Internacional Donald Trump, 2 anos de governo: presidente dos EUA tem cumprido suas promessas?

Donald Trump, 2 anos de governo: presidente dos EUA tem cumprido suas promessas?

Passados dois anos de mandato do republicano, a BBC News foi atrás destas respostas

Donald Trump encontrou resistências da oposição, claro, mas também de nomes do próprio partido para aprovar projetos polêmicos

Donald Trump encontrou resistências da oposição, claro, mas também de nomes do próprio partido para aprovar projetos polêmicos

AFP

Antes de se tornar o 45º presidente dos Estados Unidos, Donald Trump fez uma série de promessas de campanha. Elas passaram por assuntos como a presença de imigrantes no país, a atividade militar e ações de mitigação às mudanças climáticas.

E agora, passados dois anos de mandato do republicano, como elas se desenrolaram? A BBC News foi atrás destas respostas.

Banimento de muçulmanos

Situação: Parcialmente cumprido
Antes da eleição: Trump inicialmente falou em uma proibição "total e completa" à entrada de muçulmanos nos EUA até que as autoridades conseguissem "descobrir o que está acontecendo".
Depois: A medida foi uma das primeiras controvérsias de Trump. Durante a campanha, ele mudou suas palavras: deixou de falar em "banimento total" para citar uma "avaliação (no processo migratório) criteriosa".

Como presidente, ele introduziu dois impedimentos a viagens que foram barrados nos tribunais, mas uma terceira medida do tipo foi aprovada. A Suprema Corte dos EUA definiu que a proibição decidida por Trump visando seis países majoritariamente muçulmanos (Chade, Irã, Líbia, Somália, Síria e Iêmen) pode entrar em vigor - mas ainda pode ser também alvo de novas contestações legais.

Um muro na fronteira pago pelo México

Situação: Sem progresso
Antes: A proposta de construir um muro ao longo da fronteira entre os Estados Unidos e o México - e, mais, fazer com que este país pague por isso - marcou a campanha do republicano.
Depois:Nenhum tijolo do "grande, bonito muro" subiu.

Agentes americanos perto de uma cerca dividindo a fronteira entre EUA e México em foto de dezembro de 2018

Agentes americanos perto de uma cerca dividindo a fronteira entre EUA e México em foto de dezembro de 2018

AFP

Democratas se opõem veementemente à construção, enquanto alguns correligionários de Trump também torcem o nariz para o projeto, cujo custo pode chegar a US$ 21,5 bilhões (cerca de R$ 80 bilhões) segundo um relatório interno do Departamento de Segurança Doméstica.

Em dezembro de 2018, o governo dos EUA foi paralisado, em uma situação conhecida como "shutdown", com a resistência de democratas a aprovar um conjunto de medidas enviadas por Trump que incluía US$ 5 bilhões (aproximadamente R$ 18,7 bilhões) para financiar o muro. Até agora a questão está sem resolução.

Deportação de todos os imigrantes ilegais

Situação: Sem progresso
Antes: Trump disse repetidamente durante a campanha que deportaria cada imigrante sem documentação regular nos EUA - soma estimada em mais de 11 milhões de pessoas.
Depois: À medida que as eleições se aproximavam, sua postura começou a suavizar pouco a pouco. Depois do pleito, o novo titular da Casa Branca reduziu a cifra para cerca de 2 a 3 milhões de deportações de pessoas "criminosas e com antecedentes criminais, membros de gangues, traficantes de drogas".

No ano fiscal de 2018, as deportações foram de 256 mil pessoas, um ligeiro aumento em relação ao ano anterior - embora não tão alto quanto o pico de 410 mil pessoas sob o governo Obama no ano de 2012.

O futuro dos jovens imigrantes sem documentos, conhecidos como "sonhadores" ("dreamers", no original), está na mesa, já que o republicano cancelou o programa Daca (sigla em inglês do programa Deferred Action for Childhood Arrivals, que concede autorização temporária para morar e trabalhar àqueles que entraram no país ilegalmente quando crianças). O programa contempla a permanência de 700 mil pessoas nos EUA. A situação dos "sonhadores" está hoje em um limbo legal.

Saída do Acordo de Paris

Situação: Cumprida
Antes: Como candidato, Trump disse que as mudanças climáticas seriam uma situação falsa disseminada pela China e que as regras do Acordo de Paris, que exige compromissos dos países para o meio ambiente, estariam impedindo o crescimento americano.
Depois: Após três meses de avaliação sobre a pauta, o presidente determinou a saída do acordo, assinado por cerca de 200 países.


Bombardeio do Estado Islâmico

Situação: Cumprido
Antes: Durante um discurso no Estado de Iowa, em novembro de 2015, Trump recorreu a palavrões para dizer que iria bombardear o grupo autodenominado Estado Islâmico (EI).
Depois: Em abril de 2017, os Estados Unidos lançaram sua maior bomba não nuclear - conhecida com a "mãe de todas as bombas" - em um conclave do EI no Afeganistão.

