Internacional As intervenções armadas lideradas por Cuba na América Latina

As intervenções armadas lideradas por Cuba na América Latina

Nas últimas semanas, o tema das operações militares cubanas na região — quando Fidel e Che Guevara formaram guerrilhas e tentaram exportar a revolução para outros países — entrou no debate internacional sobre a crise política na Venezuela

As intervenções armadas lideradas por Cuba na América Latina

Fidel Castro e Ernesto 'Che' Guevara tentaram exportar a revolução para outros países da América Latina

Fidel Castro e Ernesto 'Che' Guevara tentaram exportar a revolução para outros países da América Latina

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Há 60 anos, cerca de 90 homens armados desembarcaram de um iate em uma praia do Caribe. Quase todos cubanos, usando uniformes militares e dispostos a derrubar o governo local.

O enredo soa parecido com o da expedição do iate Granma a Cuba, liderada por Fidel Castro e episódio importante da Revolução Cubana — mas não é.

A cena corresponde a uma invasão do Panamá que ocorreu em abril de 1959 e foi a primeira de uma dezena de intervenções armadas promovidas por Cuba na América Latina, desde o triunfo da revolução liderada por Fidel em 1º de janeiro daquele mesmo ano.

Nas últimas semanas, a questão da interferência militar cubana na região entrou fortemente no debate internacional sobre a crise política na Venezuela.

Em um discurso no mês passado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chamou o presidente venezuelano Nicolás Maduro de "fantoche cubano" e afirmou que é "controlado pelos militares de Cuba e protegido por um exército privado de soldados cubanos".

Essa é uma denúncia feita há anos na Venezuela.

Rocío San Miguel, presidente da ONG venezuelana Control Ciudadano, disse à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) que "Cuba interveio na reestruturação da Força Armada Nacional Bolivariana e que nos quartéis da Venezuela há uma presença permanente de militares cubanos".

No entanto, Havana nega qualquer interferência militar na Venezuela e defende seu apoio a Maduro como um gesto de solidariedade.

Cuba e Venezuela se tornaram aliados após a chegada ao poder de Hugo Chávez

Cuba e Venezuela se tornaram aliados após a chegada ao poder de Hugo Chávez

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A imprensa oficial da ilha afirma que a grande maioria dos 23 mil cubanos presentes na Venezuela são trabalhadores do setor da saúde.

O jornal oficial do Partido Comunista cubano, Granma, afirmou em um artigo recente que na Venezuela não há agentes cubanos nem soldados.

É um "exército de batas brancas", disse ele, referindo-se a médicos que compõem a maior parte das missões sociais cubanas que, segundo afirmam, também incluem professores, treinadores esportivos, jornalistas e assessores científicos e industriais, entre outros.

Desde o início da Revolução Cubana, uma das marcas da política externa do regime tem sido "exportar o socialismo".

Alinhados com a União Soviética durante a Guerra Fria, os cubanos têm uma história de apoio a governos e atores políticos ideologicamente relacionados a eles.

Fizeram isso por meio do envio de médicos, mas também fornecendo assessoria técnica e apoio logístico no campo militar.

Entre 1975 e 1989, por exemplo, Cuba enviou soldados para a guerra em Angola (embora o conflito tenha durado até 2002) e, mais recentemente, médicos para o programa venezuelano Barrio Adentro e para o brasileiro Mais Médicos.

No campo militar, veja a seguir quais foram as principais ações cubanas na América Latina:

Panamá

O iate com os homens responsáveis ​​por executar a invasão do Panamá partiu em 19 de abril de 1959 do porto cubano de Batabanó. A expedição havia sido promovida por Roberto Arias, sobrinho do ex-presidente Arnulfo Arias, que ganhou o apoio de Fidel Castro.

O presidente do Panamá, Ernesto de la Guardia, denunciou a invasão cubana perante a OEA

O presidente do Panamá, Ernesto de la Guardia, denunciou a invasão cubana perante a OEA

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Embora os invasores tenham conseguido tomar o porto colonial de Nombre de Dios, a denúncia do presidente Ernesto de la Guardia junto à OEA e a mobilização em massa de forças panamenhas, americanas e guatemaltecas levaram à rendição dos invasores.

Fidel Castro, que estava visitando os Estados Unidos, tentou se desvincular do episódio e descreveu a operação como "vergonhosa, inoportuna e injustificada". Ernesto "Che" Guevara, por sua vez, pontuou que Cuba exportou ideias revolucionárias, mas não a revolução em si.

