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Internacional Geopolítica das vacinas: Entenda a relação do Brasil com Índia e China

Geopolítica das vacinas: Entenda a relação do Brasil com Índia e China

Em meio a imbróglio para conseguir doses e entrega de materiais, país pode atrasar cronograma de imunização contra a covid-19

  • Internacional | Giovanna Orlando, do R7

Após pressão do governo, Índia enviou 2 milhões de doses da vacina da AstraZeneca

Após pressão do governo, Índia enviou 2 milhões de doses da vacina da AstraZeneca

Gareth Fuller/PA Wire/Pool via Reuters

Com uma pandemia global que já deixou quase 100 milhões de infectados, governos do mundo todo tentam conseguir vacinas para começar suas campanhas de imunização o mais rápido possível. Com a altíssima demanda e a urgência em tentar frear um vírus perigoso, era de se esperar que os materiais suficientes para produzir as vacinas acabassem, ou que as fabricantes precisassem de um pouco mais de tempo para conseguir dar conta da demanda.

É nesse entrave que o Brasil se encontra com os dois fornecedores de vacinas que o governo tem até agora. A China, fabricante da CoronaVac, está atrasada para enviar insumos ao Brasil para a produção das doses continuar. E a Índia, produtora do imunizante da AstraZeneca, que divulgou que primeiro distribuiria as doses aos países vizinhos antes de enviar lotes ao Brasil.

Depois de dias de imbróglio e sem saber quando as vacinas fabricadas na Índia chegariam ao Brasil, a chancelaria indiana confirmou que um lote de 2 milhões de doses seria enviado na última sexta-feira (22).

A Índia realmente distribuiu as vacinas primeiro aos países vizinhos, e de forma gratuita, mas antes garantiu que o país tivesse doses suficientes para continuar o próprio programa de vacinação, já que tem uma população que supera a marca de 1 bilhão de pessoas.

O país é o mais importante no Leste Asiático e atrai cidadãos de diversos países vizinhos. Ao ajudar a imunização desses países, as chances da covid-19 voltar a entrar no país e desencadear um novo surto caem, explica o coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais do Mackenzie, Márcio Coimbra.

Além disso, o governo indiano também prioriza “ajudar os vizinhos”, diz o professor de Gestão  Internacional Umesh Mukhi, que é indiano. “Temos um cenário geopolítico na Ásia diferente da América do Sul. A Índia está disposta a ajudar todos os países”, diz.

Pressão do governo não gerou crise diplomática

O Brasil começou a campanha de vacinação no dia 17, mas até agora, apenas as 6 milhões de doses da CoronaVac estão disponíveis. O governo fechou um acordo com o instituto indiano Serum para conseguir 2 milhões de doses da vacina da AstraZeneca até março, mas a urgência para a vacinação fez com que autoridades tentassem atropelar o prazo e conseguir a vacina ainda este mês.

O governo tentou enviar um avião até a Índia, mas o governo asiático não liberou as doses e Bolsonaro se reuniu com o embaixador indiano para entender o que poderia ser feito. A pressão deu certo e a Índia disponibilizou as vacinas na sexta-feira (22).

Todo esse embate não vai acarretar em um problema diplomático, enfatizaram os especialistas. “Não é um problema diplomático, é técnico”, explica Mukhi. “A Índia não negou [entregar as vacinas], mas sempre deixou claro que precisava de tempo.”

Além disso, as empresas indianas são privadas e as transações comerciais com os fabricantes de vacina não têm interferência com o governo, esclarece o professor.

Por alta demanda, China atrasou exportação de insumos para a vacina

Por alta demanda, China atrasou exportação de insumos para a vacina

Sebastião Moreira/EFE - 21.01.2021

Relação conturbada com a China

Essa questão já é diferente com a China, com quem o governo brasileiro tem uma relação complicada. Durante a pandemia, filhos do presidente culparam o país pela disseminação da doença, tecem comentários críticos e o embaixador chinês no Brasil já repudiou publicamente este comportamento.

O Brasil depende da China, e não apenas para a exportação de materiais para a fabricação da vacina. Com os comentários e uma relação complicada entre Bolsonaro e Xi, o país asiático pode decidir retaliar e demorar para entregar os insumos, ou encontrar outras formas de fazer o país se responsabilizar pelos comentários.

“A China já afirmou publicamente que não se sente bem com isso”, relembra o professor Coimbra. “A maneira anti-diplomática de atacar a China certamente tem um custo a ser pago.”

Brasil precisa desenvolver indústria

Ainda esperando para aprovar outras vacinas e na fila de espera para comprar imunizantes de outros fabricantes, só resta ao Brasil esperar. A dependência externa para conseguir proteger a população e a falta de desenvolvimento no setor de medicamentos do país foi criticada por ambos os especialistas.

"O Brasil ficou para trás, foi falta de planejamento e de estratégia”, analisa Coimbra. “O país está muito atrasado na produção de vacinas, precisa trabalhar com a produção de insumos e vacinas de forma mais efetiva.”

Além disso, o especialista também discorda da estratégia do governo federal de priorizar só um imunizante. “Deveríamos ter investido em outras vacinas. Foi erro do governo.”

O professor Mukhi não enxerga uma dependência apenas de fabricantes no exterior, mas também uma dependência interna. “Para mim, é um pouco estranho que o Brasil seja muito dependente de São Paulo”, reflete. “O Brasil deveria desenvolver pesquisas em outros estados, investir em pesquisa, principalmente agora durante a pandemia.”

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