Internacional Conheça a história da brasileira que sobreviveu ao 11 de Setembro

Conheça a história da brasileira que sobreviveu ao 11 de Setembro

Hospedada no hotel que ficava no World Trade Center, ela escapou da morte e conta sobre os momentos de horror que passou

Adriana Maluendas escreveu um livro contando tudo o que vivem em 11 de setembro de 2001

Adriana Maluendas escreveu um livro contando tudo o que vivem em 11 de setembro de 2001

Divulgação

Era uma manhã de sol, uma quinta-feira comum. Adriana se arrumou no quarto do hotel para mais um dia de reuniões e antes de descer para o café da manhã, ligou para os pais. Queria notícias da mãe, que havia feito a última sessão de quimioterapia. Por conta disso, ela já havia adiado a data da viagem para Nova York três vezes, mas se não tivesse embarcado no dia 8, só conseguiria no ano seguinte. Por isso ela estava lá, no quarto 635.

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A paranaense da cidade de Paranaguá não sabia, mas sua vida, assim como a história do mundo nas últimas duas décadas, estava prestes a mudar de rumo. Ela estava hospedada no sexto andar do antigo hotel Marriott World Trade Center, um prédio de 22 andares que ficava no mesmo complexo das torres gêmeas do World Trade Center, na zona sul de Manhattan, no dia 11 de setembro de 2001. Assim que desligou o telefone, por volta das 8h45, tudo começou.

Adriana Maluendas levou 13 anos para conseguir contar o que aconteceu naquele dia. Nem para a família ela foi capaz de relatar os momentos de terror que viveu. "Demorei anos para entender que fui abençoada por ter sobrevivido", contou ela, em entrevista ao R7. Ela vive na Flórida com o marido desde o início da pandemia, mas deve voltar à maior cidade dos EUA em breve.

Entre as mais de 2,7 mil pessoas que morreram em Nova York por conta dos atentados naquele dia, havia quatro brasileiros: os paulistas Ivan Kyrillos Barbosa (30), e Anne Marie Sallerin (29), a mineira Sandra Fajardo Smith (37) e o capixaba Nilton Fernão Cunha (41). Todos estavam na Torre Norte do WTC no momento em que o Boeing 767-200 da American Airlines colidiu com o edifício.

A primeira explosão

"Lembro de tudo, parece incrível. Tinha acabado de desligar o telefone, ouvi um barulho estridente e a explosão. O prédio todo tremeu, parecia um terremoto, a estrutura levou um impacto muito forte. Na hora achei que tinha sido uma explosão de gás, da janela do quarto eu não tinha uma visão do topo das torres", diz Adriana.

A brasileira ainda permaneceu no quarto por alguns minutos, quando escutou novas explosões. Foi até a janela e viu objetos caindo no vão livre que havia entre as torres gêmeas. Ligou para o lobby do hotel, mas os funcionários não souberam lhe dar nenhuma informação. Foi quando ela pegou a bolsa que tinha sua carteira, a chave do quarto e o passaporte, que ela usara no dia anterior para fazer a credencial que dava acesso ao complexo.

"Sempre deixava o passaporte no cofre do hotel, mas na noite anterior esqueci de guardar, foi a minha sorte. Fui para o corredor e vi uma mulher abrir a porta do quarto da frente, pegar o jornal e entrar de volta. Nessa hora, ouvi uma coisa que nunca mais esqueci, uma voz no sistema de som mandando todos ficarem no quarto e aguardarem. Eram outros tempos", recorda.

Adriana diz que saiu do quarto para procurar mais informações sobre o que estava acontecendo. Quando chegou ao canto do andar onde ficavam os elevadores, havia uma janela panorâmica que permitiu ter uma ideia melhor da situação. Ela ouviu enquanto dezenas de pessoas desciam correndo pela escada de emergência, muitas gritando.

"Ainda tentei esperar o elevador. Foi quando vi uma moça na janela, olhando paralisada para fora. Dava pra ver tudo, foi ali que eu percebi a gravidade do que tava acontecendo, olhei para o plaza que ficava na parte de trás do hotel, vi partes de avião, destroços em chamas, corpos. Peguei no braço dela e falei pra sairmos de lá", diz.

Também havia uma mulher em uma cadeira de rodas, que elas não conseguiram ajudar a descer, mas a brasileira prometeu que pediria socorro. Puxando a moça que estava na janela, elas começaram a descer as escadas, onde centenas de hóspedes tentavam escapar do hotel. Na correria, ela foi empurrada e jogada no chão duas vezes. Foi quando o segundo avião atingiu a Torre Sul do World Trade Center.

"Estava todo mundo correndo no lobby, tentando deixar o hotel, ainda consegui avisar um funcionário que a mulher estava no sexto andar. Nessa hora um dos elevadores explodiu, a correria aumentou e todo mundo saiu correndo para fora. Foi só ali, depois de atravessar a rua, que conseguimos olhar para as torres e ter a dimensão do que estava acontecendo", relembra.

Fuga e fumaça

De frente para a tragédia, Adriana e os outros ouviram, em choque, as janelas explodindo, os gritos de socorro das pessoas que ainda estavam nas torres, as sirenes dos carros de polícia, de bombeiros e ambulâncias se aproximando. Também sentiam o cheiro da fumaça, de combustível, objetos e vítimas que queimavam.

