Coronavírus

Internacional Entenda como a segunda onda de covid-19 assolou a Índia

Entenda como a segunda onda de covid-19 assolou a Índia

País enfrenta falta de leitos e oxigênio nos hospitais e escassez de vacinas para a população após ser considerado exemplo em 2020

Na Índia, população enfrenta falta de leitos e oxigênio

Na Índia, população enfrenta falta de leitos e oxigênio

Navesh Chitrakar/Reuters - 9.5.2021

Falta de leitos em hospitais, pacientes que não conseguem atendimento, escassez de medicamentos e oxigênio, uma população que não sabe quando será vacinada e uma nova cepa assolando o país.

A situação parece com a do Brasil no começo de 2021, mas está acontecendo a meio mundo daqui, na Índia, que se tornou o segundo país mais afetado pela pandemia do novo coronavírus e vive um caos no sistema de saúde.

O país asiático atualmente enfrenta falta de suprimentos para conseguir combater o vírus, atrasos na vacinação e segue batendo recordes quase diariamente de número de mortos, mais de 4 mil todos os dias. Já são mais de 25,7 milhões de infecções e 287 mil óbitos já registrados.

Em 2020, a Índia surpreendeu ao conseguir controlar a pandemia e evitar que o coronavírus assolasse o país de 1,3 bilhão de habitantes. Com medidas de restrição, lockdowns e cuidados do governo, os indianos estavam longe do topo da lista de contágios e mortes por covid. Porém, como em outras partes do mundo, a população deixou de respeitar as medidas de restrição e a situação saiu de controle.

“A Índia passou relativamente incólume pela pandemia em 2020. É um grande centro de produção de vacinas e tinha uma certa segurança no início”, diz o professor de Relações Internacionais da ESPM-SP, Fausto Godoy. “A leniência inicial teve fim na segunda onda”.

O país é o segundo mais populoso do mundo e ainda é bastante rural, explica o professor. Com isso, a maioria dos empregos está nas grandes cidades, que decretaram medidas de restrição e lockdowns no começo da pandemia. Com o relaxamento, esses trabalhadores voltaram para suas aldeias e levaram o vírus. Nessas regiões, o sistema de saúde é bastante precário e a disseminação da covid-19 foi inevitável.

“A Índia não tem infraestrutura para abrigar todos esses doentes, principalmente nas aldeias”, avalia o especialista.

Índia é criticada por subnotificar o número de mortos e casos de covid-19

Índia é criticada por subnotificar o número de mortos e casos de covid-19

Samuel Rajkumar/Reuters - 13.5.2021

O problema da subnotificação

Desde o começo da pandemia, a Índia é acusada por especialistas de subnotificar o número de casos e mortes de covid-19. Em 2020, muitos não acreditavam que um país com a população e as condições sanitárias da Índia tivesse tido tão poucas mortes e, agora, o número divulgado de infecções também é contestado.

“A subnotificação é fruto de uma não identificação do sistema de saúde ou o fato que muitos óbitos não chegam ao sistema de saúde”, explica o professor de Saúde Pública da USP, Gonzalo Vecina.

Para Godoy, é complicado ter o registro do que está acontecendo em um país com um sistema precarizado e com uma grande parcela da população vivendo em aldeias. “Com a dimensão populacional da Índia é difícil descobrir se alguém tem covid.”

A falta de um sistema de saúde integrado e avançado dificulta a identificação e contabilidade dos casos e mortes. Além disso, a Índia também tem um problema grave de desigualdade social.

“Apesar do regime de castas ter sido suspenso, na sociedade ele ainda existe”, diz Vecina. “Os ‘intocáveis’ [a casta mais baixa no sistema] têm muita dificuldade para ter acesso ao sistema de saúde e uma parte vive na rua. A frequência com a qual eles devem estar sendo infectados é grande.”

Sem os números exatos do número de infectados e mortos pela covid-19, é difícil combater a doença tanto local quanto globalmente. “Quando pega a prevalência real da doença, isso deixa as pessoas muito mais preocupadas”, avalia Vecina.

Além do total de casos, não se sabe com exatidão o número de mortos pela doença. Nos vilarejos mais pobres, pessoas podem estar morrendo de covid-19 e sendo cremados ou enterrados sem que a confirmação da causa do óbito entre nos registros do governo.

Maior produtor de vacinas do mundo, país tem escassez de vacinas

Maior produtor de vacinas do mundo, país tem escassez de vacinas

Francis Mascarenhas/Reuters

Sem vacina e com novas cepas

Para piorar, a Índia, principal fabricante de medicamentos e vacinas do mundo, não está conseguindo imunizar a própria população. No começo de 2021, a campanha de vacinação indiana parecia promissora, sendo intitulada “a maior do mundo” e usando os dados de centenas de milhões de eleitores cadastrados no sistema do governo para organizar a fila da imunização.

Confiantes e otimistas, autoridades liberaram a doação de vacinas para países vizinhos e mais pobres, além da exportação de doses da vacina de Oxford para outros países, como o Brasil. Agora, o país enfrenta uma lentidão na vacinação, além da falta de doses para a própria população.

A Índia está desenvolvendo vacinas nacionais contra a covid-19, além de ter autorizado algumas vacinas estrangeiras no país.

Com a disseminação do vírus fora de controle, a Índia também luta contra uma nova cepa da covid-19, ainda mais infecciosa e perigosa. Segundo Vecina, as variantes do vírus são “um erro natural da natureza”.

Durante o processo de replicação do vírus dentro das células humanas, às vezes o invasor consegue “aumentar a capacidade de sobrevivência e cria uma variação que prevalece sobre as outras cópias”, explica o especialista. Com uma cepa mais forte, ela consegue se espalhar mais.

A cepa indiana foi apontada como uma das mais perigosas, junto com a variação do Reino Unido, África do Sul e Manaus. Com isso, voos vindos do país asiático foram suspensos na maior parte do mundo e fronteiras com os países vizinhos foram fechadas para evitar que a variante se espalhe ainda mais.

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