Autor: foto de pai e filha afogados reflete desespero de migrantes

Imagem que correu o mundo nesta terça-feira (26) retrata o desespero e os perigos que os migrantes enfrentam em busca de refúgio nos EUA

Imagem reflete desespero dos migrantes, diz autor

Imagem reflete desespero dos migrantes, diz autor

REUTERS/Stringer - 24.6.2019

A imagem de um salvadorenho e de sua filha de apenas 1 ano e 11 meses afogados no rio Grande (também chamado de rio Bravo), que ganhou destaque em todo o mundo nesta quarta-feira (26), reflete o desespero dos migrantes que tentam obter asilo nos Estados Unidos e os perigos que enfrentam ao tentarem chegar ao país pelo México de forma ilegal, afirmou nesta quarta-feira o autor da foto, Abraham Pineda Jácome, da Agência Efe.

A foto mostra os corpos de Óscar Martínez, de 25 anos, e de sua filha Valeria na margem mexicana do rio. A menina aparecia dentro da camiseta do pai — uma tentativa de protegê-la — e o abraçando.

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A chocante imagem lembra a foto de 2015 de um menino sírio de três anos que fugia da guerra em seu país, presumivelmente em companhia de familiares, e foi encontrado afogado em uma praia na Turquia.

O fotógrafo da Efe contou que relatos de afogamentos de migrantes no rio Grande fizeram com que fosse iniciada uma operação de resgate por parte das autoridades mexicanas na tarde de domingo no município de Matamoros, no estado de Tamaulipas.

"Mas tiveram que suspender a operação, porque anoiteceu. Nesse lugar não há luz, e a visibilidade é nula, então não se podia fazer nada. No dia seguinte, às nove da manhã, a retomaram. Eu já estava lá, esperando que as atividades fossem retomadas", explicou.

Pineda disse que dois agentes da Defesa Civil abordaram uma lancha e iniciaram uma busca no rio. Cerca de uma hora depois, outros agentes que estavam em terra comunicaram que tinham sido encontrados corpos flutuando na água, que foram arrastados para a margem.

"Corri para o lugar para confirmar o que estavam dizendo. Quando cheguei, os corpos estavam na margem. Vi essa imagem, e por instinto, como jornalista, o que fiz foi fotografar. Depois saí, porque chegaram as autoridades e iriam isolar a área", contou.

Para o fotógrafo, as mortes de Óscar e Valeria são "um resultado do endurecimento das políticas migratórias tanto dos Estados Unidos como do México".

Ele afirmou que houve um momento em que os EUA estavam dando asilo aos migrantes que entravam em seu território por Matamoros, mas com o endurecimento da política, começou a aumentar o número de pessoas na fronteira.

"Estamos falando de cubanos, centro-americanos, sul-americanos. Alguns optaram por entrar no rio e atravessar a fronteira nadando", relatou.

"Muitos deles têm uma teoria de que, se chegarem ao outro lado, os Estados Unidos terão que atender o pedido de asilo. Não é garantido, mas eles se desesperam", acrescentou.

Pineda falou com o irmão de Óscar, que lhe contou ter recomendado ao familiar para que não tentasse atravessar nadando, porque "o rio era muito traiçoeiro".

"E é verdade, porque a cada mês um migrante morre afogado. Mas (Óscar) não levou em conta e se jogou na água, agiu com desespero, em vez de esperar dois ou três meses aqui em Matamoros para que o pedido fosse analisado. Quis agilizar as coisas, mas foi imprudente", afirmou.

Sobre o impacto da fotografia nas políticas migratórias, Pineda considera que "poderia ter um efeito positivo em uma parte da sociedade dos Estados Unidos, mas na verdade (o presidente americano, Donald) Trump diretamente não deve mudar nada".

O fotógrafo lembrou que o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, foi solicitado a se manifestar sobre a foto, mas "somente disse que lamentava, e além disso não houve outra reação".

"De fato, ontem mesmo a Guarda Nacional mexicana chegou a Matamoros para acompanhar funcionários do Instituto Nacional de Migração (Inami) para abalisar os documentos dos que estão tentando asilo. Supõe-se que a Guarda deveria cuidar da população, mas na prática parece que cuida é da fronteira", opinou.