Fidel Castro estava nos EUA quando a invasão do Panamá ocorreu e tentou se dissociar do episódio

Fidel Castro estava nos EUA quando a invasão do Panamá ocorreu e tentou se dissociar do episódio

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Havana ofereceu garantias ao Panamá de que um ataque similar não seria permitido e repatriou os presos cubanos, para que supostamente estivessem sujeitos a julgamento em um tribunal militar. Um mês depois, contudo, todos estavam em liberdade.

"O erro dessa operação foi de que a maior parte dos guerrilheiros era de cubanos, por isso não tiveram apoio local ao chegarem lá. Eram invasores estrangeiros. A partir daí, Cuba mudou a estratégia e usou mais combatentes locais", disse à BBC News Mundo Jonathan Brown, professor de História Latino-Americana na Universidade do Texas e autor do livro O Mundo Revolucionário de Cuba, sobre como a ilha tentou exportar a revolução para outros países por intermédio de insurreição armada.

Nicarágua

Menos de dois meses depois do fiasco do Panamá, em junho de 1959, uma expedição de cerca de 60 homens armados que partiram de Cuba desembarcou na costa caribenha de Honduras.

Durante algumas semanas, eles acamparam no local esperando para avançar rumo a seu verdadeiro objetivo: a Nicarágua, do outro lado da fronteira.

Luis Somoza Debayle foi o alvo da expedição que desembarcou em Honduras para tentar entrar na Nicarágua

Luis Somoza Debayle foi o alvo da expedição que desembarcou em Honduras para tentar entrar na Nicarágua

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Os expedicionários eram em sua maioria exilados nicaraguenses, acompanhados por guerrilheiros cubanos e guatemaltecos, que procuravam destituir o presidente Luis Somoza Debayle.

O governo de Honduras enviou soldados para a área, e um ataque surpresa casou a morte de 6 guerrilheiros, feriu 15 e prendeu o resto. "Não foi uma batalha, foi um massacre", lamentou Carlos Fonseca, um nicaraguense ferido.

Vários dos sobreviventes retornaram a Cuba, onde continuaram recebendo treinamento militar e se reagruparam com outros exilados nicaraguenses.

"Eles se tornaram os sandinistas, Fidel os continuou apoiando e, no final, seus esforços foram recompensados duas décadas depois", disse Brown, referindo-se ao triunfo da revolução nicaraguense em 1979.

República Dominicana

Em 14 de Junho de 1959, uma força de cerca de 60 homens - dominicanos e cubanos - decolou do leste de Cuba em um avião C-46 pintado com as cores da Força Aérea Dominicana. A aeronave pousou no aeroporto de Constanza, no interior do país — onde tomaram, de surpresa, um quartel.

Após o triunfo da revolução em Cuba, alguns grupos de exilados dominicanos esperavam que Fidel Castro os ajudasse a derrubar Trujillo

Após o triunfo da revolução em Cuba, alguns grupos de exilados dominicanos esperavam que Fidel Castro os ajudasse a derrubar Trujillo

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O avião imediatamente retornou a Cuba, onde Camilo Cienfuegos — que tinha sido encarregado da operação — ordenou a "prisão" do piloto venezuelano e, em seguida, negou a participação da ilha no evento.

Em paralelo, três navios transportaram cerca de 150 guerrilheiros armados para um local perto de Puerto Plata. Esses veículos, no entanto, chegaram com três dias de atraso na República Dominicana, o que permitiu ao governo de Rafael Leonidas Trujillo se colocar em alerta para o risco de emboscadas.

"A força que buscava instigar uma rebelião armada no país tinha sido completamente eliminada, todos os seus participantes morreram", anunciou em 23 de junho o porta-voz do governo dominicano.

Na verdade, alguns expedicionários sobreviveram, incluindo o comandante cubano Delio Gómez Ochoa, que foi capaz de retornar à sua terra natal depois que Trujillo foi assassinado, em 1961.

Segundo Brown explicou à BBC News Mundo, "em 1959 havia apenas quatro ditaduras na América Latina", dos três das quais no Caribe e alvo de Fidel Castro, que desejava eliminá-las porque "queria criar um mundo seguro para a revolução".

O caso de Trujillo foi especialmente preocupante para Havana.

