Diário de um Repórter Brasileiro na Ucrânia

Internacional Dia 16: Além do terror e do medo, a guerra também desperta a solidariedade entre os povos

Dia 16: Além do terror e do medo, a guerra também desperta a solidariedade entre os povos

Personagens, muitas vezes invisíveis durante uma grande cobertura de guerra, são essenciais para os foragidos tão abalados

  • Internacional | Leandro Stoliar, da Record TV

Leandro Stoliar e o repórter cinematográfico Luís Felipe Silveira

Leandro Stoliar e o repórter cinematográfico Luís Felipe Silveira

LEANDRO STOLIAR/RECORD TV

Era quase madrugada quando Luis Felipe e eu chegamos à um bairro afastado do centro de Varsóvia, capital da Polônia. Nosso dia terminaria com a entrevista de um brasileiro que está preocupado com a guerra na Ucrânia e com medo das batalhas atravessarem a fronteira entre os dois países.

Um homem corria de um lado para o outro da rua com o porta-malas do carro aberto. Fazia muito frio. Sensação de -4 graus. O veículo cheio de mantimentos até o teto despertou minha curiosidade.

Lukas é um polonês que decidiu sozinho realizar uma missão arriscada: Recolher doações e levar sozinho para a Ucrânia, do outro lado da fronteira onde milhares de refugiados passam frio e fome para tentar fugir do país.

"Somos vizinhos da Ucrânia e me sinto na obrigação de ajudar", diz o morador no meio da escuridão.

Essa missão solidária havia se tornado ainda mais perigosa depois que as duas maiores cidades ucranianas foram bombardeadas naquele dia. Em Kharkiv, ex-capital do país, um míssil atingiu o prédio do palácio do governo local.

A imagem chocou o mundo.

10 pessoas morreram e mais de 30 ficaram feridas no ataque. O curioso é que dias antes, nossa equipe esteve no mesmo lugar fazendo uma reportagem para o Jornal da Record. A maior praça da Europa, segundo os ucranianos. Na frente do prédio, um grupo de voluntários recolhia donativos para ajudar as vítimas da guerra.

Enquanto Lukas se desdobrava em muitos para tentar salvar vidas, as decisões políticas de Ucrânia e Rússia mexiam no tabuleiro e mudavam os rumos da guerra.

Repórter cinematográfico Luís Felipe Silveira mostra a nada glamorosa cobertura da guerra

Repórter cinematográfico Luís Felipe Silveira mostra a nada glamorosa cobertura da guerra

LEANDRO STOLIAR/RECORD TV

Os novos ataques às principais cidades ucranianas aconteceram depois que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski, pediu novamente a inclusão imediata da Ucrânia na União Europeia. As delegações de Rússia e Ucrânia haviam se encontrado para negociar o cessar-fogo um dia antes, e nada. A Rússia não quer a vizinha na UE. Zelenski assinou um pedido oficial para fazer parte do bloco e a Rússia reagiu com um ataque violento. Nas fronteiras, milhares de ucranianos fogem do país no que já é chamada de "a maior crise de refugiados do século na Europa". Segundo dados da Agência da ONU para os refugiados, o número de refugiados no leste europeu era de 660 mil, até então. O governo polonês estima que nas últimas 24 horas mais de 100 mil pessoas atravessaram a fronteira para entrar no país. E a maioria não tem para onde ir.

Fomos conhecer a casa do polonês Mikolai, que também decidiu ajudar os refugiados. Ele se inscreveu numa lista de voluntários para receber, na própria casa, famílias que fogem da Ucrânia.

"Eu fico bem por estarem seguros, porque essa é uma situação trágica e dramática. Eu vou até a fronteira pegar mais gente para levar para a casa de amigos", me disse o polonês emocionado. Mikolai é advogado e dono de uma agência de viagens com sede em vários países.

Os primeiros hóspedes são uma família do Azerbaijão que vivia há 15 anos na Ucrânia e fugiu do país depois que a cidade deles foi bombardeada.

O dentista Elvin aceita me dar uma entrevista. Ele não fala muito bem inglês, então, meu tradutor precisa me ajudar. Elvin me conta que a família tem vergonha de aparecer na Tv. Ficaram todos no quarto, enquanto conversávamos na sala da casa luxuosa, em um condomínio de classe média alta em Constantin, nos arredores de Varsóvia.

Elvin me diz que fugiu quando as tropas russas cercaram a cidade.

"Depois de 4 dias de bombardeios eu me sinto em casa aqui", conta o refugiado aliviado. De acordo com uma pesquisa feita na Polônia, 74% da população acreditam que a possibilidade de um ataque Russo ao país é media ou alta.

Fomos até a casa do brasileiro Esron, do outro lado da cidade. Outro personagem da nossa história que a produtora, Gabriela Coelho, conseguiu descobrir mesmo trabalhando do outro lado do mundo. Nessa cobertura, ela também se desdobrou.

Esron é casado com uma polonesa e nos recebe com a hospitalidade brasileira em meio ao frio polonês. Uma casa bonita de dois andares com lareira na sala e um bom espaço interno. Assim como muitas casas ucranianas, que agora estão destruídas pelos bombardeios russos.
Esron conta que está com medo da guerra.

"O que a gente queria é ir embora pro Brasil, mas a empresa dela (esposa) não liberou."
O casal começou a tomar providências para tentar se proteger como: sacar dinheiro em grande quantidade, estocar madeira para aguentar o frio (no caso de falta de energia) e alimentos. A esposa, Catagena, diz que a mãe dela está com muito medo.

"Minha mãe falou pra estocar dinheiro. Eu acho que ela exagera, mas é melhor prevenir do que não fazer nada", disse a polonesa com a filha de 1 ano e meio no colo.

Os poloneses mais velhos já viveram a guerra. O país foi atacado na segunda guerra mundial... Eles sabem que a chance de os conflitos chegarem aqui é real.

Depois de 16 dias de uma cobertura intensa e cansativa, recebemos a notícia de que amanhã uma equipe de reportagem vem para nos render. Foram dias sem dormir, sem comer, sem descansar, atrás de histórias reais. Passamos por todas as cidades e regiões ucranianas onde os conflitos deixam mortos e feridos. Passamos antes e depois da invasão russa.

Nossa missão foi contar aquilo que ninguém costuma ver: As histórias dos invisíveis.

Nesta guerra em que um lado se impõe com a força das armas e da poderosa máquina de desinformação digital, trazer a realidade dos mais fracos que lutam bravamente pelo próprio futuro também é um ato de resistência.

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