Novo Coronavírus

Internacional Em estado crítico, negociador palestino é tratado em Israel

Em estado crítico, negociador palestino é tratado em Israel

Postura muitas vezes contrária a Israel não pesou na decisão de receber Saeb Erekat, internado no hospital Hadassah, por causa de complicações da covid 

  • Internacional | Eugenio Goussinsky, do R7

Saeb Erekat já negociou com Israel

Saeb Erekat já negociou com Israel

Raed Qutena/EFE/28-10-14

A transferência do negociador-chefe palestino Saeb Erekat, de 65 anos, para o hospital Hadassah Medical Center, em Jerusalém, na última terça-feira (20), tornou-se uma espécie de símbolo de como em Israel o debate sobre separar questões morais das políticas está sempre presente.

Veja também: Epidemia de coronavírus aproxima israelenses e palestinos apesar das rivalidades

Erekat, que foi submetido a um transplante de pulmão nos Estados Unidos, em 2017, está sedado e intubado, em estado crítico, por causa de complicações com a covid-19, mas permanece em estado estável, segundo os médicos.

Muitos setores ligados à extrema-direita no país criticaram o fato de o governo ter permitido o atendimento a Erekat, que em muitas ocasiões foi um opositor severo do Estado de Israel, defendendo com frequência algumas bandeiras da OLP (Organização para a Libertação da palestina) hostis a Israel.

Há décadas na cúpula palestina, Erekat atuou junto de Yasser Arafat (1929-2004), como um influente membro do partido Fatah (Movimento de Libertação Nacional da Palestina), e se tornou uma das referências para a política internacional palestina. Atualmente ele vinha mantendo uma relação muito próxima ao presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.

É verdade que, negociador e diplomata, Erekat já conversou por diversas vezes com autoridades israelenses, inclusive estando presente, como vice-presidente da delegação palestina, na Conferência de Paz de Madrid, em 1991, entre vários eventos.

Neste momento, porém, as negociações entre Israel e Autoridade Palestina estão congeladas, após a intenção inicial do governo israelense de estender a soberania a grandes partes da Judéia e Samaria e do Vale do Jordão, mais tarde adiada por causa da assinatura de um acordo de paz com os Emirados Árabes Unidos.

Prevaleceu, no entanto, a posição de que, por questões humanitárias, o atendimento deve ser feito, da melhor maneira, a quem quer que seja, conforme informou uma fonte do Ministério das Relações Exteriores de Israel.

"Israel sempre está aberto a ajudar, montou um hospital ativo na guerra síria, mesmo sendo um país inimigo. Isso (receber Erekat) não é algo inédito, o país está sempre disposto a abrir as portas e ajudar a todos, independentemente de outras questões", afirmou a fonte.

Segundo Dori Goren, ex-cônsul-geral de Israel em São Paulo e Sul do Brasil, não é a primeira autoridade palestina a ser atendida em Israel.

"Erekat não é visto como um inimigo e sim como um adversário que já se sentou na mesa de negociações. As relações com a Autoridade Palestina mudam de acordo com as circunstâncias. Mas há uma cooperação na área de Saúde. Outras autoridades já foram atendidas em hospitais israelenses. Até do Hamas. Familiares do líder Ismail Hanyeh já receberam atendimento médico em Israel" observou o diplomata.

A colunista Maayan Jaffe-Hoffman, do The Jerusalem Post, lembra que o atendimento sem discriminação faz parte do conceito de "pikuach nefesh" (em hebraico, salvação da vida) - um dos princípios mais básicos da lei judaica - no qual salvar uma vida humana é mais importante do que qualquer questão religiosa.

Esta tem sido a tônica, em geral, no país, independentemente do governo, desde a fundação do Estado de Israel, em 1948. Muitos adversários feridos de guerras eram atendidos em hospitais israelenses.

O mesmo ocorreu já nos anos 80, com a primeira e a segunda Intifadas, que geraram conflitos e guerras em Gaza, quando pacientes emergenciais foram sempre atendidos, fossem eles vítimas e até terroristas autores de atentados, conforme frisa Maayan.

Ela também lembrou que, na Guerra da Síria, iniciada em 2011, o Exército israelense, desde a fronteira com esse país inimigo, transportou sírios gravemente feridos para eles serem tratados em hospitais de campanha israelenses.

São nesses momentos, em que o mundo tem precisado ainda mais da solidariedade, em função da pandemia, que cada sociedade precisa encarar o desafio e se apegar a valores éticos em detrimento de outros interesses. Maayan caminha por esta linha de pensamento.

"Erekat recebendo cuidados no Hadassah deve ser uma prioridade para Israel, para ajudar a garantir que a nação não perca sua bússola moral - e estabelecer um padrão básico de ação ética durante a pandemia do coronavírus", completa.

Israelenses abraçam árvores para espantar solidão durante a pandemia

Últimas