Terror na Europa
Internacional Ataque em Manchester choca por matar crianças, fortalece ideologias terroristas e expõe insegurança fora de capitais

Ataque em Manchester choca por matar crianças, fortalece ideologias terroristas e expõe insegurança fora de capitais

Alvos de atentados são grandes aglomerações, diz especialista; população está insegura 

Ataque em Manchester choca por matar crianças e adolescentes, fortalece ideologias terroristas e expõe insegurança fora de capitais

Atentados terroristas como o da noite desta segunda-feira (22) na Inglaterra — que matou 22 pessoas e deixou mais de 50 feridos — expõem a intenção dos grupos terroristas de atacar grandes aglomerações e disseminar o desespero e a insegurança entre a população. É o que afirma Peterson Silva, professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco, especialista em Política e Segurança Nacional e Internacional e pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos do Exército Brasileiro.

— Esse conceito se chama propaganda pela ação. O recado transmitido pelo incidente no show da cantora Ariana Grande, que teve como alvo principalmente crianças e adolescentes, é chocante e asqueroso. A ideia dos terroristas é que o acontecimento seja transmitido pela mídia da forma mais rápida e estrondosa possível, e assim todos pensem que não estão seguros mesmo em cidades como Manchester, que não é uma capital europeia.

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 Embora muitos ataques similares na Europa tenham ocorrido em locais voltados para o entretenimento — caso do tiroteio na casa de espetáculos Bataclan, em 2015, em Paris, das explosões perto do estádio de futebol Stade de France, no mesmo ano, e da invasão de um caminhão à feira de Natal em Berlim, em 2016, na Alemanha —, o objetivo principal não é minar a diversão, e sim atingir o maior número de pessoas possível, explicou Silva.

— Quanto maiores forem as consequências, mais próximos os grupos extremistas estão de atingir seus objetivos. É um conceito didático da violência: o que eles querem [Al Qaeda, Estado Islâmico] é fortalecer seu nome e seu poder, mostrar que contam cada vez com mais adeptos, que enquanto suas reivindicações não forem atendidas, os atentados vão continuar. Para esses grupos, aliás, é muito conveniente transmitir o recado de que mesmo uma única pessoa fazendo uso de uma bomba improvisada possa causar grandes estragos.

Lobos não tão solitários

Segundo informações divulgadas pela primeira-ministra britânica Theresa May, o autor do ataque desta segunda-feira, um homem-bomba, agiu sozinho e fez uso de um artefato de fabricação caseira. Os chamados “lobos solitários” — que agem individualmente em grandes atos de terror — vêm ganhando destaque recentemente. Eles protagonizam incidentes com facas em locais públicos ou jogam seus carros contra calçadas movimentadas. O pesquisador pondera, porém, que a “solidão” é questionável nesses casos.

— O próprio conceito de “lobo solitário” é controverso. Há analistas que defendem, sim, que algumas pessoas abaladas psicológica ou emocionalmente busquem mensagens disseminadas por organizações como o Estado Islâmico por motivos de vingança ou por quererem fazer parte de algum grupo. Elas agiriam completamente sozinhas, somente com base em dados de sites.

Outros pesquisadores indicam, entretanto, que investigações mais profundas podem revelar contatos efetivos com líderes dos grupos extremistas e evidências concretas de apoio dos mandantes terroristas, diz Silva. “Hoje essa identificação é muito dificultada pelas mensagens criptografadas de apps como Telegram e Whatsapp, mas muitas vezes se constata que o cara não é tão solitário assim. O que se sabe, de qualquer forma, é que o leque de ataques é cada vez maior. Existe desde um homem que faz uso de uma faca em um museu até aquele que atira seu próprio veículo contra uma ponte lotada de pessoas”, completa o especialista.

Impacto na política

As eleições gerais no Reino Unido estão marcadas o próximo dia 8 de junho. O ataque no show da Ariana Grande deve impactar o cenário político e fomentar o debate sobre terrorismo, à medida que muitas comunidades muçulmanas são marginalizadas em capitais europeias como Londres e Paris, segundo explica o professor de Relações Internacionais. Os líderes do continente, porém, parecem estar adotando discursos mais ponderados no que diz respeito à imigração e às minorias, observa Silva. 

— Não é algo concreto, mas existe um indicativo de que certos políticos já entenderam que o bem-estar da população não é garantido com discursos de exclusão, de xenofobia, de preconceito. A vitória do Macron na França é um indício disso, porque a adversária dele, Marine Le Pen, perdeu as eleições por conta também de declarações muito excludentes em relação aos imigrantes. O próprio pronunciamento da Theresa May hoje, no dia seguinte ao ataque de Manchester, pareceu bem mais ponderado. Ela falou muito em esperança, se preocupou em elogiar esforços da equipe de socorro e mostrar que atos como esse não vão atingir ou impedir que um cidadão tenha oportunidade de se divertir.

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Reforçar ideias de xenofobia e de marginalização de minorias como os muçulmanos, de acordo com Silva, é uma armadilha que só fortalece o terrorismo — já que os grupos extremistas procuram recrutar sempre os indivíduos que se sentem excluídos pela sociedade. "O ideal é que hajam ações por parte do governo e da sociedade civil organizada para acabar com ciclo vicioso do extremismo violento. Isso começa na educação infantil e deve passar projetos de desradicalização e programas de orientação para jovens", conclui o professor. Por enquanto, o dia a dia para o europeu comum deve ser bastante impactado. 

— Com o tempo os atentados costumam ser absorvidos e a população convive melhor com isso, mas hoje na Europa o cidadão está muito mais atento porque sabe que pode ser vítima em qualquer lugar, qualquer hora do dia. Seja no metrô, em uma ponte no meio da cidade, em uma casa de shows. Acredito que ninguém julgue estar seguro, por mais que os governos se esforcem em mostrar policiais armados, inteligência de ponta e resposta imediata aos incidentes.