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Internacional Desde acordo de paz com as Farc, 212 ex-combatentes foram mortos

Desde acordo de paz com as Farc, 212 ex-combatentes foram mortos

Comissão da implementação dos Acordos de Paz critica o governo e diz que o isolamento social dificulta fiscalização de direitos humanos na Colômbia

  • Internacional | Mariana Ghirello, do R7

Ángel Alberto Calderón foi 201º ex-combatente e assinante da paz assassinado

Ángel Alberto Calderón foi 201º ex-combatente e assinante da paz assassinado

Reprodução/Twitter/ 16.06.2020

Desde a assinatura do processo de paz entre o governo colombiano e a antiga guerrilha Farc-EP (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo), em dezembro de 2016, o país já soma 212 ex-combatentes assassinados. Além disso, ex-integrantes da guerrilha denunciam que o acordo não vem sendo cumprido pelo governo.

Leia mais: Ex-guerrilheiros das Farc semeiam café com esperança de colher paz

No dia 16 de junho, Ángel Alberto Calderón, um dos ex-combatentes que se integrou ao processo de paz foi assassinado a tiros no departamento de Putumayo, ao sul do país, e se tornou a 201ª vítima. A forma como Calderón foi morto é muito semelhante aos atentados a outros ex-guerrilheiros que decidiram deixar as armas.

Para o partido político constituído após o acordo, o FARC (Fuerza Alternativa Revolucionaria del Comun), existe "um extermínio sistemático contra os assinantes do acordo de paz". Atualmente, boa parte dos ex-combatentes moram em zonas rurais e trabalham em projetos produtivos e no turismo local.

Entre as vítimas dos atentados contra os ex-guerrilheiros estão também menores de idade, como Samuel David, um bebê de apenas 7 meses, no departamento La Guajira. Eles fazem parte dos "filhos da paz", filhos de ex-integrantes da guerrilha que agora buscam retornar a vida civil. No ataque, os pais sobreviveram, mas David não resistiu aos ferimentos dos disparos.

Pandemia dificulta acompanhamento

Após o início do isolamento social para evitar a disseminação do novo coronavírus a situação piorou, conforme explica o integrante da comissão de acompanhamento da implementação do Acordo de Paz e defensor de Direitos Humanos, Jhon Leon.

"A situação está mais difícil por causa da impossibilidade de fazer presença nos territórios [zonas rurais] e garantir a presença de organizações e companheiros de direitos humanos", explica. 

Os departamentos que concentram o maior número de assassinatos de ex-combatentes são Cauca com 31 casos, Nariño com 25, Antoquia tem 24, Caquetá registra 20 e 17 casos no norte de Santander. 

Leon explica que o governo, por sua vez, "insiste que não existe um extermínio sistemático, além de afirmar que garantiu a segurança e  reincorporação dos ex-combatentes", contudo, as ações vão em direção contrária.

"Por exemplo, dizer que a segurança será reforçada e ao mesmo tempo desmontar em um programa de segurança para ex-combatentes. Ou ainda, anunciar a militarização dos Espaços territoriais [zona rural] quando foi demonstrado que os membros das forças de segurança também estão implicados pela ação e ou omissão dos casos denunciados", observa.

Outo ponto destacado por Leon é sobre os entraves que foram criados para o funcionamento da JEP (Justiça Especial para a Paz). "[O governo] anuncia à comunidade internacional o compromisso com a implementação do Acordo de Paz quando, mas dificulta o trabalho do JEP e da unidade de Busca de Pessoas Desaparecidas", reforça.

Paz sem paz

Leon comenta ainda que os casos de violência aumentaram e destaca os recentes deslocamentos forçados que aconteceram em Ituango, no departamento de Antioquia. Em fevereiro deste ano, mais de 800 camponeses tiveram que deixar suas casas. E em março, ao menos 12 famílias deixaram suas terras.

O processo de paz com a antiga guerrilha não garantiu a paz no campo colombiano porque outros grupos armados se reorganizaram e ocuparam os territórios "vazios". E estes outros atores armados vem disputando o controle da produção de coca, mas os enfrentamentos acontecem nas terras de camponeses.

O ELN (Exército de Libertação Nacional) estava em uma mesa de diálogo com o governo, mas pouco depois de assumir a presidência, Ivan Duque encerrou as negociações. Além de grupos políticos armados, também existem grupos de criminalidade comum que se dedicam a produção de coca e o narcotráfico, sendo o principal deles o Clã do Golfo. 

Impunidade

Outro ponto destacado por integrantes do partido FARC é que apenas 11% dos casos foram solucionados como o assassinato de Dimar Torres. Em novembro de 2019, o cabo do exército Daniel Eduardo Gómez Robledo foi condenado a 20 anos de prisão pela morte do ex-guerrilheiro.

A quantidade de casos e a falta de medidas do governo para proteger os mais de 10 mil ex-combatentes e líderes sociais levou a uma denúncia na Corte Interamericana de Direitos Humanos contra o governo do presidente Ivan Duque.

Além disso, 60% dos assassinatos ocorreram durante o governo do atual presidente Duque. No dia 10 de junho, Rodrigo Londoño, chefe do partido se reuniu com a responsável dos Direitos Humanos na ONU, Michelle Bachellet e forneceu mais dados sobre o caso.

Desde 2017, 15 pessoas desapareceram, 48 foram vítimas de tentativas de homicídio e ainda outras 177 sofreram ameaças.

Um morto por dia

El Espectador traz o nome de 442 líderes assassinados

El Espectador traz o nome de 442 líderes assassinados

Reprodução/ Twitter

Além dos ataques a ex-combatentes, a Colômbia apresenta outra cifra preocupante, o assassinato de líderes sociais ligados a outras causas. No último domingo (14), o jornal El Espectador publicou em sua capa o nome dos 442 líderes sociais assassinados após o acordo de paz com o título "Não os esqueceremos".  

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