"Ele estava dando ajuda e abrigo para ex-oficiais do extinto exército de Batista, conspirando para voltar ao poder em Cuba", disse o especialista.

Haiti

Em agosto de 1959, um grupo de cerca de 30 homens armados - majoritariamente cubanos e haitianos, com dois venezuelanos - partiu de Baracoa, na costa oriental de Cuba, rumo ao Haiti, a fim de derrubar do governo de François "Papa Doc" Duvalier.

As forças do governo de François 'Papa Doc' Duvalier reprimiram a invasão

As forças do governo de François 'Papa Doc' Duvalier reprimiram a invasão

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Os voluntários haitianos haviam recebido três meses de treinamento em uma base fora de Havana.

A expedição contava com organização de uma coluna pelo exército haitiano que nunca aconteceu, segundo o historiador cubano John F. Benemelis em seu livro As Guerras Secretas de Fidel Castro.

"A reação militar haitiana, liderada pelo general Mercerón, foi de total apoio a Duvalier", escreve Benemelis.

O resultado foi a aniquilação de praticamente todos os invasores, com algumas exceções, como quatro adolescentes cubanos que foram capturados, interrogados e deportados.

Argentina

Se as invasões da Nicarágua, República Dominicana e Haiti poderiam ser vistas como operações que buscavam eliminar adversários perigosos no entorno de Cuba, Brown acredita que as intervenções militares em outros países latino-americanos tinham outra função.

"Cuba logo se vingou de todos os governos da América Latina que não a reconheceram, assim como aqueles que se juntaram ao boicote dos EUA. Fidel Castro trouxe jovens de esquerda de outros países para a ilha, ofereceu-lhes treinamento de guerrilha e, em seguida, enviou-os de volta. Foi assim que ele continuou a intervir na região", explica o especialista.

Che Guevara planejou a operação de guerrilha na Argentina

Che Guevara planejou a operação de guerrilha na Argentina

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Um desses casos foi a Argentina. Em 1962, Che Guevara planejou estabelecer uma guerrilha rural na província de Salta, no norte do país. À frente da operação, colocou Jorge Ricardo Masetti, um jornalista argentino que o acompanhava desde a época da luta na Sierra Maestra.

Em junho de 1963, Masetti liderou um grupo de cinco homens armados - quatro argentinos e um cubano - que entraram em Salta pela Bolívia. Um deles viajou para Buenos Aires e Córdoba para recrutar cerca de 30 homens adicionais entre os argentinos de extrema esquerda.

Em um comunicado enviado à imprensa de Buenos Aires, Masetti anunciou a existência de seu grupo e a intenção de libertar a Argentina do imperialismo internacional, mas não houve reação.

Em fevereiro de 1964, as autoridades de Salta receberam informações sobre a presença de homens suspeitos em uma área remota, o que levou a uma série de operações que culminaram com a apreensão de todas as armas, munições e comida do acampamento dos guerrilheiros.

Os homens de Masetti passaram um mês vagando pela floresta em busca de alimento e abrigo.

No final, três morreram de fome, três perderam a vida em confrontos com as autoridades e 13 foram presos sem praticamente oferecer resistência, enquanto Masetti entrou na selva e desapareceu sem deixar vestígio.

Venezuela

O desembarque, em maio 1967, de um grupo de guerrilheiros de Cuba perto da praia Machurucuto, no leste da Venezuela, revelou os esforços cubanos de intervenção armada no país.

Héctor Pérez Marcano, um dos protagonistas dessa operação, disse à BBC que ela foi idealizada e diretamente supervisionada por Fidel Castro, que lhes deu todo o apoio.

Pérez Marcano fazia parte de um grupo de militantes do Movimento de Esquerda Revolucionária Venezuelana (MIR) que viajaram a Cuba para receberem treinamento de guerrilheiros e depois voltarem para fazer a revolução em seu país.

De acordo com seu relato, o plano original era pousar com oito combatentes - quatro venezuelanos e quatro cubanos - que atuariam em uma área montanhosa cerca de 160 km a leste de Caracas.

No entanto, a captura de três tripulantes cubanos da lancha que os levaria à costa expôs a expedição.

A situação resultou na ruptura das relações diplomáticas entre Caracas e Havana.

O episódio conhecido como "o Incidente de Machurucuto", porém, não foi a primeira ou a maior operação desse tipo executada por influência de Fidel na Venezuela.

