Crise na Venezuela
Internacional Com projeção de inflação de 717%, desabastecimento gera escalada de preços na Venezuela, dizem especialistas

Com projeção de inflação de 717%, desabastecimento gera escalada de preços na Venezuela, dizem especialistas

Desequilíbrio de contas e irresponsabilidade governo fazem população sofrer falta de alimentos e remédios

Com projeção de inflação de 717%, desabastecimento escalada de preços na Venezuela

Especialistas vêm governo venezuelano como irresponsável

Especialistas vêm governo venezuelano como irresponsável

REUTERS

Há vários meses, a inflação na Venezuela tem registrado sucessivas altas, deixando a população em estado crítico de sobrevivência e com a falta de produtos básicos como alimentos e medicamentos. Para o final do ano, as projeções de alta chegam a 717%, conforme relatório publicado pelo banco Torino Capital. O R7 consultou especialistas sobre o assunto e, para eles, situação caótica da economia venezuelana se deve ao descontrole de gastos públicos, desabastecimento interno e à aplicação de um viés ideológico no orçamento do país.

Conforme explica Carlos Stempniewski, professor de Economia e Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco, o presidente Nicolás Maduro misturou política com economia, o que, para ele, são "inconciliáveis".

— Política e economia geralmente se dão muito mal quando se tenta condicionar uma à outra. Esses dois campos são inconciliáveis e, quando isso acontece, você acaba desmotivando ou irritando terrivelmente qualquer um dos lados.

No caso de Maduro, Stempniewski explica que ele ainda tenta até hoje fazer uso dessa estratégia, que, na verdade, tem um fundo ideológico e se esforça para que a economia siga esse "ideal imaginário".

— Como consequência disso, o país praticamente implode. As pessoas não têm nem o que comer. Por enquanto, o Exército está segurando a barra enquanto o Maduro está alimentando ele, mas quando parar, a situação vai ficar insustentável. A Venezuela vive quase um desastre humanitário e o governo precisa ser mais responsável nas suas atitudes.

Um dos reflexos desse cenário, segundo o professor de Estratégia Financeira do Instituto Brasileiro de Mercado e Capitais de São Paulo (Ibmec-SP), Paulo Azevedo, ocorre porque a equipe econômica de Maduro não está fazendo a "lição de casa".

— Os impostos são muito baixos em relação ao que deveria ser e isso faz com que a equipe econômica tenha dificuldades de controlar os parâmetros que servem para controlar a inflação. A gente tem, por exemplo, controlar a taxa de juros e o déficit público, que é a diferença de arrecadação e de gastos. Com essas dificuldades, a economia entra em um ciclo vicioso, onde cada vez mais os participantes passam a querer cobrar cada vez mais pelos seus produtos ou serviços para ter dinheiro e consumir as coisas que precisa. Mas conforme isso é feito, dada a pouca oferta de produto, a inflação. As pessoas estão dispostas a pagar qualquer coisa para ter o que quer.

Para o diretor da Escola de Direito das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), Manuel Furriela, a Assembleia Nacional Constituinte convocada pelo presidente venezuelano é um dos "fatores complicadores" da situação financeira do país.

— Para fazer todo esse processo, o governo precisa de todo um movimento da máquina pública para fazer a consulta popular. E isso tudo custa dinheiro, o que, sem dúvidas, contribuiu para o aumento do problema com gastos públicos.

De acordo com o banco de investimentos Torino Capital, a Venezuela registrou inflação de 648,9% nos últimos doze meses, o que significa dizer que os resultados mensais ficam em torno de 25%.

Mercado externo

Uma realidade que também faz parte da crise pela qual a Venezuela passa, segundo Stempniewski, foi a aposta que Maduro fez em concentrar majoritariamente a economia do país na venda de petróleo, nos mesmos moldes que o ex-presidente Hugo Chávez fez.

— Só que o que ele esquece é o Chávez viveu uma realidade completamente diferente. Ele viveu uma realidade petróleo a 140 dólares por barril e já faz muito tempo que o petróleo não tem mais esse valor de mercado. A gente chegou de 140 dólares, a 30, 34 dólares. Então, isso significa que ele perdeu receita e toda vez que isso acontece, você tem que fazer cortes.

Para o professor do Ibmec-SP, essas "trapalhadas" políticas fazem com que os empresários cada vez menos queiram investir algum dinheiro na Venezuela.

— Toda essa finalidade que o governo está dando para constituir uma ditadura, que é fazer essa nova Constituinte, destituir o poder do Congresso e fazer com que o Executivo tenha cada vez mais poder faz com que os outros países tenham medo de investir na Venezuela. Existe esse temor. Enquanto a situação política não se estabilizar, vai ser difícil ter investimento externo e assim vai ser mais difícil você ter oferta e demanda de produtos equilibradas.

*Caíque Alencar, do R7

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