Como medidas de isolamento contra coronavírus aumentaram popularidade do presidente da Argentina

Nos últimos dias, a reação do presidente argentino Alberto Fernández contra o avanço do novo coronavírus no país fortaleceu sua liderança e aumentou sua popularidade, como apontaram analistas ouvidos pela BBC News Brasil

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 Para analistas, o presidente Alberto Fernández melhorou sua imagem com o combate ao novo coronavírus

Para analistas, o presidente Alberto Fernández melhorou sua imagem com o combate ao novo coronavírus

EPA

Quando o atual presidente da Argentina, Alberto Fernández, assumiu o cargo há pouco mais de quatro meses, opositores, diplomatas argentinos e estrangeiros, e analistas políticos diziam que sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner, mandaria no governo. E que ele, presidente, corria o risco de ser um "fantoche" dela.

"É preciso ver como será a relação entre o criador e a criatura porque ela é mandona e foi ela quem lançou a candidatura dele", comentou um embaixador de um país vizinho, no início deste ano.

Nos últimos dias, porém, a reação de Fernández contra o avanço do novo coronavírus no país fortaleceu sua liderança e aumentou sua popularidade, como apontaram analistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Ele implementou uma quarentena rigorosa — chamada de "obrigatória e preventiva" — no dia 20 de março e já a prolongou duas vezes. A quarentena inclui patrulhas lideradas por ministros nas estradas e até, segundo reportagens locais, rastreamento dos movimentos de celulares de motoristas para que não desrespeitem o confinamento.

Na sexta-feira (10/04), de pé diante das câmeras de televisão e apontando para gráficos em um quadro, Fernández disse que a quarentena continuará até, pelo menos, o dia 26 deste mês.

'Um martírio'

Fernández afirmou, sinalizando os números, que o país teria 45 mil casos da covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, e não os cerca de 1.900 registrados naquela sexta-feira, com 82 mortes, se não tivesse implementado a quarentena em março.

"Não quero nem pensar sobre de quantos mortos estaríamos falando (sem quarentena)", disse, com a voz calma que já o caracteriza.

Neste ponto sobre o número de casos positivos para a doença existe um debate entre alguns infectologistas que dizem que para um dado mais exato seriam necessários testes em massa na população, algo de que os principais especialistas ouvidos pelo presidente discordam.

Em suas falas, quase diárias, o presidente argentino se refere à pandemia como "um martírio", chama o coronavírus de "inimigo invisível" e diz que "é cedo" para dizer que o país venceu esta batalha.

"Essa é uma briga difícil contra um inimigo invisível que entra nos nossos corpos. E não sabemos quem tem ou não esse vírus e quem contagia os demais. Temos de nos proteger e a única maneira é ficar em casa", disse. No domingo de Páscoa, foi ainda mais explícito.

"Prefiro ter 10% de pobres, mas não 100 mil mortes na Argentina (pelo coronavírus)", disse. Fernández também tem repetido que uma economia que cai pode ser recuperada, mas uma vida perdida, não. Por isso, entende, "é falso" achar que existe "dilema" entre saúde e economia.

O nome do presidente Alberto Fernández tem sido gritado em alguns bairros de Buenos Aires

O nome do presidente Alberto Fernández tem sido gritado em alguns bairros de Buenos Aires

BBC NEWS BRASIL

Sua decisão de manter o país em quarentena e dar prioridade à saúde conta com apoio de governadores e prefeitos, inclusive da oposição, que também aplicam a medida em seus territórios.

O uso de máscaras e o distanciamento social vem sendo respeitando em grande parte do país, com exceções para a realidade social de algumas favelas, como mostrou a imprensa local.

No fim de semana, no bairro portenho de Palermo, era difícil achar quem não usasse algum tipo de máscara para se proteger contra. Nas filas dos supermercados, a distância entre um consumidor e outro era de cerca de dois metros.

Os ônibus circulavam com poucos passageiros e o número de táxis parecia muito menor do que em outras épocas, mesmo depois da era do Uber.

O pavor entre autoridades e na população, dizem no governo central, é que se repita o que ocorreu na Itália e na Espanha, países com os quais historicamente os argentinos mantêm vínculos e registram altos índices de mortes pela covid-19.

