Lockdown pode ter custado vidas, diz britânico ganhador do Nobel

Bioquímico Michael Levitt diz que governo deveria ter apostado em outras medidas, como o uso de máscaras, para combater o avanço da covid-19

Bioquímico diz que lockdown é uma saída medieval

Bioquímico diz que lockdown é uma saída medieval

Pixabay

O bioquímico e biofísico britânico Michael Levitt afirmou ao jornal The Telegraph, no sábado (23), que o lockdown imposto no Reino Unido pode não ter salvado vidas e até ter custado mais do que outras medidas.

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Segundo o bioquímico, em vez de adotar o lockdown, o governo deveria ter incentivado os britânicos a usar máscaras e aderir a outras formas de distanciamento social.

"Acho que pode ter custado muitas vidas. Ele salvou algumas pessoas de acidentes de viação, coisas assim, mas os danos sociais, como abuso doméstico, divórcios, alcoolismo, foram extremos. E você ainda tem aqueles que não foram tratados por outras doenças", analisou.

Números exagerados

Segundo o jornal, Levitt, professor da Universidade de Stanford e vencedor do Nobel de Química em 2013, enviou mensagens ao professor Neil Ferguson em março dizendo ao consultor do governo britânico que o país havia superestimado o número potencial de mortes em "10 ou 12 vezes".

Tendo avaliado o surto inicial na China e a partir do navio de cruzeiro Diamond Princess infectado, ele previu em 14 de março que o Reino Unido perderia cerca de 50 mil vidas. A modelagem do professor Ferguson naquela mesma semana estimou até 500.000 mortes sem medidas de distanciamento social.

"Acho que o vírus real era o vírus do pânico", disse Levitt ao Telegraph. 

Levitt previu que a maioria dos países do mundo sofreria uma taxa de mortalidade por causa da covid-19 equivalente a um mês extra durante o ano civil.

"Há um grande número de pessoas assintomáticas, então eu imagino que quando o lockdown foi iniciado no Reino Unido, o vírus já estava amplamente disseminado. Poderíamos ter ficado abertos como a Suécia naquele estágio e nada teria acontecido."

Arma medieval

"Não há dúvida de que você pode parar uma epidemia com um lockdown, mas é uma arma muito contundente e medieval, e a epidemia poderia ter sido interrompida com a mesma eficácia com outras medidas sensatas (como máscaras e outras formas de distanciamento social)."

Levitt, que tem sido criticado por não ser um epidemiologista e ter baseado seus estudos nos dados divulgados pelos países, fez ainda uma crítica a esses profissionais. 

"O problema com os epidemiologistas é que eles acham que o trabalho deles é amedrontar as pessoas. Então você diz 'haverá um milhão de mortes' e quando existem apenas 25 mil você diz 'é bom que você tenha escutado meu conselho'", afirmou. "Isso aconteceu com o ebola e a gripe aviária. É apenas parte da loucura."

Ele diz que as evidências globais mostram que o vírus desaparece no calor seco e em grande parte do mundo ocidental "parece haver algum tipo de imunidade".

Levitt dividiu o prêmio Nobel de Química com outros pesquisadores pelo "desenvolvimento de modelos em múltiplas escalas para sistemas químicos complexos".