Internacional Entenda o escândalo da reforma que ameaça Boris Johnson

Entenda o escândalo da reforma que ameaça Boris Johnson

Primeiro-ministro é acusado de usar dinheiro de doador para bancar obras de R$ 1,5 milhão no apartamento oficial em Londres

  • Internacional | Da AFP, com R7

Dan Kitwood / POOL / AFP

O financiamento das obras de reforma do apartamento oficial em Londres, capital do Reino Unido, onde vivem o primeiro-ministro britânico Boris Johnson e sua noiva Carrie Symonds, e seus gostos caros em matéria de decoração, criaram um imenso escândalo político no país.

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Estas são as origems desta crise e suas possíveis consequências, que podem incluir até uma perda do mandato do premiê.

Como começou?

Johnson, Symonds e seu filho Wilfred, de 1 ano, vivem em um apartamento localizado no número 11 de Downing Street, ao lado do prédio onde fica o gabinete do primeiro-ministro, em Londres.

Cada premiê recebe uma verba anual de 30 mil libras (cerca de R$ 224 mil) para a manutenção do apartamento oficial, mas a reforma realizada pelo casal foi tamanha que a fatura pode chegar a 200 mil libras (aproximadamente R$ 1,5 milhão), segundo a imprensa britânica, e surgiram perguntas sobre a origem dos fundos utilizados.

O retorno de Cummings

O controverso ex-assessor especial de Johnson, Dominic Cummings, saiu há uma semana do silêncio em que estava desde deixou Downing Street repentinamente em novembro.

Lançando um ataque demolidor contra o líder do Partido Conservador, seu antigo aliado na campanha do Brexit em 2016, Cummings acusou Johnson de tentar que doadores privados financiassem as obras em seu apartamento.

O ex-assessor afirma ter dito ao premiê que os projetos eram "pouco éticos, estúpidos e possivelmente ilegais".

Johnson assegurou que pagou de seu próprio bolso os custos da reforma, mas se negou repetidamente a dizer se recebeu um empréstimo inicial e de quem.

De onde saiu o dinheiro?

Simon Case, chefe do serviço civil do Reino Unido, revelou na última segunda-feira que no ano passado Johnson havia pedido que estudasse a criação, para Downing Street, de um regime legal similar ao que existe nos EUA para a Casa Branca.

David Brownlow, doador do Partido Conservador, foi proposto como presidente de uma fundação beneficente que se tornaria dona do imóvel. Em um e-mail de outubro passado, Brownlow disse que teria transferido 58 mil libras (cerca de R$ 433 mil) para "cobrir os pagamentos que o partido fez em nome do futuro 'Downing Street Trust'", que jamais foi criado de fato.

Esse dinheiro foi declarado à comissão eleitoral do país, que na última quarta-feira (28) iniciou uma investigação após encontrar "motivos razoáveis para suspeitar que podem ter acontecido uma ou mais infrações" na reforma do apartamento de Johnson.

A comissão, que regulamenta o financiamento dos partidos e eleições, pode exigir o reembolso das doações duvidosas e impôr multas, ou inclusive enviar o assunto para a polícia para que inicie uma investigação criminal.

Por sua parte, Simon Case está conduzindo uma investigação interna, enquanto outra vem sendo supervisionada por um novo assessor de Johnson encarregado de fazer cumprir o código de conduta ministerial, Christopher Geidt, ex-secretário pessoal da rainha Elizabeth II.

Quais são as consequências?

Estas investigações chegam em um momento especialmente inoportuno para Boris Johnson, a quem a oposição qualificou de político desonesto e mentiroso a poucos dias das eleições regionais e municipais de 6 de maio.

No entanto, as pesquisas de opinião sugerem que os conservadores seguem à frente dos trabalhistas e dos demais partidos de oposição antes da votação, a primeira desde a entrada em vigor do Brexit e o terremoto provocado pela pandemia.

Em um acalorado debate verbal no Parlamento na última quarta, o líder da oposição, o trabalhista Keir Starmer, lembrou a Johnson que ele teria de se demitir se ficar provado que ele mentiu aos parlamentares.

Espera-se que Geidt publique em breve um novo relatório de gastos dos ministros, que segundo Downing Street incluirá detalhes sobre as obras de reforma.

Mas o assessor afirmou que o próprio primeiro-ministro segue tendo a última palavra sobre se infringiu o código ministerial ou não (seu predecessor se demitiu em novembro quando Johnson rechaçou sua opinião de que a ministra do Interior, Priti Patel, havia praticado assédio moral contra seus subordinados).

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