Os EUA lançaram a 'mãe de todas as bombas' no Afeganistão - nesta foto, sendo testada na Flórida. Trump também leva o crédito por forçar o Estado Islâmico para fora de partes do Iraque e da Síria, dizendo que o grupo foi "amplamente derrotado".

Mas a realidade é que, enquanto os militantes do EI perderam quase todo o território que ocupavam anteriormente, seu líder e milhares de seguidores continuam por aí.

Retorno das tropas para casa

Situação: Parcialmente cumprido
Antes: Na campanha, Trump disse que o Oriente Médio era uma "bagunça total e completa" e que desejava que o governo tivesse gasto trilhões de dólares a nível doméstico.
Depois: Em setembro de 2017, o governo Trump anunciou o envio de mais 3 mil soldados ao Afeganistão.

Já na Síria, os EUA lideraram uma coalizão contra militantes do EI ao lado de curdos sírios e combatentes árabes, com cerca de 2 mil soldados no local. Em dezembro de 2018, Trump ordenou a retirada de todas as tropas dos EUA da Síria.

Dias depois, a mídia americana informou que o presidente planejava reduzir para metade o número de combatentes no Afeganistão, de 14 mil para 7 mil.

Após esta sinalização, o então secretário da Defesa, Jim Mattis, e o enviado especial da coalizão contra o EI, Brett McGurk, renunciaram.

Cortes de impostos

Situação: Cumprido
Antes: Trump prometeu diminuir a carga de impostos sobre os negócios e os trabalhadores americanos.
Depois: O plano de impostos dos republicanos foi aprovado finalmente em dezembro de 2017 e, para o presidente, a princípio trata-se de um grande feito. Mas, na verdade, a força e durabilidade desta vitória são questionadas.

Trump havia falado em reduzir impostos sobre os lucros das empresas de 35% para 15% - em vez disso, o percentual será de 21%.

E os cortes de impostos para indivíduos vão expirar em alguns anos, embora os republicanos digam que futuros governos simplesmente os renovarão.

Mas, em geral, os americanos ricos devem se beneficiar mais do que os mais pobres com este pacote.

Renovação da infraestrutura

Situação:
Sem progresso
Antes: A infraestrutura do país "se tornará incomparável, e colocaremos milhões de pessoas de volta ao trabalho à medida que a reconstruírmos", disse o presidente em seu discurso de vitória, em novembro.
Depois: O presidente repetiu em diversas ocasiões a promessa de gastar muito nas estradas, ferrovias e aeroportos do país, mas há ainda poucos sinais de ação.

Em março de 2018, o Congresso alocou US$ 21 bilhões (cerca de R$ 78 bilhões) para gastos em infraestrutura - muito abaixo dos US$ 1,5 trilhões (R$ 5,6 trilhões) solicitados pelo presidente.

Nomeação de conservador na Suprema Corte

Situação: Cumprida
Antes: Trump prometeu nomear um juiz conservador para a Suprema Corte do país.
Depois: Na realidade, ele nomeou dois: Neil Gorsuch e Brett Kavanaugh.

A indicação de Gorsuch exigiu uma mudança processual nas regras do Senado, mas foi a nomeação de Kavanaugh que gerou controvérsia.

Kavanaugh enfrentou acusações de agressão sexual - que ele nega - e acabou sendo alçado com a votação mais apertada para uma nomeação do tipo desde 1881, com 50 votos a 48.

Além de deixar sua marca no mais importante tribunal do país, Trump nomeou dezenas de juízes conservadores em tribunais de instâncias inferiores.

Classificação da China como manipuladora de moeda

Situação: Abandonado
Antes: Trump repetidamente disse que, em seu primeiro dia na Casa Branca, os EUA listariam a China como um país "manipulador de moeda".
Depois: O republicano disse ao Wall Street Journal em abril de 2017 que a China não era "manipuladora de moeda" há algum tempo e que, na verdade, os esforços do país asiático visavam evitar o enfraquecimento do yuan.

Acordos comerciais

Situação: Parcialmente cumpridos
Antes: Trump classificou o Nafta (Acordo de Livre Comércio entre México, Estados Unidos e Canadá, na sigla em inglês) como um "desastre" e alertou que a Parceria Trasnpacífica (ou TPP, de "Transpacific Partnership") "será pior, então vamos parar com ela". Ele também prometeu corrigir o déficit na balança comercial com a China.
Depois: Nos primeiros dias na Casa Branca, o presidente cumpriu com a palavra de sair do TPP. Mas ele indicou que, se os EUA conseguissem um acordo mais favorável, poderiam voltar à parceria.