Fernández, que costuma lembrar que é professor de direito, enfatiza a importância da maior presença do Estado em áreas como a saúde e a distribuição de recursos aos mais pobres, o que também tem sido bem visto, segundo analistas.

'Alberto, Alberto'

Em alguns bairros de classe média, como em áreas de Palermo, é comum ouvir jovens gritando seu nome todos os dias, logo após o já tradicional aplauso das 21h para os profissionais da saúde. Enquanto isso, o nome da ex-presidente e atual vice Cristina Kirchner passou a ser pouco lembrado, neste momento de pandemia.

Para analistas ouvidos pela BBC News Brasil, Alberto Fernández transmite aos argentinos que está "preocupado" e "voltado" para proteger suas vidas. A determinação e segurança que transmite, disseram, fortaleceram sua imagem como líder do país e aumentaram sua popularidade.

"Quando Cristina o escolheu como candidato, ele não era conhecido pela maioria no país. Quando foi eleito, ele já contava com cerca de 50% de votos e de apoio popular. Mas com a pandemia, ele virou uma espécie de 'comandante' da campanha contra a doença e colocou seu foco na comunicação desta luta", disse Ricardo Rouvier, da empresa de pesquisas que leva seu nome.

Para ele, Fernández levou a população a responder de forma disciplinada ao pedido para que fiquem em casa e sua imagem positiva, disse, subiu para cerca de 85%.

A especialista em pesquisas Analía del Franco disse que a maioria dos argentinos apoiou sua decisão de implementar a quarentena nacional.

"A pandemia e a economia são as duas preocupações dos argentinos hoje. Os autônomos e as pequenas empresas estão preocupados com a crise econômica, mas isso hoje não afeta sua popularidade. A conjuntura da pandemia superou tudo", disse Del Franco.

 A Argentina anunciou o isolamento social obrigatório em nível nacional devido à crise do coronavírus em 20 de março

A Argentina anunciou o isolamento social obrigatório em nível nacional devido à crise do coronavírus em 20 de março

Reuters

'Age melhor'

Para a analista política Mariel Fornoni, da consultoria política Management&Fit, os levantamentos mostram que os argentinos percebem que o governo está se ocupando "o tempo todo" contra o novo coronavírus e esta atitude conta com o respaldo popular.

Na pesquisa que a consultoria realizou na última semana de março, quando perguntados sobre como atua o governo argentino em relação aos outros países afetados pelo vírus, quase 70% responderam que a Argentina "age melhor".

Na visão do professor de ciência política da Universidade de Buenos Aires (UBA), Marcos Novaro, o aumento da popularidade de Fernández, de cerca de 50% para acima de 70%, disse, reflete a percepção dos argentinos de que o governo está "cuidando" da população.

Porém, para Novaro e para Fornoni, o apoio popular do presidente pode ser "volátil" porque dependerá do tempo que esta situação durará e como ficará a economia do país, que já estava em recessão (queda de cerca de 2%), com inflação alta (54% em 2019) e desemprego (10%).

A economia argentina caminha para uma recessão ainda mais profunda, segundo dados do Banco Mundial, que prevê queda de 5,2% do PIB do país neste ano.

'Em poucas mãos'

Café fechado em Palermo, em Buenos Aires, em respeito à quarentena decretada pelo governo

Café fechado em Palermo, em Buenos Aires, em respeito à quarentena decretada pelo governo

Marcia Carmo

Ao destacar a delicada situação da economia argentina, um colunista do jornal La Nación, Joaquín Morales Solá, escreveu, em tom crítico, que hoje na Argentina "todo o poder está em poucas mãos", já que o presidente tem governado com Medidas Provisórias (chamadas de DNU, Decreto de Necessidade e Urgência).

O Congresso Nacional não está funcionando e o Judiciário está com suas ações limitadas, já que seus integrantes também estão em quarentena.

Além disso, nos últimos dias, algumas das iniciativas duras de confinamento, como o rastreamento de celulares para saber se motoristas desrespeitam a quarentena e de redes sociais para saber se saques estão sendo organizados, geraram fortes críticas entre parlamentares opositores.

O medo do coronavírus também tem provocado a ausência de manifestações na Argentina, país onde os protestos costumam ser frequentes. O temor tem falado mais alto e também resultou no adiamento das aglomerações sociais.