Debate sobre testemunhas domina julgamento de Trump no Senado

Democratas e republicanos discutiram se irão convocar testemunhas, como o ex-assessor John Bolto, para depor no processo do impeachment

Senado dos EUA entrou em nova fase do julgamento do impeachment de Trump

Senado dos EUA entrou em nova fase do julgamento do impeachment de Trump

Senado dos EUA via Reuters / 22.1.2020

A convocação de testemunhas para o julgamento do impeachment do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi o foco das discussões entre democratas e republicanos nesta quarta-feira (29), apesar das reclamações dos advogados de defesa, que insistem que possíveis depoimentos de ex-funcionários da Casa Branca colocarão em risco a segurança nacional.

O impeachment entrou em uma nova fase, com perguntas elaboradas pelos senadores, lidas pelo presidente da Suprema Corte, John Roberts, que exerce a presidência do Senado enquanto durar o processo, aos "promotores" escolhidos pelos democratas e aos advogados de Trump.

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Como era de se esperar, muitas das perguntas incluíram declarações favoráveis à absolvição de Trump, no caso dos republicanos, ou pedidos para que novas testemunhas sejam convocadas a depor, pelo lado dos democratas.

A senadora e ex-pré-candidata democrata à presidência dos EUA, Kamala Harris, lembrou em sua intervenção do ex-presidente Richard Nixon, que renunciou antes de ver um processo de impeachment ser aberto pelo Congresso em 1974.

Para Harris, Trump, assim como Nixon, é uma pessoa que acha que o "presidente está acima da lei" e fará de tudo para ser reeleito nas eleições marcadas para ocorrer em novembro.

A referência ao pleito ocorreu porque pouco antes, em resposta a outra pergunta, o advogado constitucionalista Alan Dershowitz havia afirmado que os democratas só abriram o processo de impeachment para impedir que Trump permaneça mais quatro anos no comando da Casa Branca.

Ligação com a Ucrânia

Os democratas deram início às investigações contra Trump depois de uma denúncia feita por um agente de inteligência, que ouviu uma ligação entre o líder republicano e o presidente da Ucrânia, Vladimir Zelenski.

Na conversa, segundo a oposição, Trump pressiona o governo da Ucrânia a abrir uma investigação por corrupção contra o ex-vice-presidente Joe Biden, um dos favoritos nas primárias democratas à presidência, e seu filho Hunder, que trabalhou para a companhia estatal ucraniana Burisma.

Trump ainda teria retido o repasse de quase US$ 400 milhões em ajuda militar a Zelenski para fazer com que a investigação contra Biden fosse aberta.

"Todo funcionário público que conheço acredita que sua eleição é de interesse público. E tem razão: sua eleição é de interesse público. E se um presidente faz algo que acredita que o ajudaria a ser reeleito, no interesse público, isso não pode ser um tipo de 'toma lá dá cá' que provoque um impeachment", argumentou Dershowitz.

Obstrução de Justiça

A outra acusação contra Trump é de que ele obstruiu o Congresso ao negar que membros do governo e ex-funcionários da Casa Branca depusessem no impeachment enquanto o processo estava na Câmara dos Representantes.

Entre os impedidos de testemunhar está John Bolton, ex-assessor de Segurança Nacional, e Mick Mulvaney, ex-chefe de gabinete da Casa Branca, que estavam presentes quando Trump conversou por Zelenski por telefones.

"Convoquemos Bolton, Mulvaney e outras pessoas para que possamos apresentar a verdade ao povo americano", pediu o senador democrata Hakeem Jeffries, um dos "promotores" do impeachment, repetindo uma solicitação feita por vários de seus colegas ao longo da sessão de hoje.

No entanto, Patrick Philbin, da equipe de defesa de Trump, usou a carta da "segurança nacional" para ponderar que a convocação abriria um grave precedente para futuros presidentes.

"Manter a confidencialidade das comunicações (entre o presidente e seus colaboradores) é essencial para a segurança nacional. (Bolton) foi um assessor de Segurança Nacional, e esse posto tem implícito a ele uma confidencialidade. É um privilégio constitucional e suspender este privilégio estabeleceria um precedente para futuros presidentes e para o funcionamento apropriado do próprio governo", defendeu.

Controle de danos

Sem saber quem vencerá a batalha das testemunhas no Senado, a Casa Branca parece ter começado a se proteger de futuros danos.

Em uma carta enviada ao advogado de Bolton, um funcionário do alto escalão do Conselho de Segurança Nacional proibiu o ex-assessor de publicar um livro cujo o rascunho foi enviado para a revisão da Casa Branca.

A justificativa, segundo o documento, é que o livro "parece conter quantidades significativas de informações classificadas".

Segundo trechos do rascunho do livro obtidos pelo jornal "The New York Times", Bolton afirma que Trump disse a ele que queria continuar segurando o repasse da ajuda militar à Ucrânia até que o governo de Zelenski o ajudasse com as investigações contra a família Biden. O mandatário nega ter feito tais declarações.