Em 30 de novembro de 2018, depois de arrastadas negociações, os EUA, Canadá e México assinaram um acordo entre os três que foi desenhado para substituir o Nafta - mas ele ainda precisa de aprovação do Legislativo.

Já Washington e Pequim se envolveram na escalada de uma batalha comercial - com ambos lados impondo tarifas em bens com valor na casa dos bilhões de dólares.

Eles concordaram em uma trégua de 90 dias a partir de dezembro de 2018, ainda que Trump tenha sinalizado a possibilidade de impor novas tarifas, se necessário.

Endurecimento diante de Cuba

Situação: Parcialmente cumprido
Antes: O acordo liderado por Barack Obama, quando presidente, de reaproximação diplomática e comercial entre EUA e Cuba, seria revertido por Trump, conforme ele prometeu em setembro de 2016.
Depois: Já como presidente, o republicano disse ao público, em um evento em Miami, que iria "cancelar o acordo unilateral da administração Obama" com Cuba.

Mas, na verdade, ele só voltou atrás em alguns pontos - como na imposição de restrições a viagens e negócios entre os dois países.

Transferência da embaixada em Israel

Situação: Parcialmente cumprida
Antes: Jerusalém, cidade reivindicada por israelenses e palestinos, seria a nova sede da embaixada americana em Israel - e não mais Tel Aviv - segundo promessa de Trump.
Depois: Em dezembro de 2017, Trump reconheceu formalmente Jerusalém como a capital de Israel e aprovou a transferência da embaixada.

Jerusalém é reivindicada por israelenses e palestinos

Jerusalém é reivindicada por israelenses e palestinos

Reuters

A nova sede foi inaugurada em maio de 2018, de forma a coincidir com o 70º aniversário de Israel, mas nem todos escritórios e setores foram transferidos.

Ainda assim, o governo de Israel considera este o primeiro passo de uma grande e simbólica jogada diplomática.

Dissolução do Obamacare

Situação: Parcialmente cumprida
Antes: Uma das marcas registradas dos comícios de Trump foi dizer que revogaria o Obamacare, o sistema de ampliação do acesso à saúde criado na gestão Barack Obama.
Depois: Embora os republicanos não tenham conseguido aprovar uma lei de revogação ou reforma, o governo Trump conseguiu desmantelar partes do Obamacare - períodos de inscrição foram reduzidos e alguns subsídios foram cortados, por exemplo.

E, em dezembro de 2018, um juiz federal no Texas declarou a legislação como inconstitucional.

O pacote, porém, permanece em vigor enquanto uma apelação espera para ser apreciada pela Suprema Corte.

Adeus à Otan

Situação: Abandonado
Antes: Trump classificou a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar intergovernamental) como "obsoleta"; uma questão que o irritava era, segundo ele, o fato de que outros países se beneficiavam mais da aliança do que Washington e, também, gastavam menos com ela.
Depois: Ao receber o secretário-geral da Otan na Casa Branca em abril de 2018, o presidente dos EUA disse que a ameaça do terrorismo havia destacado a importância da aliança.

"Eu disse que era obsoleta, mas não é mais", afirmou.

Em julho de 2018, Trump reiterou seu apoio ao tratado em uma cúpula, mas sugeriu que os EUA ainda poderiam sair se os aliados não concordassem com suas demandas orçamentárias.

Restabelecimento de alguns métodos de tortura

Situação: Abandonado
Antes: Quando candidato, Trump disse que voltaria a permitir a asfixia em água (waterboarding) "imediatamente" como forma de tortura, incluindo ainda métodos "muito piores".
Depois: Depois da posse, o republicano disse que aderiria ao posicionamento de membros do alto escalão de seu governo, contrários à opinião de Trump, sobre a tortura. Entre estes nomes, estavam James Mattis, ex-secretário de Defesa, e Mike Pompeo, então diretor da CIA (agência de inteligência dos EUA) e hoje secretário de Estado.

Ao ser confirmado no cargo na CIA, Pompeo afirmou que "de forma alguma" recuperaria tais métodos.

Hillary Clinton na Justiça

Situação: Abandonado
Antes: "Prendam-na" foi um dos principais motes gritados por apoiadores de Trump na campanha; eles queriam que a oponente do republicano, a democrata Hillary Clinton, fosse para a cadeia por ter usado um e-mail privado enquanto atuava como secretária de Estado. "Se eu ganhar, vou instruir meu secretário de Justiça a designar um promotor especial para olhar esta situação", afirmou Trump em um debate.
Depois: O tom do presidente eleito mudou tão logo ele ganhou, descrevendo Hillary Clinton, antes uma "mulher tão desagradável", como alguém a quem o país tinha "uma dívida de gratidão".

Mais tarde, ele disse que "não havia pensado muito sobre as acusações" e tinha outras prioridades.

Em 22 de novembro, a porta-voz de Trump disse que não iria prosseguir com uma investigação - para ajudar Clinton a "curar-se".

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