Internacional Brasileiros solidários abrem casas para desconhecidos que fogem de furacão nos EUA

Brasileiros solidários abrem casas para desconhecidos que fogem de furacão nos EUA

Em grupos de Facebook, moradores de três estados americanos tentam se preparar para a chegada de Florence, que promete inundações e devastação

Em grupos de Facebook, moradores de três estados americanos tentam se preparar para a chegada de Florence, que promete inundações e devastação.

A cearense Maria Oliveira trouxe a família e dois cachorros para a sala dos anfitriões na Flórida

A cearense Maria Oliveira trouxe a família e dois cachorros para a sala dos anfitriões na Flórida

Arquivo pessoal

Uma onda de solidariedade criada por brasileiros tem se espalhado antes da chegada do furacão Florence, que se aproxima de três estados americanos e ameaça provocar inundações, desabastecimento e mortes, segundo autoridades americanas.

"Bom dia, moro em Tampa. Se alguém precisar de abrigo porque não tem para onde ir por conta do furacão, minha casa está aberta. Me chama em inbox."

"Bom dia, moro em Orlando. Alguma família precisando de abrigo para o furacão, me chame no inbox. Posso receber ate 2 familias em meu apartamento."

"Sou da Virgínia, mais pro interior, se alguma família não tiver pra onde ir eu ofereço minha casa. Deus guarde todos vocês."

"Ei gente! Moro em Danbury/Connecticut, se alguém precisar de abrigo podem me chamar."

As mensagens surgiram em grupos no Facebook criados por brasileiros que vivem na Carolina do Sul, Carolina do Norte e na Virgínia, principais estados na rota do fenômeno descrito como "extremamente perigoso" e "catastrófico" que deve chegar ao continente até esta sexta-feira.

Em comum, os brasileiros que decidiram abrir seus lares para receber pessoas que fogem do furacão têm a lembrança de situações passadas, quando eles próprios precisaram deixar suas casas em busca de abrigo em ginásios, escolas ou casas de parentes.

Autora de um dos convites, a auxiliar de limpeza baiana Ana Souza, que vive com o marido há 17 anos na Flórida, precisou deslocar os móveis da sala do apartamento alugado onde o casal vive para abrir espaço a pelo menos 8 colchões infláveis que já começam a receber famílias em fuga.

Memória do caos

"Eu passei por isso o ano passado e sei como é difícil", conta Souza à reportagem.

"Tem muita gente precisando, gente que não tem condições mesmo. Então, eu senti vontade de pelo menos fazer um pouco e não tem problema nenhum abrir as portas da minha casa. Se pudesse eu ajudaria mais, porque tem gente que nem gasolina pra vir para outro estado tem. É muito difícil."

Moradora de Tampa, na Flórida, ela encarou em casa a passagem do furacão Irma, em agosto de 2017, que deixou um rastro de destruição e pelo menos 40 mortos no Caribe e outros 50 na Flórida.

A baiana Ana Souza e o marido devem receber oito pessoas em casa durante a passagem do furacão Florence

A baiana Ana Souza e o marido devem receber oito pessoas em casa durante a passagem do furacão Florence

Arquivo pessoal

"Foi muita chuva, vento muito forte, muitas árvores quebradas", lembra. "Meu marido fechou todas as janelas com madeira. Compramos muita comida e água, mas, graças a Deus, o furacão não passou por aqui e foi desviado."

Os primeiros hóspedes já chegaram: a família da dona de casa cearense Maria de Oliveira, que trouxe o marido, veterano militar e portador de deficiência, a filha de 13 anos e dois cachorros.

"É uma pessoa com um coração muito grande. Abrir a porta da casa para gente que ela não conhece em uma situação dessa é difícil. São muito poucas pessoas que têm coragem e coração para isso", diz Oliveira por telefone, enquanto se alojava no colchão inflável.

Moradora de Lumberton, na Carolina do Norte, ela própria já é veterana de furacões.

"O furacão Mathew (2016) foi minha primeira experiência. Eu nunca tinha passado por algo do tipo. Ficamos 7 dias sem energia e água", diz.

Imigrantes ilegais

Outra brasileira, que prefere não ter o nome divulgado, também abriu as portas da casa em Orlando e pretende oferecer abrigo a imigrantes em situação irregular nos EUA.

