Internacional Dois anos após Charlottesville, supremacistas perderam a vergonha

Dois anos após Charlottesville, supremacistas perderam a vergonha

O mundo segue assistindo ao crescimento de uma supremacia branca que se articula nas redes e já não se esconde nas ruas

Dois anos após Charlottesville, supremacistas perderam a vergonha

Grupos supremacistas e neonazistas se fortaleceram nos EUA após Charlottesville

Grupos supremacistas e neonazistas se fortaleceram nos EUA após Charlottesville

Jim Urquhart / Reuters - 9.3.2019

Em 12 de agosto de 2017, a manifestação “Unite the Right” — convocada por grupos de extrema-direita que entraram em confronto com antifascistas na cidade de Charlottesville, nos Estados Unidos — não só resultou na morte de uma mulher e deixou dezenas de feridos, como expôs a ascensão das organizações de supremacia branca no país.

Dois anos depois, os EUA e o mundo seguem assistindo ao crescimento de uma supremacia branca que se articula nas redes e já não se esconde nas ruas. Exatamente como aconteceu em Charlottesville.

Embora a manifestação tenha se tornado tema frequente em discussões da imprensa americana, sua organização havia sido pouquíssimo abordada em meios de comunicação tradicionais até as hordas de homens brancos tomarem as ruas da cidade da Vírgina, carregando bandeiras de organizações racistas, neonazistas e xenofóbicas, além de armamento pesado. O assunto, até então, era divulgado majoritariamente em páginas da internet.

Lourenço Cardoso, professor do Instituto de Humanidades na Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira) e doutor em Ciências Sociais pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), assegura que a supremacia branca “se potencializou e se tornou mais forte” fazendo uso da internet e que a marcha em Charlottesville se transformou em um marco porque “representa o momento em que a branquitude acrítica resolveu sair das redes sociais e ir para as ruas, deixar o enfrentamento virtual e partir para o de carne e osso”.

Esta “branquitude acrítica”, segundo Cardoso, é formada pelas pessoas brancas que não admitem seus preconceitos raciais e criam uma hierarquia onde se colocam como superiores aos povos não-brancos. Para Cardoso, este grupo é a base para os movimentos neofascistas como o de Charlottesville.

'Fascismo e intolerância estão vivos nos EUA'

“As mídias sociais digitais aumentaram a chamada taxa de ressonância para a divulgação das melhores e também das piores ideias. Qualquer divisão de mundo ficou mais exacerbada. Visões radicais que sempre existiram, mas ficavam restritas, hoje são facilmente propagadas. E há ainda o submundo da internet, a chamada dark web — onde circulam, com uma certa liberdade, concepções extremamente preconceituosas, racistas e terroristas”, aponta Sidney Ferreira Leite, especialista em Relações Internacionais e Pró-reitor do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. 

Na opinião de Leite, os eventos em Charlottesville mostraram que o fascismo e a intolerância permanecem vivos nos Estados Unidos.

“Quando falamos de segregação e do racismo em território americano, falamos de uma divisão da sociedade que se dá de forma diferente da que existe no Brasil. É importante lembrar que, nos Estados Unidos, a abolição da escravidão aconteceu após uma guerra. Charlottesville foi a demonstração de algo jamais superado na história do país”, comenta o analista.

Por outro lado, Cardoso recorda que as organizações fascistas e a branquitude acrítica foram empurradas para "as sombras da sociedade". "Por ironia, a internet seria uma dessas 'sombras' e se tornou o veículo de difusão de conteúdo mais poderoso do mundo."

Trump e os supremacistas

Dois anos e numerosas manifestações de ódio depois — incluindo o tiroteio que deixou 22 mortos na cidade de El Paso, Texas, cujo responsável é suspeito de disseminar mensagens de racismo e xenofobia pela internet —, o presidente Donald Trump se pronunciou, pela primeira vez, de maneira direta sobre os supremacistas brancos.

“Em uma única voz, nossa nação precisa condenar o racismo, a intolerância e a supremacia branca”, disse Trump na última segunda-feira (5) em discurso na Casa Branca.

Supremacistas queimam cruz e suástica no Arkansas

Supremacistas queimam cruz e suástica no Arkansas

Jim Urquhart / Reuters - 9.3.2019

A mensagem, amplamente comentada pela imprensa internacional, foi transmitida em meio a semanas de um acirrado debate entre os postulantes democratas que pretendem concorrer com Trump nas eleições presidenciais de 2020.

Cardoso acredita que a declaração veio após um cálculo político do presidente norte-americano para evitar ser taxado de ultradireitista. “Donald Trump calculou as ‘perdas’ e os ‘ganhos’ e resolveu se pronunciar contra a branquitude acrítica. Seus dados lhe mostraram a utilidade de nomear e criticar a supremacia branca”, declara.

O professor Leite concorda. “Nós já estamos neste período em que qualquer movimento da presidência dos Estados Unidos visa as eleições do ano que vem. As campanhas estão em todo vapor e as principais pesquisas mostram Joe Biden — vice-presidente durante os dois mandatos de Barack Obama — à frente de Trump.”

“A declaração do presidente sobre supremacistas brancos, desta forma, tem como alvo o eleitorado mais moderado que hoje opta por Biden — já que o tema da imigração e da intolerância com os latinos, que veio à tona no ataque em El Paso, foi sempre muito sensível durante a campanha e a gestão do presidente Trump”, acrescenta o especialista.

À época da marcha “Unite the Right”, Trump foi condenado por culpar “os dois lados” — supremacistas brancos e grupos antifascistas — pela violência extrema registrada na cidade da Virgínia. 

Direita vs. ultradireita

O crescimento da retórica fascista faz com que os especialistas tenham divergências em definir o que é direita e o que é ultradireita.

O professor Cardoso explica que a entidades e partidos que se apresentam como de “direita” estão colocando em seus discursos muito da retórica de extrema-direta — como, por exemplo, as críticas aos defensores dos direitos humanos.

Por outro lado, Sidney Leite acredita que o fascismo nos EUA é “mais bélico e mais próximo da violência armada” por conta do acesso dos norte-americanos às armas de fogo: "Enquanto isso, na Europa, existe uma direita fascista que não está dentro dos partidos políticos e se manifesta de uma forma mais verbal".