Brexit: Reino Unido fora da União Europeia
Internacional Brexit já aumenta onda protecionista na União Europeia

Brexit já aumenta onda protecionista na União Europeia

 França já deixou claro que poderá enterrar acordos comerciais como o da UE com os EUA

Brexit já aumenta onda protecionista na União Europeia

François Hollande, presidente da França

François Hollande, presidente da França

AE

A decisão do Reino Unido de sair da União Europeia abriu espaço para o fortalecimento de governos protecionistas na Europa. Ontem, a França já deixou claro que, a partir de agora, poderá enterrar acordos comerciais como o da UE com os Estados Unidos. O tratado entre europeus e o Mercosul também corre risco de ser colocado em segundo plano.

Foi a partir de uma iniciativa de Londres que americanos e europeus passaram a negociar, desde 2013, a criação do maior acordo de livre-comércio do mundo. No domingo (26), porém, a França deu um primeiro sinal concreto de que, sem o impulso britânico, Paris está disposta a frear qualquer abertura do bloco.

"A partir de agora, nenhum acordo de livre-comércio deve ser fechado se ele não respeita os interesses da UE", disse o primeiro-ministro francês, Manuel Valls. Para ele, o acordo negociado com os EUA "não vai no bom caminho".

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"A Europa deve ser firme e a França vigiará para que esse seja o caso. Não pode haver um acordo transatlântico", insistiu, num gesto aplaudido por governos do Leste Europeu e economias com forte presença agrícola.

As declarações, feitas apenas três dias depois do Brexit, foram interpretadas por negociadores com um sinal claro de que a saída do Reino Unido deixará como herança um bloco europeu mais protecionista e menos disposto a abrir mão de seus subsídios agrícolas.

Diplomatas e especialistas, desde sexta-feira (24), mergulharam nos tratados comerciais para tentar entender o que ocorrerá com a relação de mais de uma dezena de países com Londres. Mas admitiram que, por alguns meses, a prioridade de Bruxelas não será suas relações com novos mercados, e sim recosturar a estrutura que ameaça ser desmontada no bloco.

Golpe

Nos EUA, a saída do Reino Unido também foi considerado como um golpe contra a estratégia comercial. Especialistas e políticos como o senador Mark Warner alertaram que decisão britânica é uma "ameaça" a propostas de acordos de livre-comércio. "Sem o Reino Unido, será muito difícil fechar um acordo de livre-comércio entre EUA e UE em 2017 ou mesmo mais tarde", disse o economista Gary Hufbauer, do Peterson Institute for International Economics.

A declaração da França ainda confirma o temor do chanceler José Serra de que o Brasil perdia um "aliado" nas negociações comerciais com a saída de Londres. Diplomatas brasileiros consultados pelo Estado apontaram que, internamente, o temor é que o mesmo tom adotada pela França com os EUA possa ser feito em relação ao Mercosul.

A preocupação do Itamaraty é compartilhada por especialistas, como Isabel Schnabel, da Universidade de Bonn. "Um dos custos do Brexit pode ser a mudança política dentro da UE em direção a um maior protecionismo, maior intervencionismo e forças menos amistosas ao mercado", disse.

Dentro da UE, diplomatas em Bruxelas confirmaram que a perspectiva de que a Comissão faça propostas liberalizantes no setor de agricultura serão cada vez menores. "A Europa passará a olhar para si mesma por alguns meses, tentando entender o que ocorreu e como resolver sua pior crise", afirmou um negociador, na condição de anonimato. "O acordo com o Mercosul tem uma chance grande de ficar em alguma gaveta, por enquanto." 

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