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Internacional Escolhido de Biden para o Pentágono gera incômodo entre democratas

Escolhido de Biden para o Pentágono gera incômodo entre democratas

Lloyd Austin não cumpre requisito legal para ex-militares ocuparem o cargo e pedido de exceção  não é bem visto por membros do partido 

Escolhido por Biden para a Defesa, Lloyd Austin é civil há apenas 4 anos

Escolhido por Biden para a Defesa, Lloyd Austin é civil há apenas 4 anos

Stan Gilliland / EFE - EPA - Arquivo

O democrata Joe Biden, virtual presidente eleito dos EUA, anunciou formalmente nesta quarta-feira (9) o nome que escolheu para liderar o Pentágono a partir de janeiro, uma indicação que gerou incômodo entre os democratas no Congresso por não se enquadrar nos parâmetros da lei para ocupar o cargo.

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A nomeação do general aposentado Lloyd Austin é tão histórica — poderá ser o primeiro secretário de Defesa negro dos EUA — como polêmica, e o partido não a recebeu com o entusiasmo que Biden esperava.

"Ele é a pessoa certa para este trabalho, e no momento certo", comentou Biden no ato de nomeação formal de Austin, na cidade de Wilmington, no estado do Delaware.

Biden pede uma exceção

O foco da polêmica está em uma lei americana criada em 1947 e modificada em 2008, segundo a qual os militares aposentados precisam estar na vida civil há pelo menos sete anos para ocuparem o cargo de secretário de Defesa.

Austin só tem quatro anos como civil. Sendo assim, para que possa ocupar o cargo, necessitaria não apenas a aprovação do Senado, mas também a aprovação de uma exceção por parte da Câmara dos Representantes e do Senado para que possa driblar a lei.

"Eu não pediria esta exceção se não acreditasse que este momento da história a exige", afirmou Biden.

Tanto Biden como Austin, que o acompanhou no ato, expressaram respeito ao princípio de que o Pentágono precisa ser comandado por civis, enquanto o Estado-Maior Conjunto é composto por militares que também assessoram o presidente.

"Chego a este papel como líder civil, certamente com experiência militar, mas também com um profundo apreço e reverência pela sabedoria de que nossas Forças Armadas devem ser controladas por civis", argumentou Austin, de 67 anos.

O ato de apresentação foi, acima de tudo, uma defesa dessa exceção a Austin, autorização que só foi concedida a dois secretários de Defesa desde meados do século passado.

O último a receber a exceção foi James Mattis, o primeiro secretário de Defesa do presidente Donald Trump, em 2017. Para muitos congressistas, conceder essa brecha duas vezes em quatro anos seria pedir demais.

"Não apoiarei a exceção" para Austin, afirmou nesta quarta-feira a senadora democrata Tammy Duckworth, membro do Comitê de Forças Armadas do Senado.

Ao menos outros três senadores do partido — Elizabeth Warren, Richard Blumenthal e Jon Tester — também expressaram contrariedade à exceção para o indicado de Biden, com o argumento de que também não apoiaram a nomeação de Mattis e não seria coerente mudar de posicionamento agora.

Ao todo, 17 senadores democratas e republicanos votaram contra a exceção para Mattis em 2017, enquando 151 representantes se opuseram, mas não impediram a nomeação.

Os democratas contarão a partir de janeiro com uma estreita maioria na Câmara dos Representantes e, mesmo que assumam o controle do Senado se ganharem dois assentos que estão em disputa no estado da Geórgia, a vantegem seria ínfima.

No entanto, ainda não está claro até que ponto a chegará a oposição à exceção para Austin. É possível que Biden se apoie no Partido Republicano para conseguir a autorização.

Experiência questionada

Além da recente incorporação à vida civil, o indicado de Biden levantou preocupações de que a maior parte de sua experiência como oficial militar sênior é focada no Oriente Médio, embora tenha ocupado cargos menores na Europa.

Em um momento em que o Pentágono pensa cada vez mais na concorrência com China, Rússia e novos desafios como a pandemia de covid-19 e a crise climática, alguns especialistas, a maioria republicanos, expressaram preocupação com o perfil de Austin.

Talvez por isso tanto Biden quanto Austin tenham identificado como prioridade a "reconstrução" das alianças tradicionais americanas na Europa, Ásia e Pacífico, sem mencionar o Oriente Médio.

Mas a experiência de Austin como chefe do Comando Central, encarregado das operações no Oriente Médio, sem dúvida seria útil para decidir o que fazer em países onde os EUA ainda têm tropas mobilizadas, como Afeganistão e Iraque.

Biden contra as 'guerras eternas'

"Temos que acabar com as guerras eternas e garantir que o uso da força seja a última ferramenta à qual podemos recorrer", frisou Biden.

Quando Biden chegar ao poder em janeiro — e se Trump executar seus planos de retirada — restarão apenas 2.500 soldados americanos no Afeganistão e outros 2.500 no Iraque, e o novo presidente terá que decidir como administrar esse contingente menor.

De acordo com The Washington Post, a principal razão pela qual Biden optou por Austin é a tendência do general aposentado a implementar ordens em vez de tentar impor suas próprias prioridades.

Esse perfil abriria o caminho para um maior poder para a Casa Branca e para outros membros da equipe de Biden, como seu assessor de Segurança Nacional, Jake Sullivan, e seu nomeado como secretário de Estado, Antony Blinken, para projetar a política de defesa e os próximos passos em países como o Afeganistão.

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