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Internacional Com profissionais em falta, sistema de saúde argentino beira o limite

Com profissionais em falta, sistema de saúde argentino beira o limite

Ocupação das UTIs está em 68,2% e não há enfermeiros treinados nem médicos suficientes para atender tamanha demanda

  • Internacional | Da EFE

Um médico realizando o controle de seus pacientes na UTI de um hospital de Buenos Aires

Um médico realizando o controle de seus pacientes na UTI de um hospital de Buenos Aires

EFE / Juan Ignacio Roncoroni - 07.05.2021

A segunda onda da pandemia da covid-19 já dura semanas na Argentina, onde estão sendo contabilizados mais contágios e mortes do que um ano atrás, enquanto o serviço de saúde se aproxima do limite, apesar da ampliação de instalações, que não foi acompanhada de mais profissionais.

Luis Sarotto é o presidente da Associação Médica do Hospital de Clínicas, em Buenos Aires, e relatou à Agência Efe o esforço que o sistema fez para se equipar com mais unidades de terapia intensiva (UTI) e seus respectivos respiradores, fundamentais para tratar os casos graves de covid-19. No entanto, agora o déficit é humano.

"Neste ano, ao contrário do ano passado, já temos o equipamento, mas não temos as pessoas, e o recurso humano é a coisa mais difícil de se obter. A grande deficiência é que temos o leito, o respirador, eles são contados como leitos viáveis, mas não há nem o enfermeiro treinado nem o médico", apontou.

Apesar de haver leitos e respiradores, não há enfermeiros treinados nem médicos suficientes para atender tamanha demanda; ocupação das UTIs no país é de 68,2%

Segundo os últimos dados oficiais, a ocupação das UTIs é de 68,2% em nível nacional, e 75,9% em Buenos Aires e na sua populosa área metropolitana.

"Há 15 dias, o meu telefone tocava o tempo todo para me dizerem que estavam em uma maca precisando de oxigênio, que não havia leitos em toda a cidade de Buenos Aires. Há leitos, tem respirador, mas não há um enfermeiro, nem um assistente de enfermagem, nem uma empregada, nem médico, por isso são leitos falsos, são leitos não operacionais", acrescentou.

Conviver com a adversidade

No Hospital de Clínicas trabalham 3.400 pessoas, que neste ano, como foi o caso durante grande parte do ano passado, não poderão tirar férias, o que, somado ao estresse acumulado pela situação, torna as relações diárias um pouco diferentes.

"Discute-se um pouco mais do que o habitual, as pessoas se irritam um pouco mais, é preciso compreender que, por vezes, não é fácil conviver mesmo com amigos e família, a situação é complexa", explicou.

Sarotto leva situação com filosofia, e destaca que "as pessoas crescem perante a adversidade", embora esteja consciente que a pandemia deixará "feridas que, embora cicatrizem, a marca permanece".

O exemplo é pessoal, já que ele viveu como profissional o bombardeamento da Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), que em 1994 deixou 86 mortos, e a tragédia da boate Cromañón, onde no final de 2004 um incêndio tirou a vida de 194 pessoas.

"Há coisas que nunca me esquecerei na minha vida, situações muito tristes, muito difíceis, e penso que isto também vamos ficar assim por amigos que partiram, pessoas que amamos e que partiram, que este vírus levou. Sem dúvida, as marcas permanecerão para sempre", comentou.

Angústia e cansaço

Apesar das adversidades, os profissionais continuam a se sacrificando para parar a pandemia, como é o caso de Carolina Cáceres, que trabalha como enfermeira no Hospital Tornú.

"É muito angustiante, é realmente muito cansativo, muito cansativo, quero realmente poder descansar um pouco com a minha família, não estar constantemente preocupada e correr o dia todo. A verdade é que não tivemos como tirar férias", desabafou.

Ela também se preocupa com a situação da própria família, embora tente ser o mais cuidadosa possível, e tenta "estar em contato o menos possível com os idosos".

"Sabemos que é difícil chegar ao fim do mês, colocando a própria vida em risco, e sabemos que estamos deixando a família em uma situação muito difícil", analisou.

Carolina tem um filho de 13 anos e uma filha de 11, que agora têm de passar muito tempo sozinhos em casa, até que o marido, o porteiro do edifício, possa "passar em algum horário para ver como eles estão".

Além disso, o número de horas de trabalho, que em tempos recentes aumentou devido à necessidade de substituir colegas infectados ou doentes, juntamente com a ausência de férias, torna "muito difícil" se desligar do trabalho.

Os trabalhadores da saúde pedem melhoras nos salários há meses, além de outros benefícios, que foram o foco dos protestos realizados nas ruas de Buenos Aires.

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