Já são 32 os mortos em confrontos entre hindus e muçulmanos na Índia

Pior episódio de violência em anos é insuflado pela lei de cidadania, avaliada como 'grande preocupação' pela ONU por discriminar grupos minoritários

Pessoas cercam o corpo de um dos mortos nos confrontos entre hindus e muçulmanos

Pessoas cercam o corpo de um dos mortos nos confrontos entre hindus e muçulmanos

Adnan Abidi / Reuters - 27.2.2020

Pelo menos 32 pessoas morreram nos piores incidentes de violência em décadas na capital da Índia, Nova Délhi. A situação nesta quinta-feira (27) é aparentemente mais tranquila nas ruas devido à  forte presença das forças de segurança.

A violência começou na segunda-feira, com confrontos incitados pela nova lei de cidadania da Índia, que facilita que não muçulmanos de países vizinhos consigam residência e nacionalidade indianas. A publicação da lei no final de 2018 exacerbou a reação de grupos nacionalistas e de extrema-direita contra a minoria muçulmana no país.

Protestos contrários à lei foram duramente reprimidos esta semana, ao mesmo tempo que grupos de extrema-direita cometeram ataques diretos a locais de maioria islâmica. Pelo menos duas mesquitas foram vandalizadas. Em uma delas, homens com porretes e armas de fogo invadiram as orações e mataram um dos líderes religiosos.

Centenas de pessoas ficaram feridas nos choques. Muitas sofreram ferimentos a bala. Incêndios criminosos e saques em casas e lojas pertencentes a muçulmanos também foram registrados.

ONU preocupada com lei de cidadania indiana

A chefe de direitos humanos da ONU, Michelle Bachelet, disse que a nova lei adotada em dezembro é "uma grande preocupação" e que ela está preocupada com relatos de falta de ação policial em face de ataques contra muçulmanos por outros grupos.

"Apelo a todos os líderes políticos que evitem a violência", disse Bachelet em discurso ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra.

Críticos dizem que a lei é tendenciosa contra os muçulmanos e enfraquece a Constituição secular da Índia.

Nova Délhi tem sido o epicentro de protestos contra a nova lei, com estudantes e membros da comunidade muçulmana liderando os protestos.

Partido de Modi nega preconceito contra muçulmanos

Casas e lojas de muçulmanos foram vandalizadas

Casas e lojas de muçulmanos foram vandalizadas

Harish Tyagi / EPA - EFE - 26.2.2020

O partido nacionalista hindu Bharatiya Janata, do primeiro-ministro Narendra Modi, nega ter qualquer preconceito contra os 180 milhões de muçulmanos da Índia, dizendo que é necessária uma lei para ajudar as minorias perseguidas.

O premiê Modi, que conquistou a reeleição em maio passado, também retirou a autonomia da região de Jammu e Caxemira em agosto, com o objetivo de reforçar o domínio de Nova Délhi na área turbulenta, que também é reivindicada integralmente pelo Paquistão.

Durante meses, o governo impôs severas restrições sobre a Caxemira, incluindo o corte de linhas telefônicas e da internet, mantendo centenas de pessoas, incluindo líderes políticos tradicionais, sob custódia, por medo de que pudessem desencadear protestos em massa. Algumas restrições foram atenuadas desde então.

Bachelet disse que o governo indiano continua a impor restrições excessivas ao uso das mídias sociais na região, mesmo que alguns líderes políticos tenham sido libertados.