Cemitério clandestino conta história de escravos após abolição nos EUA

O intuito agora é tentar descobrir qual foi o motivo da morte dos prisioneiros. Já se sabe que seus corpos foram distorcidos pelo trabalho excessivo

Podem existir mais de 50 mil cemitérios parecidos no Texas

Podem existir mais de 50 mil cemitérios parecidos no Texas

Bob Miller/Getty Images

Pelo menos 95 corpos foram encontrados em um cemitério clandestino no Texas, no sul dos Estados Unidos. As ossadas pertenciam a pessoas que faziam trabalhos forçados no país, mesmo após o fim da escravidão, em 1865.

O cemitério fica na propriedade de uma escola e foi descoberto após a construção de um novo prédio estudantil.

Tudo surgiu a partir de um palpite de Reginald Moore, um ex-funcionário de presídios que se interessou pela história dos trabalhos forçados e dos cemitérios clandestinos.

Na região já existe um cemitério semelhante que abriga os corpos de outros trabalhadores que morreram nas mesmas condições e Moore é seu guardião.

"Eu senti que tinha o dever de ser um defensor deles e de falar do túmulo para essas pessoas", disse Moore à CNN. Então ele alertou as autoridades sobre a possibilidade de achar novos corpos.

O que nem Moore nem ninguém da cidade esperava é que tantos corpos e fossem achados em um estado de conservação tão boa. Todos foram enterrados em caixões de madeira, o que ajudou na preservação.

Futuro memorial

Agora que os corpos foram descobertos, eles serão estudados por pesquisadores e arqueólogos. Moore, o guardião do cemitério, deseja que um memorial seja construído na área.

Estima-se que será necessário pelo menos nove meses de trabalho para estudar todos os corpos. Os pesquisadores já sabem que há apenas uma mulher e 94 homens. As idades variam entre 14 e 70 anos.

O intuito agora é tentar descobrir qual foi o motivo da morte dos prisioneiros. Pelas ossadas já foi possível concluir que seus corpos foram distorcidos pelo trabalho excessivo.

Atualmente no Texas, existem 1.706 cemitérios históricos, mas os pesquisadores acreditam que possam existir cerca de 50 mil em todo o estado.

A escravidão que continuou

Após a guerra civil e o fim legal da escravidão, a economia dos estados do sul dos Estados Unidos entrou em colapso porque eles viviam basicamente do trabalho escravo.

O Texas era um desses estados. Mas a lei que proibia a escravidão deixou uma brecha imensa: as pessoas poderiam realizar trabalho escravo como pena para algum crime que tivessem cometido.

Nesse momento, diversas empresas se voltaram para as prisões em buscas de possíveis trabalhadores, era o arrendamento de prisioneiros. As empresas ainda tinham o direito de escolher seus trabalhadores.

A principal fonte de economia da região era a plantação da cana de açúcar. Em 1878, Edward Cunningham e Littleberry Ellis, dois donos de terras e líderes confederados — os estados que defendiam a continuidade da escravidão nos EUA — fizeram um acordo com o governo do Texas para arrendar todos os prisioneiros do estado.

Suas fazendas eram conhecidos entre os prisioneiros como "Braços do Inferno". Ele reduziam a quantidade de água e comida dada aos prisioneiros para que eles custassem ainda menos.

A prática de alugar prisioneiros só acabou em 1910, após uma série de reportagens denunciando a situação.