Um ano antes, houve uma expedição maior, que tinha transportado um grupo de guerrilheiros do Partido Comunista da Venezuela formado em Cuba por combatentes da ilha, incluindo Arnaldo Ochoa Sanchez, que, anos depois de chegar ao posto de general, foi fuzilado na ilha ao ser condenado em um julgamento polêmico por tráfico de drogas.

Peru

Nos primeiros anos da década de 1960, cerca de 200 jovens esquerdistas peruanos receberam treinamento de guerrilha em Cuba.

Segundo apontado por Brown em seu livro, o maior grupo correspondia aos militantes do Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), um grupo de desertores das fileiras da Aliança Popular Revolucionária Americana (Apra). Havia também outro formado por dissidentes do Partido Comunista do Peru, que escolheram ser chamados de Exército de Libertação Nacional.

Governo do presidente Fernando Belaúnde reprimiu violentamente grupos insurgentes no Peru

Governo do presidente Fernando Belaúnde reprimiu violentamente grupos insurgentes no Peru

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Muitos desses homens retornaram ao Peru, onde ambos os grupos entraram em ação separadamente em 1965, realizando ataques em várias partes do país.

O governo do presidente Fernando Belaúnde respondeu de forma contundente. As autoridades conseguiram sufocar os primeiros focos de insurgência em um ano, chegando a declarar que a missão de dar fim à guerrilha estava cumprida.

"Uma vez que eles perceberam que havia guerrilheiros em áreas rurais, passaram a persegui-los com toda a força. Muitos dos militares da América Latina haviam aprendido com o que aconteceu na revolução cubana e não iriam ignorar a presença de grupos armados no país (por menores que fossem). Foi o que Batista fez em Cuba na década anterior: ele ignorou os guerrilheiros na Sierra Maestra até que fosse tarde demais", diz Brown.

Guatemala

"A Guatemala foi um dos projetos onde a maioria (dos militantes) rapidamente se juntou a Fidel e Che Guevara desde o início, especialmente porque o país havia concedido bases de treinamento para os exilados cubanos que participaram da frustrada invasão da Baía dos Porcos", diz John F. Benemelis em seu livro.

No entanto, de acordo com o autor, mesmo antes desse episódio Che Guevara tinha feito um pacto secreto com o presidente guatemalteco Jacobo Arbenz - derrubado por um golpe apoiado pelos Estados Unidos - para restituí-lo ao poder.

Raúl Castro ao lado do presidente deposto da Guatemala Jacobo Arbenz durante um ato em Havana em 1960

Raúl Castro ao lado do presidente deposto da Guatemala Jacobo Arbenz durante um ato em Havana em 1960

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Em 3 de outubro de 1960, o governo do presidente Miguel Ydígoras Fuentes emitiu um comunicado no qual relatou que a Força Aérea havia atacado uma embarcação cubana que aparentemente tentava desembarcar com armas na costa atlântica do país.

Cerca de três semanas depois, o governo denunciou um plano para invadir o país pela fronteira com Honduras.

A informação oficial era de que a operação seria realizada por uma força de cerca de 200 homens liderados por Augusto Charnaud MacDonald, ex-ministro do Interior de Arbenz, que havia sido visto pela última vez em Havana.

No mês seguinte, ocorreu uma revolta militar nas cidades de Zacapa e Puerto Barrios, na qual participou o tenente Marco Yon Sosa, que mantinha contatos com Cuba e depois se tornou comandante de guerrilha.

Conforme relata Benemelis, aviões da Força Aérea cubana abasteciam os rebeldes, enquanto em Honduras havia sido descoberta uma coluna de homens armados liderados por funcionários cubanos que buscavam apoiar os rebeldes.

A revolta foi sufocada pelo governo guatemalteco, que exigiu que a OEA tomasse medidas contra Cuba.

Colômbia

A influência e o apoio de Cuba estão na origem do Exército de Libertação Nacional (ELN) da Colômbia.

A primeira semente deste grupo foi a "Brigada José Antonio Galán", criada em Cuba por seis jovens estudantes colombianos que viajaram a Havana com bolsas do governo cubano.

Dois anos depois, em 1964, com apenas 18 guerrilheiros, foi criado o ELN, cujas fileiras logo seriam engrossadas por vários padres católicos seguidores da Teologia da Libertação.

