Internacional Biden anuncia retirada das tropas do Afeganistão até 11 de setembro

Biden anuncia retirada das tropas do Afeganistão até 11 de setembro

A OTAN, por sua vez, afirmou que iniciará a saída de seus soldados do país já a partir de maio; opositores temem retorno do Talibã

  • Internacional | Do R7, com AFP

Presidente dos EUA visitou túmulos de soldados mortos no Afeganisão em cemitério na Virgínia

Presidente dos EUA visitou túmulos de soldados mortos no Afeganisão em cemitério na Virgínia

Brendan Smialovski / AFP - 14.4.2021

O presidente Joe Biden anunciou nesta quarta-feira (14) que chegou o momento de "encerrar a mais longa guerra dos Estados Unidos" e iniciar a retirada incondicional das tropas do Afeganistão, onde o país passou duas décadas em uma sangrenta e, em muitos aspectos infrutífera, batalha contra o Talibã. 

Leia também: EUA gastaram quase R$ 27 trilhões em guerras no Oriente Médio

Apelidada de "a mais longa das guerras", a ofensiva do exército norte-americano no país começou como resposta aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.

Agora, 20 anos depois — e com quase 2,4 mil soldados dos EUA e dezenas de milhares de afegãos mortos — Biden escolheu 11 de setembro de 2021 como prazo para que os últimos militares norte-americanos deixem o país. A guerra, no entanto, continua indefinida.

O governo de Cabul, que conta com a poio da comunidade internacional, controla com dificuldades apenas algumas partes do país, enquanto o Talibã se fortalece. Cada vez mais vozes preveem que os rebeldes tratarão de tomar todo o poder conforme a presença militar dos EUA for desaparecendo.

Em seu discurso, Biden afirmou que não há outra alternativa.

"Não podemos seguir o ciclo de estender ou aumentar nossa presença militar no Afeganistão esperando criar as condições ideais para uma retirada, esperando um resultado diferente. Sou o quatro presidente norte-americano que lida com a presença de tropas dos EUA no Afeganisão. Não passarei essa responsabilidade para um quinto", disse ele no pronunciamento.

A decisão de Biden não é nenhuma surpresa. A guerra é impopular entre os eleitores e seu antecessor na Casa Branca, Dinald Trump, já havia se comprometido com uma saída em um prazo ainda menor: no próximo 1º de maio.

O senador Bernie Sanders, aliado do atual presidente, considerou sua decisão "corajosa".

No entanto, também existem críticas de alguns setores que consideram que Washington vai abandonar um aliado, o governo afegão, e fortalecendo o Talibã.

"Vamos ajudar nossos adversários a comoemorar o aniversário dos atentados de 11 de setembro embrulhando o país para presente e devolvendo-o", disse o senador republicano Mitch McConnell.

Sem condições

O presidente afegão, Ashraf Ghani, insistiu após uma conversa telefônica com Biden, que suas forças são "totalmente capazes" de defender o país.

O democrata, por sua vez, afirmou que os EUA continuarão apoiando o governo afegão, apenas sem envolvimento militar.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, enfatizou que Washington também espera que o Talibã "respeite seus compromissos" de manter os grupos jihadistas anti-EUA fora do Afeganisão após a retirada.

A saída marcará, de todos os modos, uma profunda mudança na influência do governo local e suas forças de segurança, treinadas pelos EUA e uma coalizão de países aliados.

Biden havia estudado a possibilidade de manter uma força residual para lutar contra a Al Qaeda e outros grupos jihadistas. Também cogitou condicionar a retirada à situação no local ou às conversas para um tratado de paz, que seguem lentas.

Mas, por fim, decidiu deixar um número limitado para supervisionar instalações como a embaixada dos EUA em Cabul.

Também nesta quarta, os países da Otan chegaram a um acordo para iniciar a retirada de suas tropas do Afeganistão em 1º de maio, em um processo que deveria ser concluído em "poucos meses", anunciou a aliança transatlântica em um comunicado.

Os aliados "reconhecem que não há uma solução militar aos desafios que o Afeganistão enfrenta" e por isso "determinaram que começaremos a retirada das tropas da Missão Resolute Force em 1º de maio", destacaram na nota. Segundo a aliança militar, a retirada "será ordenada, coordenada e deliberada". Além disso, advertiram que "qualquer ataque dos talibãs às tropas aliadas durante essa retirada será enfrentada com força".

O Reino Unido também deve iniciar em breve a retirada dos cerca de 750 soldados que mantém no país atualmente.

A Rússia, por sua vez, afirmou que atrasar a retirada das tropas norte-americanas até setembro poderia causar uma "escalada de violência" no Afeganistão, já que Washington estaria desrespeitando seu acordo com o Talibã.

Combates prosseguem

Segundo uma fonte do governo, a retirada começará em maio e o atraso se deve, em grande medida, a razões logísticas, ainda que muito provavelmente as tropas consigam sair do Afeganistão muito antes de 11 de setembro.

O funcionário advertiu aos talibãs — que mantém uma trégua com os EUA, mas não com as forças afegãs — que não ataquem a coalizão durante a retirada, assegurando que, caso isso aconteça "devolveremos o golpe com força".

Enquanto isso é provável que os combates continuem na região e um informe publicado na terça-feira pelo diretor de inteligência norte-americano assegura que os talibãs "confiam que vão conseguir a vitória militar".

No entanto, o diretor da CIA, William Burns, afirmou nesta quarta, que após "anos de pressão antiterrorismo", os grupos jihadistas internacionais sediados no Afeganistão já não representam uma ameaça importante para os EUA.

A ascenção dos talibãs levanta, ao mesmo tempo, temores sobre o futuro do país, especialmente para as mulheres afegãs, que conquistaram muitos direitos nos últimos anos.

Enquanto governaram boa parte do Afeganistão entre 1996 e 2001, os talibãs impuseram seu astero islamismo sunita, proibindo as mulheres de ter acesso às escolas e ao mercado de trabalho, assim como à música e à maior parte da vida cotidiana.

Duas décadas mais tarde, 40% dos alunos do país são meninas.

Cúpula na Turquia

A decisão de Biden coincide com o anúncio da Turquia, que irá sediar, de 24 de abril a 4 de maio, uma conferência de paz com apoio dos EUA, que reunirã o governo afegão, os talibãs, e parceiros internacionais.

No entanto, Mohammad Naeem, porta-voz do escritório dos talibãs no Catar, disse que os insurgentes não participarão de nenhuma conferência "antes que todas as forças estrangeiras tenham se retirado completamente".

Uma década atrás, os EUA tinham 100 mil soldados no Afeganistão. Ao final do governo de Trump, o número tinha sido reduzido a 2,5 mil. Em fevereiro, a OTAN tinha cerca de 10 mil militares no país.

Últimas