Evo diz que ganhou, mas oposição acusa fraude: a novela da eleição na Bolívia

Presidente boliviano se proclamou vencedor do pleito nesta quinta, enquanto Carlos Mesa diz não reconhecer resultado e a OEA pede que um segundo turno seja realizado

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Evo Morales anunciou nesta quinta sua vitóriana Bolívia, mas pleito sofre contestações

Evo Morales anunciou nesta quinta sua vitóriana Bolívia, mas pleito sofre contestações

Reuters

"Trago uma boa notícia a vocês", disse Evo Morales em entrevista coletiva em La Paz nesta quinta-feira (24/10). "Falta 1,5% (de apuração das urnas), pode variar e não é oficial ainda, mas ganhamos."

Assim, Morales celebrava sua vitória — para o que deve ser seu quarto mandado consecutivo na Bolívia — ainda no primeiro turno das eleições presidenciais realizadas no domingo.

Mas o pleito tem sido duramente questionado, tanto pela oposição quanto por organismos internacionais, desde que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) boliviano fez uma inexplicada pausa na divulgação da contagem de votos, justamente no momento em que os resultados parciais apontavam para a possibilidade de um segundo turno entre Morales e o opositor Carlos Mesa.

Mesa acusou o governo de "fraude eleitoral" e pediu um segundo turno. Morales, por sua vez, afirmou que o opositor "não apresentou provas".

Ao mesmo tempo, a Organização dos Estados Americanos (OEA), que atuou como observadora na eleição, afirmou ter "sérias dúvidas" sobre o pleito e recomendou que o país faça um segundo turno.

"Devido ao contexto e aos problemas evidenciados no processo eleitoral, continua sendo uma melhor opção convocar um segundo turno", disse a organização em comunicado. "A desconfiança no processo eleitoral e a falta de transparência (...) geraram uma alta tensão política e social."

Morales também respondeu com críticas. "Não quero pensar que a missão da OEA já está participando de um golpe de Estado (...) orquestrado internamente e externamente. A OEA deveria avaliar a si mesma e à missão que enviou."

O presidente afirmou que aceitaria uma auditoria da contagem de votos por parte da organização, mas pareceu rejeitar a precondição de que as conclusões da auditoria fossem vinculantes.

Desde as eleições, tem havido manifestações contra e a favor do governo

Desde as eleições, tem havido manifestações contra e a favor do governo

Getty Images

Oficialmente, a contagem das eleições ainda não foi concluída. Com 98% das urnas apuradas na manhã desta quinta, Morales tem 46,8% dos votos, contra 36,7% de Carlos Mesa, o que evitaria um segundo turno — segundo a lei boliviana, a vitória em primeiro turno exige ao menos 40% dos votos e uma vantagem superior a 10 pontos percentuais entre o primeiro e o segundo colocados.

"Faltam cerca de 120 mil votos (a serem apurados)", afirmou Morales em coletiva. "Vamos respeitar se o resultado final disser que há segundo turno e vamos (disputar). E se o resultado disser que não haverá (segundo turno), vamos defendê-lo. (...) Ganhamos em primeiro turno. Ainda há votos por contar, mas tenho informação de que o que falta é voto da área rural (bastião de Morales)."

A contagem de votos

O Tribunal Superior Eleitoral boliviano tem sido amplamente questionado desde que, no mesmo dia da eleição, suspendeu a divulgação de uma contagem preliminar quando chegou em cerca de 83% dos votos apurados. Na ocasião, Morales tinha 45% dos votos, e Mesa, 38%.

Depois de 23 horas, o órgão eleitoral anunciou novos resultados com mais de 95% dos votos contabilizados, dando a Morales uma vantagem de mais de 10 pontos.

Isso fez com que milhares de simpatizantes de Mesa saíssem às ruas para protestar e acusar o governo de fraude. Houve também manifestações em favor de Morales, que acusou a oposição de orquestrar um golpe contra ele.

"Vamos defender a democracia porque nós recuperamos a democracia", disse o presidente.

Mesa, por sua vez, acusou Morales de romper a institucionalidade do país. "Quem toma o controle de todos os Poderes e os concentra em uma só (pessoa) de maneira ilegítima, deixando vulnerável a independência de Poderes, é protagonista de um golpe de Estado", afirmou.

Na quarta-feira, Mesa disse também que não reconheceria os resultados dados pelo TSE.