"Ao longe eu ouvi alguém falando que o prédio ia cair, as pessoas começaram a correr. Não sabia para onde ir e fui correndo junto para o Battery Park junto com as centenas de pessoas que estavam lá. No caminho caí e fui pisoteada, nesse momento foi a moça que eu tirei da janela que me ajudou a levantar. Foi só aí que eu olhei para trás vi aquela fumaça vindo na minha direção", conta.

Foi nessa hora que as torres vieram abaixo, espalhando uma nuvem de destroços, cinzas, pó e um número incontável de substâncias tóxicas nas imediações do World Trade Center. Segundo a brasileira, foi só então que ela pensou que poderia ser um atentado, algo proposital.

"Quando cheguei ao parque, achei que eu ia morrer, era uma nuvem tão densa, não dava pra respirar. Caí no chão e fiquei esperando tudo acabar. Tudo isso aconteceu em uma hora, fiquei o tempo todo naquela área, não tinha para onde ir, não sabia para onde ir nem com quem falar, Olhar para trás e ver que não tinha mais as torres, o hotel onde eu estava simplesmente não existia mais", recorda.

Mais uma vez, ela se viu ao lado da mulher que estava paralisada na janela quando tudo começou. Cobertas de poeira da cabeça aos pés, as duas se sentaram juntas no parque, se ajudando. Com a chegada de equipes de resgate e auxílio, Adriana chegou a dar sua água para Janice conseguir tirar suas lentes de contato, ressecadas por conta do pó. As duas são amigas até hoje.

O que veio depois

Horas depois, ela conseguiu chegar a um hotel e se registrar e só então pôde falar com a família. Apenas no momento em que pôde tomar um banho a brasileira pôde ver no corpo as marcas de sapato dos vários momentos em que foi pisoteada durante a fuga. Essas marcas passaram com o tempo, mas outras permanecem nela até hoje. Tudo isso está no livro que ela escreveu, chamado "Além das Explosões".

"Isso te afeta profundamente como ser humano, jamais imaginei que ia passar por uma situação dessa. Demorou anos para eu entender que fui abençoada por ter sobrevivido. O meu processo foi meu tempo de entender o valor da vida, a gratidão. Acredito muito nisso, foi o que me fez escrever o livro e deixar por escrito a experiência. Apesar de tudo o que passamos, poder ajudar outros é algo muito gratificante", avalia Adriana.

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Na época do atentado, ela tinha 29 anos e trabalhava com exportações. Hoje, com quase 50, a brasileira trabalha com seguros, mas pretende terminar um curso para seguir para a área de serviço social e, dessa forma, ajudar mais pessoas. "Eu não tinha ideia de como o transtorno pós-traumático afeta o ser humano de forma tão profunda", diz.

Adriana 
ainda não conseguiu subir a Freedom Tower

Adriana ainda não conseguiu subir a Freedom Tower

Divulgação

Ela voltou ao local onde ficavam as torres uma vez, meses após os atentados. Até 2014, no entanto, nunca havia contado a ninguém sobre o que viveu naquele dia e depois. Na inauguração do Museu e Memorial do 11 de Setembro, quando dois objetos que estavam na sua bolsa, o cartão magnético que servia como quarto do hotel e seu passaporte, foram colocados na exposição permanente, ela decidiu que havia chegado a hora de falar.

"Nesse dia resolvi escrever o que aconteceu comigo. Faço parte do que aconteceu aquele dia e foi por amor à vida que eu deixei registrado. Até hoje quando vou no museu que fica bem no metrô abaixo das torres é muito pesado, tem muita energia, é difícil. Ainda não subi na Freedom Tower, um dia sei que vou fazer, mas ainda não consegui", conta.

Durante a entrevista, Adriana se emocionou algumas vezes. Ela ainda tem problemas de saúde por conta do que aconteceu naquele dia, especialmente nos pulmões, mas prefere focar em outros aspectos de sua vida.

A mulher na cadeira de rodas

Antes de encerrar, contou uma última história, sobre a mulher na cadeira de rodas que ficou para trás no sexto andar enquanto ela e Janice corriam pelas escadas em meio a toda a confusão. Durante mais de dez anos, a brasileira buscou informações para saber o que teria acontecido com ela. Chegou a processar o hotel para saber a identidade da hóspede.

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"Uma das coisas que mais me afetou foi não ter conseguido ninguém para ir buscá-la, achei que ela tinha falecido por minha culpa. Durante anos eu não tive alegria de estar viva, não comemorei aniversários. Por 10 anos eu procurei essa mulher, até processei o hotel para saber. O lugar estava lotado e muita gente morreu por causa do sistema de alarme. No fim, encontrei a família dela e descobri que ela foi resgatada por dois funcionários do hotel e morreu alguns anos depois", finaliza.

Vinte anos após o atentado, ela diz que acha estranho quando alguém compara o ataque com a pandemia de covid-19. "As duas marcaram o mundo e perdemos pessoas demais, só que no caso da doença não sei se dá para culpar alguém. O terrorismo tem autor. Acho que são situações bem diferentes, mas marcaram o mundo de maneira muito dura", destaca.

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