Como a Europa financia o terrorismo

Problemas no norte da África podem ter origem em território europeu

Como a Europa financia o terrorismo

Soldados franceses ajudam o governo de Mali a combater radicais islâmicos

Soldados franceses ajudam o governo de Mali a combater radicais islâmicos

AP Photo /Pascal Guyot, Pool

Quando o norte do Mali caiu nas mãos de terroristas e de militantes estrangeiros em abril, teve início um debate sobre as causas do caótico colapso do país. Muitos argumentaram que os acontecimentos foram um subproduto direto da intervenção da OTAN na Líbia em 2011, quando a organização fez com que milhares de homens bem armados atravessassem o Saara, chegando até o Mali. Outros apontavam para a corrupção interna e as divisões étnicas do Mali. Mas poucos comentaram a respeito de algo importante: o fato de que os europeus financiaram conscientemente os radicais islâmicos com resgates pagos desde 2003.

Dezesseis anos antes dos ataques do 11 de setembro, os Estados Unidos venderam armas ao Irã, esperando que reféns americanos detidos pelo Hezbollah fossem libertados. Entre outras coisas, a querela conhecida como Irã-Contra ensinou aos Estados Unidos que pagar resgates em dinheiro só torna mais audazes os grupos terroristas e seus apoiadores. Ainda assim, quando confrontados com o mesmo desafio, líderes europeus foram incapazes de aprender a lição, enchendo os cofres de grupos terroristas por ao menos uma década.

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A guerra global contra o terror foi sabotada pelos resgates: os mesmos países que até recentemente tinham tropas que lutavam contra o terrorismo no Afeganistão, entregavam dinheiro aos terroristas na África.

Ao longo da última década, Inglaterra, Alemanha, Itália, Espanha, França, Áustria, Suécia e Holanda pagaram mais de 130 milhões de dólares a grupos terroristas, em sua maior parte por meio de mediadores, para libertar reféns ocidentais.

Os líderes europeus estavam compreensivelmente desesperados para salvar a vida de seus cidadãos. Mas o tiro saiu pela culatra, já que o pagamento dos resgates simplesmente transformou cidadãos em uma commodity lucrativa para jihadistas sedentos por dinheiro. Grupos como a al-Qaeda do Magrebe islâmico, e o Movimento pela Unidade e pela Jihad, na África Ocidental, se acostumaram a receber resgates e passaram a capturar o máximo de europeus que conseguissem – de emissários internacionais a turistas. Por outro lado, os terroristas sabem que os Estados Unidos não negociam com sequestradores e que provavelmente utilizarão a força para libertar seus cidadãos. Esse problema já ocorria muito antes da intervenção da OTAN na Líbia. Salima Tlemcani, jornalista do jornal argelino El Watan e especialista na al-Qaeda do Magrebe islâmico, relatou em 2009 que os pagamentos em dinheiro estavam sendo utilizados por terroristas para comprar armas e equipamentos de telecomunicação. Em um relatório publicado pela Fundação Carnegie para a Paz Internacional, Wolfram Lacher se referiu ao dinheiro dos resgates como "o principal financiador da al-Qaeda do Magrebe islâmico".

A ex-embaixadora dos Estados Unidos no Mali, Vicki J. Huddleston, contou ao jornal inglês The Telegraph que "todo mundo está ciente de que o dinheiro muda indiretamente de mãos entre muitas contas bancárias, e sempre acaba nos fundos da al-Qaeda do Magrebe islâmico, por exemplo". Segundo ela, o dinheiro "permitiu que a al-Qaeda do Magrebe islâmico ficasse mais forte, comprasse armas e recrutasse participantes".

