"Eu vi a Síria se decompor em seis anos", diz diplomata da UE

Anis Nacrour, ex-conselheiro francês de origem árabe, chegou ao país em 2011

"Se vocês já ficam indignados ao acompanhar o que acontece na Síria, imagine eu que vivi lá", diz Nacrour
"Se vocês já ficam indignados ao acompanhar o que acontece na Síria, imagine eu que vivi lá", diz Nacrour REUTERS

A guerra civil que assola a Síria desde 2011 deixou de ser destaque frequente nos veículos internacionais, mas ainda deixa marcas que vão demorar muito tempo para serem “digeridas”, diz Anis Nacrour, que trabalhou como primeiro conselheiro da delegação da União Europeia na Síria, entre 2011 a 2016.

— Cheguei em Damasco [capital síria] em setembro de 2011 e eu vi o país se decompor em seis anos. Teve massacres, armas químicas e milhares de mortos civis. Se vocês já ficam indignados ao acompanhar o que acontece na Síria, imagine eu que vivi lá. Os sírios estão cansados e querem que isso termine, mas a Síria não é mais prioridade. Esse conflito não interessa mais, apenas se tiver a ver com a Europa.

Originário de Homs, na Síria, o diplomata francês foi testemunha em Beirute e em Damasco das mudanças políticas do Oriente Médio, iniciadas com a Primavera Árabe.

— Nós acreditávamos que a Primavera Árabe traria coisas boas, mas não foi planejado o que seria implantado depois. Há sete anos, esse movimento abriu a caixa de Pandora no mundo árabe, mas também em volta do Mediterrâneo, e desencadeou a pior crise humanitária desde a 2ª Guerra Mundial. A balança do poder e o formato da região tal como existe há mais de um século estão mudando drasticamente.

Na Síria, a Primavera Árabe começou em 2011 com manifestações civis pacíficas e com reivindicações como o fim da corrupção do governo de Bashar al Assad. No entanto, pouco tempo depois, os manifestantes começaram a entrar em confronto com a polícia.

— A gente achou que o governo sírio ia aprender lições e engajar mudanças. O Ocidente achava que geraria melhoras para a população. Infelizmente, isso não se concretizou na Síria. Conforme o regime respondia com violência, não tinha mais diálogo para consenso.

Em 2012, Kofi Annan, então enviado especial da Nações Unidas e da Liga Árabe à Síria conseguiu propor um plano de paz aceito por Assad. O acordo tinha seis pontos três deles, destinadas a aumentar a pressão sobre o presidente sírio para o fim dos ataques contra civis, foram vetados por Rússia e a China no Conselho de Segurança.

— A comunidade internacional não conseguiu chegar a negociações que acabassem com o problema. Agora, após a intervenção russa e a retirada dos norte-americanos, voltamos a uma discussão política.

Russos defendem o governo de Assad e consideram o presidente um aliado na luta contra o terrorismo. Já os americanos questionam a legitimidade de Assad. Ambos agem realizando ataques com mísseis e bombardeios que já tiraram a vida de civis.

Hoje, a Síria está dividida política e geograficamente entre governo, opositores e curdos (um grupo étnico espalhado por diversos países), além de ter parte de seu território dominada pelos extremistas do grupo radical Daesh (também conhecido como Estado Islâmico).

— O governo não controla o país, só 60% do território e 50% da população, porque muita gente saiu. Mas é uma ilusão imaginar que o que acontece na Síria só tem consequências na Síria. A ascensão de partidos da extrema-direita na Europa tem relação direta com a crise de refugiados, e a crise de refugiados com a guerra síria.

Nacrour veio a São Paulo a convite da Aliança Francesa, para participar do projeto Diálogos Transversais, que tem como objetivo cruzar visões e conhecimentos de especialistas franceses e seus pares brasileiros.