Audiência traz novos detalhes sobre morte de Ahmaud Arbery

Audiência de custódia traz à tona novas informações sobre o assassinato do rapaz negro por supremacistas brancos no estado da Geórgia, em fevereiro

Marcus Arbery e Wanda Coooper, pais de Ahmaud Arbery, falam após audiência

Marcus Arbery e Wanda Coooper, pais de Ahmaud Arbery, falam após audiência

Erik S. Lesser / EFE - EPA - 4.6.2020

Semanas antes de George Floyd ser morto por policiais brancos em Minneapolis, os EUA já tinham registrado uma onda menor de protestos contra o racismo, após a prisão dos acusados pela morte de Ahmaud Arbery, um rapaz negro de 25 anos, na Geórgia. Uma audiência de custódia na última quinta-feira (4) trouxe à tona novos detalhes sobre o caso.

Na ocasião, o juiz Wallace Harrell decidiu que havia evidências suficientes para que os acusados George e Travis McMichael, pai e filho que perseguiram Arbery com uma caminhonete enquanto ele corria em uma área residencial em Brunswick, e William "Roddy" Brian, que gravou o vídeo que chocou os EUA e também participou da perseguição, fossem julgados por homicídio qualificado.

Durante a audiência, o investigador estadual Richard Dial relatou que Travis McMichael disparou três tiros de escopeta contra Arbery e, após cometeu o crime, gritou uma expressão racista enquanto a vítima agonizava no asfalto. George estava na caçamba da caminhonete com uma pistola na mão e Bryan em um segundo veículo.

Dial também contou que Ahmaud tentou escapar de seus perseguidores mudando várias vezes de direção e não conseguiu porque teve o caminho travado pela caminhonete de Bryan, que vinha logo atrás. O homem que gravou o vídeo chegou a atingi-lo com o veículo. Quando os McMichael conseguiram encurralá-lo e Travis apontou a escopeta, Arbery tentou se defender, mas foi baleado.

"Legítima defesa"

No primeiro depoimento, Travis disse que foi atacado por Arbery e que teria atirado em legítima defesa. Dial, no entanto, rechaçou essa hipótese. Ele também contou que a polícia encontrou uma bandeira dos 'confederados' (estados do Sul que defendiam a escravidão na Guerra de Secessão do século 19) em uma caixa de ferramentas na caminhonete dos McMichael e mensagens racistas no celular.

"Eu acredito que Arbery tentou escapar do confronto, que ele tentou fugir, mas que não teve saída", disse o agente estadual.

George e Travis McMichael e William Bryan serão julgados em uma data que ainda não foi divulgada e, se forem condenados, podem pegar prisão perpétua. Há ainda uma investigação na esfera federal, que pode resultar em um outro julgamento contra eles, por crime de ódio.

Família pede justiça

Após a audiência, Wanda Cooper, mãe de Ahmaud Arbery, fez queixas contra dois procuradores do estado da Geórgia, que segundo ela atrasaram as investigações do caso. O assassinato aconteceu no fim de fevereiro, mas os suspeitos só foram detidos por causa da divulgação do vídeo.

Ahmaud foi morto em fevereiro

Ahmaud foi morto em fevereiro

Arquivo pessoal via Reuters

"Eles tiveram acesso às mesmas provas que temos hoje e escolheram não fazer nenhuma prisão. Acho que foi tudo feito do jeito errado antes e eles poderiam ter ficado livres", reclamou Wanda.

Segundo o advogado da família, Lee Merritt, eles vão avaliar em conjunto com o FBI e o Departamento de Estado, se irão entrar com processo contra a procuradora Jackie Johnson, de Brunswick e o procurador George Barnhill, que acabaram se recusando a seguir com o caso porque tinham ligações anteriores com Gregory McMichael.

McMichael é policial aposentado e trabalhou como investigador na promotoria de Brunswick. Dial afirmou na audiência de quinta-feira que Greg ligou para o escritório da promotoria antes mesmo de deixar a cena do crime, onde Ahmaud Arbery foi morto por seu filho. Não se sabe o conteúdo da ligação.