China vai à COP25 com plano de liderança para mudança climática

País é o mais poluidor, mas tem intenção de estabelecer eixo para vencer dilema e lutar contra o cenário atual

Xi Jinping: liderança na mudança climática enfrenta barreiras internas

Xi Jinping: liderança na mudança climática enfrenta barreiras internas

Jason Lee/Reuters/18-12-18

A China chega à próxima Cúpula do Clima da ONU (COP25) com a intenção de estabelecer um novo eixo para liderar a luta contra a mudança climática, após os Estados Unidos sinalizarem que não apoiam iniciativas globais nesse sentido.

O governo americano iniciou o processo formal de retirada do Acordo de Paris de 2015, o maior pacto vinculativo diante da crise climática mundial - não assinado apenas por Nicarágua e Síria - e que estabelece um plano de ação para limitar o aquecimento global, considerando que impunha encargos econômicos "injustos".

Já o governo chinês, que nos últimos anos tem tentado tecer uma rede global de influência, vê uma oportunidade de preencher essa lacuna em uma das questões mais relevantes para a comunidade internacional.

Porém, não importa quão boa seja a intenção, o gigante asiático continua enfrentando um dilema inevitável: como liderar a luta global contra a mudança climática sendo o país mais poluidor do mundo?

Uma ponte com Macron

Macron: compromisso  com o Acordo de Paris é "processo irreversível"

Macron: compromisso com o Acordo de Paris é "processo irreversível"

Lucas Jackson/ Reuters - 24.9.2019

O compromisso da China com a luta pelo clima foi encenado pela enésima vez no início de novembro com um encontro em Pequim entre o presidente do país, Xi Jinping, e o da França, Emmanuel Macron. Ambos reafirmaram o apoio ao Acordo de Paris e o descreveram como um "processo irreversível".

Xi e Macron comprometeram-se a "intensificar os esforços internacionais" e exigiram que os países desenvolvidos investissem anualmente US$ 100 bilhões até 2025 para financiar estas ações.

Para Li Shuo, assessor para as políticas globais de clima, biodiversidade e oceanos do Greenpeace Ásia Oriental, "não há solução para a crise climática global sem a ambiciosa participação da China", país que, conforme ressaltou, "deixou de ser o 'bad boy' do clima para se tornar um forte colaborador da ação internacional".

O diretor do Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais da China (IPE), Ma Jun, lembra que na COP15, em 2009, a China reivindicou o direito dos países em desenvolvimento de usarem fontes de energia como o carvão, da mesma forma como as hoje nações desenvolvidas.

Mas desde 2013, diz ele, o país mudou seu ponto de vista e agora está consciente da necessidade de controlar seu consumo.

"Dois passos à frente, um atrás"

Em meados do século XX, a China era um país muito pobre que não levantava voo, mas as políticas reformistas e a abertura ao mundo exterior, em conjunto com o enorme capital demográfico, fizeram disparar a economia do país.

Mas, ao tornar-se a "fábrica do mundo", a China pagou o preço elevado de sacrificar o seu ambiente.

Durante décadas, o ambiente se degradou: as fontes de água potável ficaram poluídas, o solo ficou mais cheio de resíduos do que de nutrientes para os cultivos, e o ar, especialmente nas áreas mais industrializadas, assumiu um tom acinzentado insalubre e com cheiro de carvão.

Tudo isso, segundo Ma Jun, mudou há seis anos, quando "as pessoas levantaram a voz porque queriam respirar ar puro". "As emissões de carbono triplicaram em 11 anos, e desde 2013 foram basicamente deixadas nos mesmos níveis", disse.

China consome metade do carvão mundial, mas conscientização avança

China consome metade do carvão mundial, mas conscientização avança

Kevin Frayer/Getty Images - 26.11.2015

A questão é que a China consome metade do carvão mundial. "Não é exagero dizer que o carvão é a origem de todo o mal", afirmou Li Shuo, que apela em favor de uma reforma do mix energético, contra os subsídios a este mineral e para que a saúde pública seja levada em conta na tomada de decisões.

No entanto, o ativista do Greenpeace reconhece que o país tem feito progressos porque a sociedade e as elites políticas estão "muito conscientes" sobre a importância de preservar o meio ambiente, mas lamenta que o ritmo seja de "dois passos à frente, um atrás" e que o progresso seja "muito lento".

É possível limpar o futuro?

Li diz que, embora a qualidade do ar tenha melhorado "significativamente" em algumas partes do país, "muitas cidades estão a anos ou mesmo uma década de distância de reduzir as partículas PM 2,5 para níveis razoáveis para a saúde humana.

Isso não é tão fácil quanto fechar usinas de carvão, e a transição levará tempo. De acordo com as previsões da Agência Internacional da Energia, até 2040 o peso do carvão e das energias renováveis na produção de energia terá sido invertido.

Em 2017, 58% da energia produzida na China provinha do carvão, e 35% de energias renováveis. Em 2040, o carvão representará 32%, e a energia limpa, 57,1%.

A China também decidiu deixar de ser o aterro sanitário do mundo e proibiu a importação de lixo de outros países, enquanto timidamente começou a introduzir regulamentos de reciclagem nas grandes cidades.

Combinar a descarbonização e outras políticas verdes com um crescimento econômico cada vez mais modesto será um desafio para as autoridades, que podem se ver tentadas a manter fábricas poluidoras para sustentar empregos e exportações.

Ma lembra que não são apenas as autoridades chinesas que devem tentar reduzir as emissões, mas também as empresas estrangeiras que fabricam produtos na China - ele citou Nike e Apple como exemplos.

"São necessárias metas mais ambiciosas, sanções mais severas contra os poluidores e uma aplicação mais rigorosa das leis. Só precisamos de coragem política para enfrentar o nosso passado sujo", disse Li, por sua vez.