'É preciso confrontar a China com inteligência', diz Tony Blair

Ex-primeiro-ministro britânico comanda instituto que ajuda governos a implementar políticas; ele falou sobre o cenário internacional em live na terça

Blair alerta para riscos da falta de acordo para o Brexit

Blair alerta para riscos da falta de acordo para o Brexit

Keld Navntoft/EFE/22-06-2018

O ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, que ocupou o cargo entre 1997 e 2007, pelo Partido Trabalhista, afirmou, na noite de terça-feira (14), que a relação do chamado mundo ocidental com a China, nos próximos anos, será de hostilidade. Mas, dentro desta realidade, ele não vê outra saída a não ser encontrar mecanismos de cooperação.

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"Essa relação da China com o mundo ocidental será mais hostil, não vejo saída pelo menos no momento", afirmou, durante live no evento Expert XP.

O ex-primeiro-ministro fez tais afirmações em meio a uma "guerra tecnológica" entre a China e os Estados Unidos, da qual o Reino Unido, nesta semana, tomou parte, ao banir a gigante chinesa Huawei do fornecimento de infraestrutura para redes de tecnologia 5G, seguindo a postura do governo americano.

Em seguida, Blair completou.

"Nos últimos anos, a China consolidou seu poder em torno do Partido Comunista, com uma posição mais rígida, após um período de abertura em alguns setores. Isso cria uma reverberação no Ocidente. Inevitavelmente, países como Estados Unidos, Japão, Austrália, Canadá e Índia estarão em posição mais confrontadora quando necessário", destacou.

O ex-primeiro-ministro, que vem exercendo um importante papel no cenário político, ao comandar o Tony Blair Institute for Global Change, no entanto, considera necessário um canal de cooperação que amenize as divergências.

"Essa confrontação virá principalmente na esfera da tecnologia, que é um ponto forte na China. Será inevitável, mas também será importante haver uma área de cooperação. É preciso reinventar as estratégias em relação à China, em vez de se reagir a tudo que tem sido feito pelo país. É preciso reagir dentro de uma estratégia inteligente, que faça sentido", reiterou.

Para ele, a China será a grande potência mundial no futuro e esse fato precisa ser aceito pela comunidade internacional.

"É inegável e uma realidade clara. A China tem a maior economia e, pelo tamanho de sua população, um amplo mercado. Com todo esse poder virão cada vez mais o poder político e militar. É inevitável e também totalmente justificável", ressaltou.

Em relação ao Brexit, Blair afirmou que teme a saída do Reino Unido da União Europeia sem a concretização de um acordo.

"Eu era contra o Brexit, mas a decisão foi tomada, aconteceu. Agora estamos em uma transição. O Reino Unido tem de tentar negociar até o fim do ano um acordo para a saída, pelo prazo. A pandemia também prejudicou as conversas", disse.

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Para o ex-primeiro-ministro, o acordo facilitará a adoção de políticas estratégicas para o país. Ele disse algo até então pouco debatido: a Europa está defasada em termos de desenvolvimento tecnológico e o Reino Unido poderia ajudar o continente.

"Precisamos desta definição para o país se reorganizar com estímulo à economia, desenvolvimento tecnológico, na educação e em outras áreas. São mudanças importantes e, por outro lado, um acordo também é importante para definir um plano de cooperação com a Europa em uma política coordenada em áreas como defesa e mudança climática. Na área de tecnologia, a Europa está atrasada", destacou.

Blair tem defendido que os países adotem políticas estratégicas inteligentes, com profundidade, em vez de buscar soluções imediatas e sem planejamento. Tal necessidade, segundo ele, se intensificou ainda mais por causa da pandemia.

"Tudo o que havia antes (desigualdades, problemas de desemprego) ficará mais acirrado por causa da pandemia. O meu instituto tem aconselhado os governos para que realizem as reformas necessárias", afirmou.

Para Blair, os governos populistas não solucionam esses problemas.

"Ser populista não é a solução, mas o governo precisa sim é ser popular. A solução é cada país encontrar uma estratégia política correta, independentemente de ideologia. Ela deve ser baseada no estado de direito, em regras claras para investidores, na preservação ambiental, na valorização da educação, em setores públicos não inflados e em oportunidades igualmente distribuiídas para a população. Além, é claro, do desenvolvimento tecnológico", completou.

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