'Me afastei até dos amigos próximos': como coronavírus mudou relações sociais na China

Enquanto europeus assistem perplexos a rastro de destruição deixado pela pandemia do covid-19, segunda economia do mundo, que foi o primeiro epicentro da doença, vai retomando a vida normal

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'A última vez que saí para ir a um bar ou restaurante foi no dia 18 de janeiro', conta brasileiro que vive na China

'A última vez que saí para ir a um bar ou restaurante foi no dia 18 de janeiro', conta brasileiro que vive na China

Arquivo Pessoal

Enquanto europeus assistem perplexos ao rastro de destruição deixado pela pandemia do novo coronavírus — que impôs o confinamento a dezenas de milhões e matou milhares — os chineses respiram um pouco mais aliviados.

A segunda economia do mundo, que foi o primeiro epicentro da doença, vai retomando a vida. Mas, certamente, nada será como antes.

O coronavírus mudou a cultura do país mais populoso do mundo. O novo normal parece ter incorporado de uma vez por todas o distanciamento social, um conceito ao qual a China, com seus quase 1,4 bilhão de habitantes, não estava acostumada.

O pior já passou, na avaliação do empresário brasileiro Alessandro Nicolau, que vive há 12 anos na China. Já não há novos casos de contaminação interna no país há alguns dias.

O que acontece agora, contudo, segundo ele, é que as pessoas mudaram. Pensa-se duas vezes antes de sair de casa.

"Me afastei até de amigos próximos. É inevitável. Estou na dúvida se vou à festa de uma amiga amanhã. E olha que ela já avisou ter convidado apenas oito pessoas", lamenta. "A gente não pega na mão, nem abraça pessoas que conhecemos há muito tempo."

Reforma nos hábitos

Nicolau vive na cidade de Donghuan, de 8,6 milhões de habitantes. A 1 mil km de distância, mas apenas duas horas de trem-bala de Wuhan — a cidade de 11 milhões de habitantes onde a crise começou —, esteve relativamente próximo do foco.

As filas de mercados são delimitadas com fitas amarelas no chão

As filas de mercados são delimitadas com fitas amarelas no chão

Arquivo Pessoal

O empresário brasileiro é um dos milhões que continuaram trabalhando durante a quarentena forçada. Nicolau e a irmã são donos de uma fábrica de queijos frescos, como mussarela e queijos minas — inclusive, alguns premiados.

Como não tem loja física, tampouco precisou adaptar o sistema de entregas, que não parou nem nos piores momentos do coronavírus na China. É claro que os motoboys já não podiam passar dos controles das portarias. Além disso, precisavam carregar um atestado de saúde.

Mas se as finanças de alguns foram menos afetadas, a noção do contato humano mudou.

"A última vez que saí para ir a um bar ou restaurante foi no dia 18 de janeiro, dois dias antes de tudo fechar em Wuhan. E não sei quando eu e outras pessoas terão coragem de fazê-lo, ainda que digam que acabou", conta.

As filas de mercados são delimitadas com fitas amarelas no chão. Em elevadores por todo o país, há adesivos com o desenho de pés ou quadrados no piso, marcando o lugar onde se deve permanecer, para não ficar colado no outro.

Nicolau e a irmã conseguiram escapar do coronavírus. Durante o período de confinamento, ele ia de carro até a fazenda onde produzem os queijos. Não sem evitar os pontos de controle — em que teve de apresentar um QR Code para que as autoridades pudessem acessar, via operadora telefônica, seus trajetos nos 14 dias anteriores.

Queijo 'comemorativo'

Na fazenda, eles cortaram o número de empregados e reduziram ao máximo o contato com os que ficaram. Para ocupar o tempo, apostaram em novas receitas. Agora, produzem queijos "envelhecidos".

Esta semana, está lançando uma edição especial de 60 dias, o período da quarentena. Chegou a pensar em chamá-lo de "coronavírus", mas achou que seria ruim para os negócios.

A experiência da quarentena não foi fácil. A reclusão o obrigou a restringir o tempo que passava na internet. Disse que as redes sociais em excesso começaram a fazer mal à sua saúde mental.

Cortou até alguns grupos do telefone para evitar polêmicas e mais estresse. Através de aplicativos oficiais, ele podia se informar sobre a situação em sua região.

Em elevadores por todo o país, há adesivos com o desenho de pés ou quadrados no piso, marcando o lugar onde se deve permanecer, para não ficar colado no outro

Em elevadores por todo o país, há adesivos com o desenho de pés ou quadrados no piso, marcando o lugar onde se deve permanecer, para não ficar colado no outro

Arquivo Pessoal

"Eu acordava de manhã, e antes de ver previsão do tempo, ou e-mail, conferia o aplicativo para saber se havia alguém contaminado ao meu redor, no meu condomínio, ou pela cidade. Isso começou a me deixar muito tenso também. Você não saber se alguém próximo podia estar doente", afirma.

Ele elogiou a estratégia chinesa para conter o vírus, que varia de região para região, de cidade para cidade. A descentralização teria sido implementada para que as autoridades pudessem adaptar as novas regras aos tipos de vida em cada lugar.

Houve controle de temperaturas corporais até na entrada de prédios e condomínios. Se marcar acima de 37,3 graus, o cidadão é conduzido imediatamente a um hospital por funcionários com roupas especiais para o teste do coronavírus.

Mas além das regras impostas como firmeza pelo governo, a população também teve um papel fundamental no combate ao vírus.

Nos checkpoints, a abordagem das autoridades já não parece ter a rispidez de antes, conta Nicolau.

"Bom dia, desculpe pelo incômodo, mas a gente precisa medir a sua temperatura, eles dizem. Isso é reconfortante. Ajudou muito".