El Salvador: Ex-coronel pega 133 anos de prisão por morte de jesuítas

Sentença condena Orlando Montano, único acusado do alto escalão julgado na Espanha, como autor de 5 assassinatos de caráter terrorista 

Jesuítas espanhóis foram mortos por ex-coronel

Jesuítas espanhóis foram mortos por ex-coronel

Jose Cabezas/Reuters - 11.11.2017

O ex-vice-ministro de Segurança Pública de El Salvador e ex-coronel Inocente Orlando Montano foi condenado nesta sexta-feira (11) pela Audiência Nacional da Espanha a 133 anos e quatro meses de prisão, como responsável por planejar e ordenar, junto ao então presidente salvadorenho Alfredo Cristiano, os assassinatos de cinco jesuítas espanhóis há 30 anos.

Entre as vítimas do massacre estão o reitor da Universidade Centro-Americana, Ignacio Ellacuría, um dos ideólogos da Teologia da Libertação.

Condenação contundente

A sentença condena o ex-coronel Montano - único dirigente de alto escalão julgado por esses incidentes na Espanha - como autor de cinco crimes de assassinato de caráter terrorista e impõe uma pena de 133 anos, quatro meses e cinco dias de prisão.

Também são atribuídos ao condenado os assassinatos de outro jesuíta salvadorenho, de uma cozinheira da universidade e de sua filha de 15 anos, mas Montano não pode ser punido na Espanha por esses casos porque não foi extraditado pelos Estados Unidos por esses crimes.

Montano, único acusado no processo, não poderá ficar na prisão por mais de 30 anos, e é preciso subtrair o tempo em que está em prisão provisória, desde 2017, quando foi extraditado à Espanha.

Segundo os magistrados, os oito assassinatos "foram planejados, organizados e ordenados pelos membros do alto comando das Forças Armadas, o órgão ao qual Inocente Orlando pertencia como vice-ministro da Segurança Pública".

Os juízes acreditam que Montano participou da decisão com a qual "a ordem de execução foi transmitida ao coronel diretor da Escola Militar", Guillermo Benavides, o único condenado em El Salvador.

Líderes políticos

Na sentença, os juízes consideram provado que os assassinatos "foram planeados, organizados e ordenados pelos membros do alto comando das Forças Armadas", o que incluiu não só o condenado, como também o então presidente, Alfredo Cristiani, que a justiça salvadorenha rejeitou entregar à Espanha.

Os juízes consideram que os assassinatos foram cometidos pelo próprio aparelho do Estado salvadorenho, "o que é comummente chamado 'terrorismo de Estado'".

Tratava-se de um grupo composto pelo então presidente, Alfredo Cristian, militares que ocupavam as mais altas estruturas do poder em El Salvador e outros. Todos usaram a violência e cometeram crimes graves, o que alterou seriamente a paz "a fim de perpetuar as suas posições privilegiadas".

Contra a tentativa de mediação dos jesuítas

De acordo com a sentença, "eles cometeram os assassinatos depois de tentarem fazer a opinião pública acreditar que tanto Ignacio Ellacuría como os outros religiosos pertenciam à liderança intelectual da Frente para a Libertação Nacional Farabundo Martí".

Subjacente estava o papel da Igreja como mediadora na tentativa de dar fim à sangrenta guerra civil, o que resultou na inimizade da extrema direita, que temia perder privilégios nas negociações.

Isso explicaria como o alto comando começou a considerar Ignacio Ellacuría um "inimigo", cuja mediação constituía uma ameaça, "por isso começaram a considerar a conveniência de acabar" com a vida do religioso.

A sentença considera provada a participação de Montano na reunião de oficiais em 15 de novembro, véspera do massacre, quando foi ordenado "executar tanto Ignacio Ellacuría como aqueles que estavam presentes no local, independentemente de quem fossem, para que não houvesse testemunhas dos acontecimentos".

Massacre planejado

Na madrugada de 16 de novembro de 1989, em meio à maior ofensiva insurgente registrada durante a guerra civil salvadorenha (de 1980 a 1992), um comando de soldados de elite matou os religiosos no campus da Universidade Centro-Americana, em San Salvador.

Os jesuítas mortos foram os espanhóis Ignacio Ellacuría, Segundo Montes, Ignacio Martín-Baró, Amando López e Juan Ramón Moreno. Também foram assassinados com eles os salvadorenhos Joaquin López (padre), a funcionária da universidade Julia Elba e a sua filha caçula, Celina Mariceth Ramos.

A operação foi ordenada a uma unidade do batalhão Alacatl, liderada pelo ex-tenente do Exército René Yusshy Mendoza, cujo depoimento no julgamento foi fundamental para a condenação de Montano.

O comando era composto por "cerca de 40 soldados, pertencentes a um batalhão de elite das Forças Armadas, treinados pelo Exército dos EUA, fortemente armados e equipados, sem que as vítimas tivessem qualquer capacidade de defesa".

Após tomar conhecimento da sentença, a universidade, em comunicado, disse que embora "a condenação do coronel Montano seja muito importante para o avanço da justiça no caso", a entidade acredita "que o processo realizado na Espanha pelo extraordinário serviço à verdade é mais importante".