"Quase todo ano passa furacão aqui, alguns mais fortes e outros menos. No ano passado, eu não estava preparada para receber o Irma. Tinham me dito que seria tranquilo mas um dia, de madrugada, recebemos um alerta para evacuar tudo nas próximas horas. Eu não sabia o que fazer, para onde ir, e vi num grupo uma pessoa de Atlanta oferecendo abrigo. Ela me recebeu", conta.

"Assim como recebi ajuda no ano passado, quis estender isso a outras famílias porque sei que o risco é muito grande. Muita gente não tem ninguém próximo para acolher, outros estão ilegais e ficam com medo de ir para abrigos", diz a brasileira, que receberá 10 pessoas na casa em que vive com o filho e o marido.

"Não estou preocupada com a documentação de quem vem. 90% dos brasileiros que moram aqui já estiveram em algum momento em situação ilegal, e este foi o meu caso também. Isso para muitos é um status temporário e não cabe a ninguém julgar isso."

Os visitantes também serão alojados em colchões infláveis no quarto do filho da brasileira.

"Eles vão ficar confortáveis. Fico feliz. É uma corrente que vira, sabe?"

A família de Verissima Saias já emprestou geradores de energia aos funcionários de sua empresa da última vez em que um furacão passou pela Carolina do Sul

A família de Verissima Saias já emprestou geradores de energia aos funcionários de sua empresa da última vez em que um furacão passou pela Carolina do Sul

Arquivo pessoal

Geradores emprestados

Além de abrirem as portas de casa, brasileiros têm oferecido outros tipos de auxílio aos conterrâneos.

A família da empresária mineira Veríssima Saias, que vive em Myrtle Beach, bem no caminho do furacão, na Carolina do Sul, decidiu adiantar as férias e seguir para um resort na Flórida.

"Recebemos aviso de evacuação. A partir das 2h da tarde, ninguém mais entra ou sai da cidade", diz. "Carreguei documentos, roupa do corpo, e o resto ficou tudo para trás."

Donos de caminhões e uma empresa de construção civil, eles tentaram convencer funcionários e conhecidos a deixar o local, mas não tiveram sucesso.

"Muita gente saiu, muitos amigos, mas alguns poucos ficaram. Tentei ajudar algumas pessoas, mas elas recusaram. Muitos com animais de estimação quiseram ficar"

No furacão do ano passado, ela conta, a família ficou sem energia elétrica por duas semanas.

A forma encontrada para ajudar os que ficaram foi ceder energia elétrica.

"Emprestamos todos os geradores de energia da empresa para os funcionários. Vários ainda estavam nas caixas", conta.

Os equipamentos garantirão eletricidade para motoristas de caminhão, pedreiros e ajudantes. "A lei do retorno é como o mar. A maré sempre traz de volta", diz Saias.

A família de 6 pessoas havia acabado de terminar a construção de sua casa de 400 metros quadrados, em uma região nobre.

"Temos seguro", afirma. "Vão-se os anéis, ficam os dedos."

Florence teve sua intensidade rebaixada para uma tempestade de categoria 2 (com ventos de 165 km/h), mas ainda amedronta

Florence teve sua intensidade rebaixada para uma tempestade de categoria 2 (com ventos de 165 km/h), mas ainda amedronta

Getty Images

Florence

Prestes a chegar à Costa Leste dos EUA, o furacão Florence pode "matar muita gente", segundo as autoridades locais.

Em entrevista coletiva na manhã desta quinta-feira, o administrador da Agência Federal de Gerenciamento de Emergências (Fema), Brock Long, disse que as tempestades podem trazer inundações catastróficas para as áreas do interior.

Nesta quarta-feira, o furacão teve sua intensidade rebaixada para uma tempestade de categoria 2 (com ventos de 165 km/h).

Segundo Long, enquanto a velocidade do vento diminuiu, a área de impacto se ampliou e as previsões de chuva se mantiveram inalteradas.

O nível previsto por meteorologistas para a água das enchentes pode chegar a até 4 metros.

"É uma tempestade muito perigosa", disse Long. "Inundações no interior matam muitas pessoas, infelizmente, e é isso que estamos prestes a testemunhar."

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