O Exército Colombiano de Libertação Nacional foi criado por um grupo de estudantes treinados em Cuba

O Exército Colombiano de Libertação Nacional foi criado por um grupo de estudantes treinados em Cuba

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No entanto, segundo Brown, quando o ELN foi lançado, tornou-se um movimento independente da tutela de Havana. Isso, no entanto, não exclui a hipótese de que eles tenham recebido apoio material do regime de Fidel.

Na Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade, realizada em Havana em agosto de 1967, representantes do ELN receberam a promessa de remessa de armas por Cuba suficientes para armar os 500 camponeses que haviam se organizado no leste da Colômbia.

Décadas depois, houve ainda outro episódio.

Em março de 1981, o governo do então presidente colombiano Julio Cesar Turbay anunciou que seu país rompia relações com Cuba, acusando o governo da ilha caribenha de apoiar o desembarque de armas e de combatentes do movimento guerrilheiro M-19 na costa da Colômbia, no departamento de Chocó. Cuba negou na época as acusações da Colômbia.

O pouso foi um fracasso, o exército colombiano interceptou os combatentes na área de selva de Chocó pouco depois de chegarem à costa.

El Salvador

A oportunidade para a intervenção militar de Cuba em El Salvador surgiu com o triunfo dos sandinistas na Nicarágua em 1979.

No entanto, de acordo com Brown, isso não se traduziu na presença de militares cubanos no país, mas sim em uma grande quantidade de apoio em material e assessoria técnica.

EUA afirmaram que Cuba foi fundamental para promover a unificação dos guerrilheiros salvadorenhos

EUA afirmaram que Cuba foi fundamental para promover a unificação dos guerrilheiros salvadorenhos

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Um relatório do Departamento de Estado dos EUA de 1981 atribuía a Fidel Castro e ao governo cubano um papel central na promoção da unificação dos grupos guerrilheiros salvadorenhos - cujos líderes haviam se reunido em Havana em maio de 1980 -, bem como a entrega secreta de quase 200 toneladas de armas que serviriam para preparar a "ofensiva geral" lançada por esses grupos em janeiro de 1981.

De mal armados e mal coordenados até setembro de 1980, de acordo com o governo americano, os guerrilheiros salvadorenhos passaram a contar com impressionante arsenal de armas modernas em janeiro de 1981, quando a ofensiva foi lançada.

Nos anos 2000, durante a 10ª Cúpula Ibero-Americana no Panamá, o então presidente de El Salvador, Francisco Flores, culpou Castro pela morte de milhares de salvadorenhos durante a guerra civil em seu país, que se estendeu de 1980 a 1992.

Fidel, em tom beligerante, respondeu que condenava os crimes e se dissociou das acusações.

Bolívia

A Bolívia foi o país escolhido por Che Guevara para provar sua tese de que não havia necessidade de haver condições objetivas em um lugar para realizar a revolução, porque a própria guerrilha seria capaz de criar essas condições.

Com essa convicção, em 1966, ele viajou escondido para a Bolívia, acompanhado por cerca de 25 combatentes cubanos, para chefiar um centro de guerrilha no país.

Che Guevara quis abrir um novo foco guerrilheiro na Bolívia

Che Guevara quis abrir um novo foco guerrilheiro na Bolívia

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Segundo Brown, esse foi o único caso em que a presença cubana foi tão importante desde a fracassada invasão do Panamá. O motivo, para ele, era o fato de que a operação era comandada por Che Guevara.

A iniciativa durou alguns meses. Depois de sucessos iniciais, os guerrilheiros se viam constantemente fugindo do exército boliviano, que parecia onipresente. Em outubro de 1967, quando Che foi capturado e executado, o grupo foi praticamente aniquilado.

No final da década, as intervenções cubanas na região diminuíram de intensidade.

De acordo com Brown, isso ocorreu não apenas por causa do fracasso das operações prévias, mas pela própria morte de Che Guevara, que era um dos principais promotores da ideia de levar a revolução ao restante da região, e pela oposição da União Soviética a esse tipo de estratégia.

"Moscou foi contra essas intervenções no resto da América Latina, que não se ajustavam à doutrina soviética sobre como o comunismo dominaria o mundo. Esses países sempre se opuseram a isso, embora Fidel continuasse a fazê-lo durante a década de 1960. No final, ele teve que perceber que não teria sucesso, e isso aconteceu depois da morte de Che", conclui Brown.