Guerra civil na Síria: veja a cobertura completa
Internacional Em diário, garota síria faz relato ilustrado e imersivo da guerra

Em diário, garota síria faz relato ilustrado e imersivo da guerra

Philippe Lobjois, jornalista de guerra que descobriu Myriam e suas preciosas anotações, refuta comparações com o Diário de Anne Frank

Guerra Síria

Jornalista queria narrar a guerra com depoimento de uma criança

Jornalista queria narrar a guerra com depoimento de uma criança

Beatriz Sanz/R7

Quando o jornalista francês Philippe Lobjois chegou a Alepo, em dezembro de 2016, já tinha a ideia de que queria contar a história de uma das piores batalhas da Guerra da Síria pelo olhar de uma criança. O que ele não sabia até então é que essa criança seria Myriam Rawick.

Lobjois é um repórter de guerra experiente e já havia estado na  guerra da Iugoslávia, do Kosovo e do Afeganistão. Seu pensamento inicial era mostrar para o mundo a guerra através do relato de algum menino sírio.

Até conhecer o "relato visual" da agenda "cheia de desenhos" que Myriam vinha cultivando desde antes da guerra.

Só que encontrar Myriam não foi tão fácil. Ele passou pelo menos um mês rodando pela cidade, colhendo depoimentos e histórias até que se encontrou com um membro da Congregação dos Maristas que ajuda famílias refugiadas dentro da cidade de Alepo.

Uma das funcionárias era Antonia, mãe de Myriam. "Ela sentia uma necessidade imensa de falar sobre a guerra e comentou sobre uma pequena agenda na qual sua filha escrevia algumas anotações", lembra o jornalista. 

A ideia de um diário narrado por uma garota síria o entusiasmou. Georges, o padre marista que o auxiliou, traduziu alguns trechos do diário que estava escrito em árabe. Ele percebeu a potência da narrativa da garota. Decidiu publicá-la.

O livro foi publicado no Brasil pela Darkside Books e Philippe Lobjois, que descobriu a autora e editou o livro falou com exclusividade ao R7.

Philippe e Myriam ainda mantém contatos regulares, sempre intermediados por Georges, já que a menina não fala francês ou inglês.

Ele garante que ela vive em Alepo num contexto de recente paz, colhendo os frutos de seu trabalho, mas ainda enfrentando dificuldades no fornecimento de água e luz.

Myriam e Anne Frank

O Diário de Myriam é constantemente comparado a outra obra de guerra que marcou o mundo: O Diário de Anne Frank.

Mas Lobjois gosta de ressaltar que as diferenças entre as histórias contadas pelas duas garotas vão muito além do tempo, do espaço ou do conflito em que viveram.

"Anne Frank ficava enclausurada naquele porão com sua família, então ela cria para si própria, uma vida imaginária", destaca. "Já Myriam está em contato com a vida real lá fora, ela vive a guerra no seu dia-a-dia. Não se trata de um mundo imaginário e sim de um testemunho real da guerra e do seu cotidiano. Myriam conta o que ela vê

Membros da família de Myriam foram mortos na guerra

Membros da família de Myriam foram mortos na guerra

Divulgação

Para ele, é visível que a obra de Myriam tem a influência do mundo virtual em que a garota vive. "É um relato dos tempos de internet".

Além disso, segundo Philippe, o relato de Anne Frank é mais literário, pois a jovem fazia parte de uma família burguesa e tinha mais contato com livros, música e cultura do que Myriam.

A ameaça constante da Gestapo e da deportação faz com que a jovem judia relate no diário sua vida de forma mais íntima.

No Diário de Myriam, ficam gravados as ameaças quando ela sai de casa — ela pode sair, ao contrário de Anne Frank — e a violência sofrida por membros de sua família que são obrigados a participar da guerra.

As particularidades do conflito na Síria

Como um repórter de guerra que já esteve em outros confrontos, Philippe é capaz de traçar paralelos entre a guerra da Síria e outros conflitos que cobriu.

Para o jornalista francês, a guerra da Síria tem três elementos principais: é um conflito essencialmente étnico, religioso e territorial. A guerra do Líbano e da Iugoslávia também tinha esses três fatores primordiais.

Outro destaque é a capacidade de reviravolta deste conflito em específico. Até 2013, o presidente sírio Bashar al-Assad era considerado uma "carta fora do baralho".

Com a entrada da Rússia na guerra, apoiando o governante e a participação de outros países do ocidente auxiliando apenas no combate ao Daesh, al-Assad ganhou uma sobrevida e pode ser considerado um dos maiores vitoriosos da guerra que ainda não acabou.

Mas a grande diferença entre a guerra da Síria e outros combates no Oriente Médio ou na Ásia são as consequências enfrentadas pelos países europeus.

As consequências na Europa

Logo de cara, Philippe cita o aumento de atentados na Europa nos últimos anos como um dos principais efeitos da Guerra na Síria.

Eventualmente, foram dezenas de atentados na Europa desde 2011, quando a guerra começou. Boa parte desses ataques, como o do Charlie Hebdo, aconteceram na França.

Mas para além disso, nos últimos sete anos, a Europa é local de chegada de um dos maiores movimentos migratórios das últimas décadas.

Segundo Lobjois, a imigração começou com a queda de Saddam Hussein, no Iraque, mas se intensificou vertiginosamente após a queda do ditador líbio Muamar Kadafi.

"Adoraria que as estrelas da minha bandeira pudessem ser vistas por qualquer pessoa do planeta", escreve Myriam

"Adoraria que as estrelas da minha bandeira pudessem ser vistas por qualquer pessoa do planeta", escreve Myriam

Beatriz Sanz/R7

"Havia um acordo entre a Itália e a Líbia. O Kadafi recebia dinheiro para não deixar os imigrantes saírem do país", conta.

Sem a barreira de Kadafi, os imigrantes podiam arriscar suas vidas, cruzando o oceano em busca de uma vida melhor do outro lado.

A realidade, no entanto, foi outra. O aumento dos atentados fez crescer também a islamofobia e a resistência dos europeus a esses imigrantes.

"Então temos milhões de pessoas desembarcando nas praias europeias que são indesejadas", ressalta.

Politicamente falando, também houve um efeito considerável que foi o crescimento da extrema-direita em toda a Europa.

Na Alemanha, eles chegaram ao Parlamento; na França, cerca de 11 milhões de pessoas votaram em Marine Le Pen; na Áustria e na Itália conseguiram chegar ao governo.

O problema que afeta o continente há quase uma década ainda parece longe de ser resolvido.

Nesta semana, em função da recusa de diversos países em aceitar um navio com refugiados, o presidente da França, Emmanuel Macron e o ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini sugeriram a construção de campos de acolhimento para esses refugiados.

No entanto, esses campos ficariam em regiões como Kosovo, Albânia, Líbia e Tunísia, justamente para impedir que os refugiados chegassem até a Europa.

    Access log