As atitudes controversas de líderes americanos diante do coronavírus

Como Trump, Bolsonaro, López Obrador e outros presidentes da região contrariaram recomendações da OMS e atrasaram a reação à pandemia

Depois de negar a gravidade da doença, Trump tem dado coletivas diárias

Depois de negar a gravidade da doença, Trump tem dado coletivas diárias

Shawn Thew / EPA - EFE - 16.3.2020

Em um momento em que a situação exige políticas e dirigentes fortes para enfrentar a pandemia do coronavírus, vários líderes da América fizeram declarações polêmicas que confundem a população e contradizem as recomendações da OMS.

Os líderes dos dois países mais populosos do continente, o presidente dos EUA, Donald Trump, e do Brasil, Jair Bolsonaro, tiveram declarações públicas semelhantes, tentando tirar a importância da doença, e desafiaram as medidas da Organização Mundial de Saúde (OMS).

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Os casos de coronavírus fora da China já são mais de 83 mil, um número que pela primeira vez supera os registrados no país onde se originou a pandemia (atualmente, cerca de 81 mil), segundo os últimos dados.

De acordo com os gráficos atualizados no site oficial da entidade, o total de casos no mundo já passa dos 165 mil, uma cifra que mostra sem rodeios a gravidade do problema.

Trump comparou o coronavírus com a gripe

Na semana passada, o presidente Donald Trump diminuiu a importância do surto de coronavírus e até chegou a compará-lo com uma gripe comum, quando o total de mortos e contaminados ainda não havia atingido a magnitude de hoje.

"No ano passado, 37 mil norte-americanos morreram por causa da gripe comum. A média anual fica entre 27 mil e 70 mil por ano. Nada está fechado, a vida e a economia continuam (...)", declarou.

Donald Trump teve resultado negativo em um exame para determinar se estava infectado com o novo coronavírus, depois de ter tido contato com uma delegação do governo brasileiro, da qual várias pessoas contraíram a doença.

Há alguns dias, ele também havia dito que não toca o rosto há "semanas", como precaução contra o surto de coronavírus, e que é algo de que "tem saudade".

Bolsonaro disse que é ficção

O presidente do Brasil também se mostrou incrédulo diante do coronavírus e seus efeitos nos mercados, incluindo a Bovespa.

"Alguns da imprensa conseguiram converter uma queda no preço do petróleo em crise. Entendo que... para alguns é melhor cair 30% que subir 30%. Mas isto não é uma crise", disse Bolsonaro.

Em sua visita a Miami, o presidente do maior país sul-americano não se preocupou para o coronavírus ao dizer que havia um elemento de "ficção ou fantasia" sobre o surto.

Além disso, em plena pandemia do coronavírus, o presidente brasileiro ignorou a distância em eventos sociais recomendada pelas autoridades sanitárias e participou neste domingo de uma marcha a favor de seu governo e contra os poderes Legislativo e Judiciário em Brasília.

Paradoxalmente, o chefe da Secretaria Especial de Comunicação (Secom) da presidência brasileira, Fábio Wajngarten, que voltou de Miami com Jair Bolsonaro, foi diagnosticado com o coronavírus.

Sem parar de abraçar

No México, o presidente Andrés Manuel López Obrador seguiu neste domingo seu passeio pelo estado de Guerrero, na costa sul do Pacífico, participando de reuniões e distribuindo abraços em multidões, apesar da pandemia.

Em sua coletiva de imprensa em 4 de março, desdenhou das recomentações que há em outros países para limitar os contatos físicos como modo para frear os contágios. "Vejam, sobre o coronavírus, isso de que a pessoa não pode abraçar (...) tem que abraçar sim, não tem problema", disse ele.

Uma postura similar tem a Comussão Nacional de Educação Física e Esportes (Conade, na sigla em espanhol), que é presidida pela medalhista olímpica de atletismo Ana Guevara, que considera que o covid-19 não é uma emergência e não é preciso cancelar eventos.

"O coronavírus não é uma situação de emergência. Não há necessidade de cancelar eventos, nem de se fazer compras de pânico", escreveu a instituição em suas redes sociais. Depois de diversas respostas com críticas, a mensagem foi apagada,

Nicarágua desprotegida

Na Nicarágua, também houve uma atitude de negação diante do problema e uma das primeiras decisões tomadas pelo governo foi divulgar que não iria estabelecer uma quarentena para evitar a propagação do covid-19.

"Não estabelecemos, nem iremos estabelecer nenhum tipo de quarentena", reiterou a primeira-dama e vice-presidente da Nicarágua, Rosario Murillo.

O uso da mística revolucionária por parte do governo para implementar suas decisões também tem sido questionado, já que ele implica disciplina, lealdade e zero questionamentos, independentemente das ações.

Segundo a crença sandinista, o coronavírus ainda não chegou à Nicarágua "graças ao nosso comandante (o presidente) Daniel" Ortega.

"Guerra biológica"

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, afirmou que "há muitas análises no mundo que dem,onstram que o coronavírus pode ser uma cepa criada para a guerra biológica contra a China (....) e contra os povos do mundo".

A Venezuela, ele assegurou, "por sorte conta" com um plano para enfrentar "este ataque".

Não apenas na Venezuela, mas também nas redes sociais, se multiplicaram mensagens fraudulentas sobre a criação do covid-19 para frear o poder da China em todo o mundo.

No entanto, a ciência não atende a teorias conspiratórias e as recomendações da OMS ainda se mostram como o principal caminho para deter a pandemia e evitar um contágio mais rápido e mais intenso pelo mundo.