Terror na Europa
Internacional Ataque em Paris foi "armadilha para chamar a atenção", diz especialista

Ataque em Paris foi "armadilha para chamar a atenção", diz especialista

Segundo Reginaldo Nasser, atos foram muito mais políticos do que religiosos

Ataque em Paris foi "armadilha para chamar a atenção", diz especialista

Duas operações policiais mataram três terroristas na sexta-feira (9)

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AP

“Claro que não! O ataque à redação do Charlie Hebdo não tem nada a ver com religião. É um subterfúgio”, afirma o professor de Relações Internacionais da PUC-SP Reginaldo Nasser, sobre o atentado ocorrido no último dia 7, na capital da França.

Para Nasser, a ação é típica de grupos terroristas, uma armadilha cujo objetivo é chamar a atenção, mostrar poder e afirmar que o governo é fraco.

— Eles querem visibilidade. Por que não atacaram um jornal da periferia? No mesmo dia aconteceu um atentado no Iemên, com 50 mortos. Mas ninguém falou nada.

“O recado foi dado. Eles mostraram nossa vulnerabilidade e que também somos alvo. Como pode dois homens, munidos com fuzis, sairem atirando no centro de Paris, em plena luz do dia? Quem vai andar tranquilo agora nas redações e nas ruas?”, questiona.

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O professor volta a destacar que é preciso deixar claro que não se trata de um ataque religioso.

— Religiosidade é uma coisa, o que a organização faz é outra coisa. Geralmente essas pessoas são menos religiosas. Você acha que eles estão orando o dia inteiro? De jeito nenhum! Eles pegam pessoas suscetíveis, dão vida, status e treinamento.

Como o caso dos suspeitos, dois irmãos franco-argelinos, órfãos, mas cujos pais eram seculares e que aderiram ao islamismo apenas aos 19 anos.

Perguntado sobre o possível peso dos 132 anos de colonização francesa na Argélia, Nasser acredita que o passado não pode ser desprezado.

— Mas não podemos fazer uma ligação direta. Se for isso os pais dos suspeitos teriam mais motivos do que eles, que já nasceram na França.

Luis Fernando Vitagliano, professor de Relações Internacionais do Senac, compartilha da mesma opinião: “Não dá para atribuir a ação à colonização. Pode haver vários motivos que influenciaram o ataque. Além disso, a relação com os imigrantes na França é muito complicada. Um franco-argelino não é um cidadão francês com todos os seus direitos. O fato da guerra da Argélia também complica. Mas ainda não dá para dizer que foi uma coisa só, ou que foi o atentado de um grupo específico”.

Vitagliano diz que a tendência é culpar um grupo, mas é preciso esperar as investigações.

— É preciso tomar cuidado para não estimular a islamofobia. A atitude de algumas pessoas, uma leitura radicalizada, pode provocar a aversão, já que o Ocidente tem uma visão distorcida do Islã.

Sem autoria

Até o momento nenhum grupo assumiu a autoria dos ataques, fato que chamou a atenção de Reginaldo Nasser.

— Mas há uma hipótese: eles fugiram e ainda não estão em um local seguro. Geralmente eles esperam os membros voltar com segurança e só então se identificam. Bin Laden demorou dois anos para assumir o ataque às Torres Gêmeas.

Outro fator questionado é a carteira de identidade encontrada.

— Pessoas bem treinadas como eles, que demonstraram que são frios, calmos, que agiram com estilo militar, roupa militar, fuzil automático, esqueceriam a carteira de identidade? Pode ser, mas é quase improvável. Alguém poderia ter deixado no local, até mesmo a polícia.