Internacional Atentado contra Malala causou 'choque pelo absurdo', diz biógrafa

Atentado contra Malala causou 'choque pelo absurdo', diz biógrafa

Sete anos atrás, paquistanesa levou tiro no rosto ao entrar em van escolar. Objetivo de talibãs era matá-la simplesmente porque ela queria estudar

Malala Yousafzai

Ativista paquistanesa Malala Yousafzai foi alvo de atentado em 2012

Ativista paquistanesa Malala Yousafzai foi alvo de atentado em 2012

EFE/ Franck Robichon/22.03.2019

O atentado contra a ativista paquistanesa Malala Yousafzai — que levou um tiro no rosto ao entrar em uma van escolar no dia 9 de outubro de 2012, quando tinha 15 anos — é um daqueles casos que geram “choque pelo absurdo”. A constatação é da jornalista brasileira Adriana Carranca, que atua como correspondente internacional e é autora do livro infantil Malala, a menina que queria ir para a escola, publicado pela Companhia das Letras em 2015.

“Foi um episódio emblemático porque ocorreu em um momento em que nós discutíamos muito o acesso à educação. E a Malala, de fato, levou um tiro na cabeça só porque queria estudar”, aponta a jornalista, em entrevista ao R7.

Ativista pela educação

Natural de uma área conservadora do Paquistão, o Vale do Swat, Malala começou sua trajetória como ativista em um blog.

Na página, escrevia sob o pseudônimo de Gül Makai sobre a repressão do regime talibã — que destruía escolas e proibia o acesso à educação para meninas na região. Os extremistas acabaram por tentar matá-la e justificaram que a lei islâmica os obrigava a isso. A trabalho, Adriana Carranca desembarcou no país justamente após o ataque.

“Era tudo muito recente. Ela ainda estava em coma em um hospital perto de Islamabad [a capital paquistanesa]. Logo depois, seria transferida para a Inglaterra. Estavam todos ainda sob o impacto da notícia e as crianças estavam muito assustadas: não sabiam se os talibãs ainda pretendiam realizar novos atentados ou se aquele havia sido um ato pontual. O clima era muito tenso”, diz.

Reconhecimento internacional

Quando Malala acordou do coma alguns meses depois no hospital Queen Elizabeth, em Birmingham, no Reino Unido, já era mundialmente conhecida. Desde então, retomou os estudos, lançou um livro autobiográfico, tornou-se a pessoa mais jovem a ganhar um prêmio Nobel da Paz, aos 17 anos, em 2014, e criou o Malala Fund — organização internacional sem fins lucrativos que luta pela educação de meninas em vários países.

A grande lição da história de Malala, na opinião de Adriana, é que “mudar o mundo não requer poderes sobrenaturais”.

“Hoje, nós falamos tanto da educação de meninas por causa da figura de Malala, e isso mudou quando o pai dela decidiu educá-la. Foi uma ação privada, uma decisão muito pessoal dele, que teve uma filha e decidiu que ela tinha o mesmo direito que os filhos de receber educação. O mundo começou a mudar ali”, pontua a jornalista.

O papel do pai

Malala e o pai em visita ao Vale do Swat em 2018

Malala e o pai em visita ao Vale do Swat em 2018

EFE/EPA/FARIDULLAH/31.03.2018

Ziauddin Yousafzai, pai de Malala, é um educador e intelectual que, no início dos anos 2000, construiu uma escola no Vale do Swat para que a filha e outras meninas pudessem estudar. Atualmente, atua como assessor especial da ONU (Organização das Nações Unidas) para a educação global e é adido educacional do consulado paquistanês em Birmingham, na Inglaterra.

“No lugar onde tudo aconteceu, fica evidente que essa decisão tomada por ele [de educá-la] não foi pequena. É um lugar em que as mulheres vivem confinadas em casa e muitas nem entendem qual o motivo de estudar. É uma área tribal onde sequer chega o sistema de Justiça do Paquistão. Tudo é decidido por um conselho de homens da tribo”, ressalta Adriana Carranca — que visitou a instituição de ensino aberta por Ziauddin quando esteve no Paquistão.

“Quando conheci a escola, havia lá 900 alunas — ou 900 ‘Malalas’, como costumo dizer. Foi impressionante, porque a área era desértica, com casas onde faltava luz, a sensação era de isolamento e marginalização. E quando você chegava na escola, percebia que as meninas falavam quatro línguas e eram muito articuladas. Foi um lugar em que ficou evidente, para mim, o poder da educação”, lembra.

Contexto de guerra

Exatos sete anos após o atentado contra Malala, a jornalista brasileira analisa que a situação de conflito que viviam países como Paquistão e Afeganistão também contribuiu muito para a projeção internacional alcançada pelo caso da ativista.

“Os talibãs — que tentaram matar Malala — estavam ligados à guerra no Afeganistão, que é a mais longa em que os Estados Unidos já estiveram envolvidos em sua história. O afegão Osama bin Laden, que havia ordenado os ataques do 11 de setembro, foi morto e capturado no Paquistão um ano antes do ataque contra Malala”, explica.

Ainda hoje, analistas internacionais apontam que o Taleban e outros grupos extremistas treinam seus militantes em cidades paquistanesas.

O futuro de Malala

Para Adriana Carranca, Malala — que agora estuda política na Universidade de Oxford, na Inglaterra — deve se manter como uma figura importante de influência sobre as questões mais importantes de nossos tempos.

Recentemente, a ativista lançou o livro Longe de casa (publicado em 2019 no Brasil pela Editora Seguinte), em que fala sobre a própria trajetória e a de outras nove garotas refugiadas.

“A gente esquece, mas a Malala também é refugiada. A Inglaterra abriu os braços para ela, mas ela estava fugindo da violência. E embora ela tenha recebido esse tratamento, os países fecham as portas a muitas crianças refugiadas. Por isso ela se sentiu pessoalmente compelida a falar sobre o assunto”, diz a jornalista.

No futuro, é ainda possível que a paquistanesa retorne ao seu país de origem como uma liderança política. “O Paquistão tem um histórico e exemplos muito fortes, como o de Benazir Bhutto [que foi duas vezes primeira-ministra e a primeira mulher a chefiar um governo muçulmano na história moderna]. Talvez a Malala também tenha esse desejo de transformar seu país”, finaliza a brasileira.