Incerteza aflige brasileiros barrados por lockdown na África do Sul

Medida que impõe restrições, como em operações de aeroportos, dificulta situação de estrangeiros. Embaixada e empresas aéreas buscam soluções

Bloqueios impostos pelo governo sul-africano são fiscalizados por militares

Bloqueios impostos pelo governo sul-africano são fiscalizados por militares

REUTERS/Sumaya Hisham - 27.3.2020

A indefinição causada pela decretação de lockdown (bloqueio, em português) pelas autoridades da África do Sul para conter a disseminação do novo coronavírus tem causado preocupação e inúmeras dificuldades para centenas de brasileiros em viagem ao país que agora anseiam por uma chance de voltar para casa.

De acordo com informações da Embaixada do Brasil na África do Sul, aproximadamente 500 cidadãos contataram a representação diplomática para relatar problemas e solicitar a intervenção do governo nacional com o objetivo de acelerar os trâmites burocráticos entre as nações.

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"No dia 14 [de março], vim para Moçambique e outros do grupo para  África do Sul, no dia 11. Nos encontramos aqui [em Johanesburgo] para retornar. Porém, as passagens começaram a serem canceladas no dia 23. E estamos aqui, até agora, sem saber quando vamos embora pra casa", contou Silvio César dos Santos Rosa, integrante de um grupo de missionários que aguarda a resolução do impasse. "Já estamos sem recursos financeiros. Nossos familiares muito preocupados", complementou.

Recentemente, a notícia relativa à abertura de um voo da Latam Airlines, programado para o dia 1º de abril, com a finalidade de repatriar brasileiros nas condições já citadas gerou esperança. No entanto, a decolagem ainda foi confirmada pela empresa ou mesmo pelas autoridades brasileiras.

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Além disso, os esforços do Brasil para trazer de volta os cidadãos barrados na África do Sul são considerados insuficientes por algumas pessoas que seguem à espera do desfecho para um drama que pode ser ainda maior devido à probabilidade de famílias serem separadas em uma eventual viagem de retorno.

"Se isso acontecer, será terrível. A minha esposa voltando com meu filho e dois enteados e eu aqui, sem saber quando retornarei", lamentou o cardiologista Acelino Souza Júnior, que mora em Aracaju (SE). "Chegando em São Paulo, ainda teremos que resolver o trecho final da reserva. A minha esposa terá que fazer isso sem a minha presença. Ainda acredito que a embaixada irá corrigir essa situação e me colocar no voo junto com meus familiares", projetou o médico.

Fome e violência

Além do crescente sentimento de stress em decorrência da distância da terra natal, muitos brasileiros denunciaram o privações e perigos vividos nas últimas semanas. Alguns tiveram que se valer da hospitalidade de amizades iniciadas durante a passagem pela África do Sul. Outros buscaram hoteis, nem todos custeados pelas empresas aéreas ou agências. Há aqueles que, por falta de opções, se acomodaram no aeroporto.

Já Diogo Santos de Araújo, um corretor de imóveis do Rio de Janeiro que viaja sozinho pelo mundo, teve uma experiência ainda pior. O turista foi alvo de assaltantes nas ruas de Joanesburgo. 

"Estava a caminho do hotel no centro da cidade quando fui abordado por três pessoas extremamente agressivas. Roubaram todos meus pertences e dinheiro. Por muito pouco não levaram o meu passaporte. Desde então, tenho enfrentado muitas coisas: dormi no aeroporto por quatro dias e e estou na casa de um africano que conheci na delegacia do aeroporto, enquanto pedia comida", relatou.

Assim como outros brasileiros ouvidos pela reportagem do R7, Diogo também se queixou da atuação do Itamaraty na busca de uma solução rápida para a situação. "A Embaixada não dá um suporte [adequado] ou uma mensagem de retorno contundente", finalizou o corretor de imóveis.

O que diz a Embaixada do Brasil

Representantes da Embaixada do Brasil enviaram um comunicado no qual ressaltam que, apesar de insistentes gestões e da sinalização positiva recebida, não receberam a autorização para a realização do voo entre Joanesburgo e o Aeroporto Internacional de São Paulo.

"Continuamos trabalhando para solucionar a situação de maneira rápida e segura por meio do fretamento de voo, com escala na Cidade do Cabo. A Embaixada reconhece o mal estar a que estão submetidos os brasileiros impossibilitados de voltar para casa e não tem medido esforços para solucionar a situação", complementou a nota.