUA partiu lotado do Afeganistão com 823 passageiros

Após retomada do Talibã, avião dos EUA partiu lotado do Afeganistão com 823 passageiros

Chris HERBERT / US Airforce / AFP

"Página virada”

Ao deixar o território afegão, os Estados Unidos encaram o país como uma “página virada”. “Uma nova ocupação está fora de cogitação. O partido Democrata está muito mais centrado nas questões internas agora", aponta o professor.

"Agora, devemos acompanhar quais serão as atitudes da China e da Rússia, que se aproximaram do Afeganistão e que têm pretensões, ao que parece, de investimentos econômicos e construções de gasodutos. Creio que é por aí que a gente deve  observar a movimentação de grandes potências”, conclui.

 

Últimas