Brexit: Reino Unido fora da União Europeia
Internacional Entenda a diferença entre britânico e inglês — e a confusão do Brexit

Entenda a diferença entre britânico e inglês — e a confusão do Brexit

Arquipélago formado por 5 países tem divisões que rendem nomes como Grã-Bretanha, Ilhas Britânicas, duas Irlandas e ainda 'manda' em 53 ex-colônias

Entenda como fica a situação do arquipélago com a saída do Reino Unido da UE

Entenda como fica a situação do arquipélago com a saída do Reino Unido da UE

REUTERS/Hannah McKay/20.08.2019

Reino Unido, Grã-Bretanha, Inglaterra e duas Irlandas. Os vários nomes e divisões do arquipélago ao norte da Europa podem deixar confuso quem não acompanha o vai e vem milenar da política das Ilhas Britânicas — e que agora ganha novo capítulo com o Brexit.

Afinal, o Reino Unido une mesmo todos os britânicos? E Grã-Bretanha é sinônimo de inglês? E como assim, um pedaço das Ilhas Britânicas vai ser europeu e o outro não?

Para começar, é preciso saber que todo o território afetado pelo Brexit é chamado de Ilhas Britânicas. O arquipélago é formado por 5 países, Inglaterra, País de Gales, Escócia, Irlanda do Norte e República da Irlanda.

Além dos países maiores e mais conhecidos do norte da Europa, a Ilha de Man, as Ilhas Scilly e as Ilhas do Canal completam o território.

Depois de conflitos e acordos econômicos, as ilhas acabaram formando novas divisões com diferentes objetivos e princípios, além da forma que os cidadãos de cada parte podem ser chamados.

Arte R7

 A grande ilha

A Grã-Bretanha é o território que consiste na maior parte de terra do arquipélago, que conta com a Inglaterra, País de Gales e Escócia, mas não pode ser considerado um país. Ela é só o território como um todo. Ela é chamada de grã, diminutivo de grande, por ser a maior ilha.

O nome vem do romano Britannia, para se diferenciar da pequena ilha controlada pela França, a Brittany. O “grã” entrou no nome por uma decisão egocêntrica do Rei Jaime I, em 1707, que queria deixar claro que ele não era um rei qualquer na velha Britannia, mas de toda a ilha. Além, é claro, de poder se chamar de Rei da Grã-Bretanha.

O surgimento do Reino Unido

O nome é uma abreviação de O Reinado Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e a data exata de quando ele foi estabelecido e organizado não é clara.

Alguns historiadores defendem que ele foi formado em 1707, pelo Ato de União entre Inglaterra, Escócia e País de Gales e que oficializou a Grã-Bretanha. Outros dizem que o Reino Unido só pode ser considerado real a partir dos anos 1800, quando a Irlanda do Norte entrou.

O Reino Unido é o grande protagonista do Brexit, que defende que os quatro países saiam da União Europeia, bloco econômico formado por 28 países e que aprovou na quinta-feira (17) um acordo para a saída da ilha.

As duas Irlandas

A parte irlandesa é formada pela República da Irlanda e Irlanda do Norte. Os dois países se separaram no século passado, em 1921, com a assinatura do Tratado Anglo-Irlandês.

Porém os conflitos na ilha datam do século 12, quando o rei inglês Henrique II tentou anexar a ilha ao seu reinado, mas os irlandeses resistiram e alguns britânicos se mudaram para lá. Apesar de viverem na mesma ilha, os dois povos sempre tiveram diferenças religiosas e de costumes.

Com a ascensão do protestantismo, os britânicos tentaram converter os irlandeses, que não aceitaram a nova religião imposta. Assim, protestantes rumaram para o norte da ilha e os católicos ficaram no Sul, para evitar conflitos.

A paz durou por alguns séculos, até que, em 1920, o parlamento inglês oficializou a divisão entre os dois países em Irlanda do Norte, que fica sob domínio do governo britânico, e República da Irlanda, a maior parte da ilha que é independente do controle da coroa.

Com a cisão, surgiu o Exército Republicano Irlandês (ou IRA, na sigla em inglês), um grupo armado que defendia a independência da ilha. Após uma série de atentados, a violência chegou no ápice em 1972, quando aconteceu o chamado “Domingo sangrento”, em que soldados britânicos mataram 14 pessoas na fronteira entre Irlanda e Irlanda do Norte.

É essa relação conflituosa entre os dois países que estava impedindo um acordo do Brexit de ser aprovado. Com a saída da União Europeia, da qual a Irlanda faz parte, os parlamentares britânicos estavam analisando o que fazer com a fronteira, a circulação de irlandeses entre os dois países e o livre comércio.

Alguns argumentavam que, se as fronteiras fossem fechadas novamente, a violência iria voltar. Outros não queriam que o país ainda fosse conectado ao bloco europeu.

O principal país

A Inglaterra é o principal país do arquipélago e sua capital, Londres, é também a capital do Reino Unido. A cidade é lar para a Rainha e a família real, além do Parlamento britânico.

Apesar de compreensível, é errado chamar qualquer outro país do arquipélago de Inglaterra, ou se referir a nação como sendo todo o Reino Unido.

Quem é quem?

Todos os cidadãos da Grã-Bretanha são britânicos, e os cidadãos da Irlanda são chamados apenas de irlandeses. Mesmo fazendo parte do Reino Unido, os irlandeses do Norte não podem ser chamados de britânicos e cidadãos de outros países não podem ser chamados de ingleses, título dado apenas aos habitantes da Inglaterra.

A Comunidade das Nações

O império britânico conquistou terras pela África, Ásia, Oceania e América do Norte ao longo dos séculos, se tornando o maior império do mundo.

Depois da dominação, colonização e independência, 53 ex-colônias britânicas decidiram formar um grupo para compartilhar os mesmos princípios e valores, além de permitir que nações ricas possam ajudar nações em desenvolvimento. Os membros se consideram “livres e iguais”.

Apesar das nações serem ex-colônias, a iniciativa não partiu da Rainha ou do governo britânico, mas da Índia, em 1926, que disse que queria continuar um país livre, mas ter conexão a Coroa e outros países que já foram propriedade do Império Britânico.

Os países começaram a entrar na Comunidade voluntariamente desde então, e o último a ingressar foi a Ruanda, em 2009.

Como fica o arquipélago com o Brexit?

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, conseguiu aprovar na quinta-feira (17) um acordo com a União Europeia sobre a saída do Reino Unido do bloco econômico. Agora, o acordo precisa ser aprovado no Parlamento Britânico.

Ainda não foi divulgado quais medidas serão tomadas na Irlanda do Norte com a saída do Reino Unido. O premiê havia dito antes que ainda existem alguns pontos a serem discutidos sobre o divórcio, e não se sabe se a fronteira entre os dois países está entre os assuntos em discordância.

Nenhum dos países da Comunidade das Nações sofrerá com a decisão do Reino Unido, uma vez que a Coroa não pode impor essas decisões sobre os países independentes.