Para as crescentes redes terroristas do Norte da África, os resgates se tornaram uma fonte de renda mais lucrativa que o tradicional contrabando de drogas e cigarros. Mokhtar Belmokhtar é mente por trás do recente ataque a uma usina de gás natural na Argélia que matou 39 reféns estrangeiros, e é um terrorista veterano, cuja carreira começou nos anos 1980 no Afeganistão. Ele também foi o responsável por arquitetar a estratégia de transformar sequestros em um negócio lucrativo. Em 2003, seu grupo sequestrou 32 turistas europeus e os trocou por mais de 6,5 milhões de dólares, utilizando o dinheiro para comprar armas, subornar autoridades da região e construir um refúgio no deserto.

O lucrativo negócio de sequestros criado por Belmokhtar ajudou a transformar o norte do Mali em um destino para aspirantes a jihadistas. Desde 2004, jovens radicalizados vieram de meu país natal, a Mauritânia, e de locais como Argélia, Níger, Marrocos, Nigéria e Arábia Saudita.

A infusão do dinheiro dos resgates permitiu que Belmokhtar e seus seguidores criassem campos de treinamento de terroristas e ganhassem o apoio dos habitantes da região. Por meio de casamentos com famílias locais e do fornecimento de serviços básicos para os habitantes desesperadamente pobres da região de Sahel, eles se estabeleceram como uma alternativa plausível ao enfraquecido governo do Mali.

Até 2011, os terroristas haviam estabelecido o próprio miniestado no norte do Mali. Embora estivesse ciente do problema dos resgates, a União Europeia não foi capaz de formular uma estratégia unificada para lidar com isso. Como resultado de instituições multilaterais ineficientes, cada país continuou a cuidar de si próprio e de seus cidadãos.

Essa abordagem limitada desestabilizou o Sahel e irritou a nação mais poderosa da região, a Argélia. Durante anos, autoridades argelinas reclamaram do impacto dos resgates na segurança do próprio país. Chegaram até mesmo a propor na Assembleia Geral da ONU a proibição do pagamento de resgates a terroristas e isso se tornou a base de uma resolução do Conselho de Segurança em 2009. Mas na prática, os pedidos da Argélia foram completamente ignorados.

A recente operação militar da França no Mali não teria sido necessária se houvesse uma política europeia coerente que envolvesse operações focadas contra as redes terroristas. Até mesmo após o envio de tropas francesas e africanas ao campo de batalha do Mali, os governos europeus praticamente não colaboram. A maior parte da Europa evita a responsabilidade de prevenir o surgimento de um novo grupo terrorista bem na porta de suas casas.

Por outro lado, o governo dos Estados Unidos parece perceber a seriedade do problema e faz de tudo para interrompê-lo. O subsecretário de terrorismo e inteligência financeira do Departamento do Tesouro foi à Europa em outubro do ano passado com o objetivo de evitar futuros pagamentos de regates à al-Qaeda do Magrebe islâmico e a um grupo relacionado, a al-Qaeda da Península Arábica. Porém, o problema dos regates não é uma responsabilidade dos Estados Unidos e os líderes europeus precisam matar o monstro que criaram.

Contudo, isso não será fácil. A crença de que os exércitos mal preparados da África e da França podem fazer com que o problema do radicalismo no Norte da África desapareça é uma manifestação das atitudes irracionais dos líderes Europeus em relação à região.

A Europa deve aos habitantes do Sahel – e aos cidadãos europeus – a promessa de que se negará a pagar novos resgates a terroristas de qualquer parte do mundo. A única coisa que Belmokhtar e seu grupo devem esperar da comunidade internacional é a força extrema demonstrada pela Argélia durante a crise dos reféns no mês passado. A segurança no Sahel só voltará a se estabelecer depois que mostrarem aos terroristas que sequestros não levam a nada. Caso contrário, é questão de tempo até que ocorra um caso parecido com o do Mali nas redondezas.

(Nasser Weddady é diretor de direitos civis no Congresso Islâmico-Americano e coeditor do livro "Arab Spring Dreams: The Next Generation Speaks Out for Freedom and Justice From North Africa to Iran".)

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