Argentina reforça isolamento enquanto sofre com recessão

Além da crise econômica, com previsão de 12% de retração do PIB, a Argentina também atravessa uma crise política acentuada por manifestações

Manifestante balança bandeira argentina em protesto na última segunda (17)

Manifestante balança bandeira argentina em protesto na última segunda (17)

Juan Ignacio Roncoroni - EFE/EPA 17.08.2020

Na semana passada, o presidente argentino Alberto Fernandéz anunciou a prorrogação da quarentena no país em uma tentativa de controlar novamente a propagação do novo coronavírus, mesmo com as manifestações contra a medida que ocorreram na última segunda-feira (17).

A Argentina caminha agora para o sexto mês de isolamento, com uma recessão gravíssima batendo à porta, ilustrada pelas previsões do Produto Interno Bruto (PIB) — variando entre um recuo de 8% e 12%.

Segundo o economista e professor de Relações Internacionais da ESPM, Leonardo Trevisan, o país vizinho já vivia uma situação financeira “mais complicada que a do Brasil”, mas que mesmo assim “tomou uma opção formal pela vida, atitude mais eficiente do ponto de vista da saúde pública, mas que parou a economia completamente”.

Dívida externa e dívida pública

Trevisan explica que a situação se iniciou no governo anterior, de Maurício Macri, que tomou “a maior ajuda da história do FMI”, assustadores US$ 56,3 bilhões (cerca de R$ 314 bi), levando o país quase à falência. Fernandez, então, assumiu a negociação da dívida como uma de suas promessas de campanha, a qual ele cumpriu, conseguindo um desconto de 54% no valor total.

Popularidade de Fernández despencou em junho

Popularidade de Fernández despencou em junho

Presidencia Argentina - EFE 14.08.2020

Porém, com as regras de controle sobre as importações mais rígidas, impostas no começo do ano e agravadas nessa semana, a redução na produção, natural do período de quarentena, mas intensificada pela longevidade do isolamento, e as medidas governamentais de auxílio emergencial, como a proibição de demissões, a Argentina estagnou e provocou o aumento de sua dívida pública.

Resultados

De acordo com Trevisan, essas decisões implicam em dois resultados: uma inflação mais robusta e redução do investimento estrangeiro.  “A Argentina vive uma situação cambial problemática. O peso argentino está em uma equivalência de 73 pesos para 1 dólar e a previsão otimista de inflação para esse ano é de 45%”, alerta.

“Mas o maior risco é que, nessa situação, o investidor externo não vai querer colocar o dinheiro no país, pelo medo de não receber seu dinheiro de volta, e quanto menos investimento, menos dinheiro pra saldar a dívida externa”, aprofunda Trevisan.

Esse problema é indicado pelo índice risco-país argentino, que é de 2000 pontos — o brasileiro é de 150 pontos. “A Argentina só está atrás da Venezuela, na América do Sul, quanto ao perigo de retorno de investimento”, conclui.

Crise política

Por outro lado, a popularidade decrescente de Fernandéz e a possível reforma judicial que dá mais influência para o Executivo nas decisões do Judiciário, que é vista como uma tentativa de manter Cristina Kirchner impune, são uma ameaça a estabilidade, já frágil, do país.

Fernández viu a aprovação de seu governo cair de 60% em maio para 49% em junho, e a avaliação ruim ou péssima estacionar nos mesmos 49%, após o país alcançar a marca de 100 dias em quarentena.

A reforma judiciária pode prejudicar mais ainda a visão da população em relação a Fernández. Ao anunciá-la, o presidente afirmou: “Procuramos superar que o poder de decisão se concentre em um pequeno número de magistrados”. A proposta, que inclui a criação de uma nova Justiça Criminal Federal, poderia colocar os processos em que a vice-presidente, Cristina Kirchner, é ré em outras mãos.

“Existe um equilíbrio sensível dentro do peronismo. A postura de de Kirchner pode atingir esse equilíbrio e agravar a crise”, conclui Trevisan.

*Estagiário do R7 sob supervisão de Fábio Fleury