Internacional EUA: Mortes por overdose revelam novo perfil da epidemia de drogas

EUA: Mortes por overdose revelam novo perfil da epidemia de drogas

Consumo de entorpecentes era associado à população negra, mas número de mortes por overdose cresceu aceleradamente entre os brancos

Mortes por overdose nos EUA revela novo perfil da epidemia de drogas

Epidemia de drogas é impulsionada pelo consumo de opiáceos entre brancos

Epidemia de drogas é impulsionada pelo consumo de opiáceos entre brancos

Spencer Platt/Getty Images

A mudança no perfil dos usuários é uma das marcas da avalanche de overdoses — causadas principalmente pelo consumo de opiáceos — que assola os Estados Unidos. É o que constata Erich Goode, sociólogo americano especialista em comportamento coletivo e autor do livro "As Drogas na Sociedade Americana" — que terá sua 11ª edição publicada no próximo ano.

“Os pesquisadores costumavam descrever o abuso de drogas, especialmente de heroína e crack, como característico das minorias raciais. Mas isso mudou”, diz Goode. Citando dados do Sistema Nacional de Estatísticas Vitais (NVSS, na sigla em inglês), Goode aponta o crescimento acelerado da mortalidade por overdoses entre a população branca.

“Em 1999, a taxa de mortalidade por overdoses a cada 100 mil habitantes era de 6 entre os brancos, 7,5 entre os afrodescendentes e 5,5 entre os latinos”, afirma. “Até 2015, entretanto, os índices mudaram para 21 entre os brancos, 12,5 entre os negros e 7 entre os latinos.”

Ou seja: o índice de pessoas brancas morrendo de overdose cresceu 3,5 vezes em 16 anos. Entre os latinos, o número aumentou 1,3 vezes no mesmo período. Já entre a população negra, 1,7 vezes.

O histórico da crise

Em 2017, os Estados Unidos registraram 72 mil mortes causadas por overdose — da quais 49 mil foram ocasionadas por opiáceos, segundo dados do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, na sigla em inglês).

Entre essas, 59,1% (ou 29 mil mortes) se deram pelo consumo de fentanil — opiáceo usado contra a dor que também é ministrado com outros medicamentos para a anestesia.

Muitos especialistas no tema ainda consideram que a publicação uma carta de cinco parágrafos em um periódico médico de prestígio — o New England Journal of Medicine — no ano de 1980 foi um divisor de águas para a crise.

O texto, assinado por um médico e sua assistente, dizia que o risco de vício havia se mostrado baixo em pacientes para quem eram prescritos narcóticos — o que teria encorajado a prescrição desenfreada dessas substâncias.

Para Goode, foi uma combinação de fatores que deu início à crise atual — já chamada de “epidemia das drogas” por redes de notícias internacionais.

“Antes de tudo, vale lembrar que existe uma tendência genética para que os seres humanos queiram alterar o estado de sua consciência. As pessoas bebem há séculos. Somos geneticamente e biologicamente preparados não apenas para alterar o estado de nossa consciência, como para gostar disso. E os americanos já tiveram problemas com vícios no passado. No século 19 e no início do século 20, havia centenas de milhares de viciados em remédios nosso país”, diz.

Pobreza é combustível para epidemia de drogas

Pobreza é combustível para epidemia de drogas

Spencer Platt/Getty Images/24.1.2018

O sociólogo ainda reforça que os narcóticos — drogas confeccionadas a partir do ópio e seus derivados — estão mais potentes do que no passado.

“As substâncias alteram o estado de nossa consciência com mais força e rapidez e levam a consequências negativas de forma mais feroz.”

Situação econômica dos EUA

Erich Goode acredita que a situação econômica vivida pelos Estados Unidos nos dias de hoje não favorece uma mudança de cenário no curto prazo para os viciados em drogas.

“Atualmente, os ricos estão ficando muito mais ricos, a classe média está melhorando um pouco a qualidade de vida e os pobres ou estão estagnados, ou estão ficando mais pobres. As condições na base da estrutura de classes estão decaindo. Há um número muito grande de pessoas que simplesmente desistiu de procurar trabalho”, comenta.

Philip Alston, relator especial da Organização das Nações Unidas, divulgou um relatório em junho afirmando que a pobreza nos Estados Unidos é ampla e se aprofunda sob o governo Trump.

Segundo Alston “enquanto benefícios de segurança social e o acesso à saúde são cortados, a reforma tributária do presidente Donald Trump garantiu ganhos financeiros aos mega-ricos e grandes empresas, aumentando ainda mais a desigualdade”.

O sociólogo Erich Goode endossa: “O cenário é de uma população pobre segregada, alienada e sem trabalho. Isso prepara o campo para o consumo de drogas.”