Israel se prepara para possível retaliação iraniana

Há chance de novas ações do Hezbollah, grupo aliado do Irã e considerado terrorista por EUA e Israel, entre outros, segundo especialista

Reuters/03-01-20

O ataque aéreo que matou o general Qasem Soleimani, considerado o principal chefe militar iraniano, na noite de quinta-feira (2) no Aeroporto de Bagdá, Iraque, teve como objetivo, segundo comunicado do governo dos Estados Unidos, proteger diplomatas e militares americanos no Iraque e em toda a região.

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Mas a tão propalada retaliação iraniana tem grandes chances de ser direcionada, primeiramente, a Israel, principal aliado dos americanos no Oriente Médio.

Mesmo não tendo participado da ação, Israel apoiou o ataque, justificando este ter sido uma atitude de defesa. No entanto, em função das contínuas hostilidades com o Irã, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e todo o gabinete de segurança evitaram dar mais declarações, buscando não envolver Israel nesta situação.

Informações extraoficiais, no entanto, garantem que o governo israelense está se preparando para uma eventual reação do inimigo momentâneo. E o país seria o primeiro alvo de uma resposta iraniana, segundo o professor Danilo Porfírio de Castro Vieira, de Relações Internacionais e Direito do Uniceub (Centro Universitário de Brasília).

"Israel é o principal aliado dos EUA, é um país ocidental no Oriente Médio, não é reconhecido pelo Irã e é visto como principal inimigo iraniano. Qualquer retaliação feita pelo irã terá Israel como Estado primeiro e vítima de alguma ação, não há dúvida. Atacar Israel é atacar, de alguma maneira, os Estados Unidos", diz.

Segundo o The Jerusalem Post, o general Gholamali Abuhamzeh, comandante da Guarda na província de Kerman, no sul, sugeriu possíveis ataques a navios no Golfo. E incluiu Israel como alvo.

“O Estreito de Ormuz é um ponto vital para o Ocidente e um grande número de destróieres e navios de guerra americanos passa por lá... alvos americanos vitais na região foram identificados pelo Irã desde há muito tempo... uns 35 alvos dos EUA região e de Tel Aviv estão ao nosso alcance ", afirmou.

Castro Vieira afirma, no entanto, que a retaliação não virá em forma de confronto direto com Israel. O governo iraniano tem consciência de que, por mais numeroso que seja seu exército, com cerca de 350 mil membros e pelo menos 150 mil na Guarda Revolucionária, uma guerra direta seria catastrófica para o país, com o que o professor concorda.

"Não haverá confrontação direta, não seria nem interessante para o Irã. Mesmo quantitativamente grande, do ponto de vista qualitativo sua estrutura militar é defasada. Vive uma cris política e ecobnômica desde 2009. Exernamente estão cercado por forças americanas, no Iraque e Afeganistão. Atacar diretamente Israel e por consequência provocar os Estados Unidos é um ato suicida. O Irã não seria capaz de enfrentar uma situação como essa."

Desta maneira, o que Israel espera é mais do mesmo. Talvez com maior intensidade. Isso significa que a probabilidade maior é de, na fronteira com o Líbano, haver novas ações do Hezbollah, aliado do Irã e grupo considerado terrorista por Israel e Estados Unidos, entre outros, que integra o jogo político libanês.

Isso vem ocorrendo praticamente desde o fim da Guerra Civil libanesa (1975-1990), quando cristãos maronitas, drusos e muçulmanos (xiitas e sunitas) iniciaram confrontos pelo poder, após a instalação da Organização da Libertação Palestina no país.

Fortalecidos pela Revolução Islâmica no Irã, os radicais xiitas do Hezbollah passaram a atuar em forma de guerrilha. Soleimani, de 62 anos, foi acusado por israelenses e americanos de organizar ataques terroristas, na campanha contra a presença de Israel no Libano, de 1982 até 2000 e, posteriormente, contra a existência de Israel.

Houve, neste período, diversas incursões do exército israelense ao Sul do Líbano, sendo que a principal foi em 2006.

Com a guerra da Síria, o Irã também enviou militares das forças Quds (que atuam pelo Irã fora do país e eram lideradas por Soleimani) ao território sírio, realçando hostilidades com Israel a partir daquela região. A reação, portanto, deverá vir em forma de guerrilha, segundo Castro Vieira.

"O Irã tem duas opções: agirá por meio do Hezbollah no Líbano, com atentados terroristas ou ações pontuais, ou das forças iranianas infiltradas na Síria. Mas mesmo na Síria haverá dificuldades para o Irã, porque a situação de Bashar al-Assad (presidente sírio) ainda é complicada. Acredito, então, que as ações virão do Líbano, por meio do Hezbollah", completou.

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