Eleições presidenciais nos EUA 2016
Internacional Medo gerado por Trump mobiliza pesquisadores e empresários para debaterem impactos da eleição americana 

Medo gerado por Trump mobiliza pesquisadores e empresários para debaterem impactos da eleição americana 

Apesar do republicano representar uma quebra, algumas políticas devem continuar iguais

Medo gerado por Trump mobiliza pesquisadores e empresários para debaterem impactos da eleição americana 

A eleição do republicano Donald Trump à presidência dos EUA pegou muita gente de surpresa e fez surgirem debates e discussões sobre quais fatores foram determinantes para a vitória de um candidato eleito com base em um discurso considerado por muitos como ultra-conservador, xenófobo e machista. Com o objetivo de refletir sobre o tema, universidades, entidades internacionais e centros de consultoria realizaram diversos eventos ao longo das últimas semanas — sendo pelo menos cinco na Grande São Paulo.

Na quarta-feira (16), o Bacharelado em Relações Internacionais da UFABC promoveu o evento "As Relações Internacionais na Era Trump” em São Bernardo do Campo. Também na quarta-feira, a consultoria Sidera Consult realizou uma discussão sobre a vitória do republicano nos EUA e seus impactos nos acordos comerciais em que o país está envolvido. Já o GECI (Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacional) realizou uma mesa de reflexões com mestrandos e doutorandos do programa San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP) nesta segunda-feira (21) na PUC-SP. Um quarto evento será realizado na sexta-feira (25) pelo INCT-INEU em parceria com o Opeu (Observatório Político dos Estados Unidos), que promoverão o seminário "Estados Unidos: Impactos de uma Eleição Singular", no auditório do Centro de Documentação e Memória da Unesp, em São Paulo.

Apesar de a vitória de Trump representar claramente uma quebra em relação ao governo anterior, especialistas e empresários relativizaram os impactos de sua eleição para o mundo, avaliando que diversos aspectos de sua política interna e externa tendem a ser semelhantes às administrações anteriores.

Doutora em Economia Política Internacional, a professora de Relações Internacionais da UFABC, Valéria Ribeiro, refletiu sobre um dos principais fatores que impulsionaram a candidatura de Donald Trump: a insatisfação da classe média com os rumos do país.

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De acordo com a especialista, as raízes do problema remontam aos anos 1970, quando, para manter sua hegemonia econômica, os EUA criaram “problemas estruturais” em sua economia, por meio de medidas como o fim da conversibilidade dólar-ouro, o aumento da taxa de juros e a política do dólar forte. Essas medidas, somadas ao fenômeno da globalização, fizeram com que as fábricas de manufatura migrassem do país para a Ásia.

Professores Valéria Ribeiro, Giorgio Romano, Marcos Roseira e Flávio Rocha participaram da mesa "As Relações Internacionais na Era Trump", realizada na UFABC

Professores Valéria Ribeiro, Giorgio Romano, Marcos Roseira e Flávio Rocha participaram da mesa "As Relações Internacionais na Era Trump", realizada na UFABC

Luis Felipe Segura/ R7

Esses fatores, somados ao crescente processo de financeirização da economia, fizeram com que a elite norte-americana ficasse cada vez mais rica, enquanto a classe média perdia espaço.

— As grandes corporações ganharam, as finanças ganharam, mas a classe média perdeu, porque os empregos foram embora.

Para combater esse problema, Trump prometeu taxar produtos chineses e trazer de volta os empregos para os EUA. No entanto, Valéria lembra que as relações comerciais dos EUA com a China são muito fortes — o país asiático é o maior financiador da dívida pública norte-americana —, e qualquer mudança brusca tende a causar impactos econômicos graves.

— Os EUA tem um déficit comercial grande com a China, eles importam muito mais do que exportam para lá. Além disso, as empresas americanas que estão na China não vão aceitar as políticas protecionistas do Trump.

Negócios

Com o objetivo de acalmar os ânimos de investidores e empresários apreensivos com a vitória de Trump e a adoção de um possível maior protecionismo do país, a Amcham (Câmara de Comércio Brasil-EUA) promoveu na quinta-feira (17) o Seminário Futuro da Relação Bilateral Brasil e Estados Unidos.

Na ocasião, a embaixadora dos EUA, Liliana Ayalde, afirmou que o interesse do país em fazer parcerias com o Brasil não vai mudar com a chegada do presidente eleito Donald Trump à Casa Branca.

Presidente emérito do think tank de análise política Inter-American Dialogue, Peter Hakim afirmou durante a mesa “A Visão dos Think Tanks” que Trump deverá focar na política interna durante seu mandato, deixando a política externa praticamente inalterada. Além disso, ele diminuiu a importância das declarações protecionistas que deixaram os mercados em apreensão após sua vitória.

— Eu não acho que ele pensou por um minuto sequer no que realmente faria como presidente. Aquilo foi tudo para a eleição.

Empresários ligados a multinacionais com presença nos EUA também amenizaram as possíveis mudanças do novo governo. Nesta segunda-feira (21), o presidente eleito confirmou que vai tirar os EUA do TPP (Parceria Trans-Pacífico) em seu primeiro dia de governo.

Diretor de relações com Investidores do grupo JBS, Jerry O’Callaghan afirmou que o acordo era positivo para o comércio internacional. No entanto, o tratado não contemplava a China, que se tornou um grande player no mercado mundial.

Seminário Futuro da Relação Bilateral Brasil e Estados Unidos reuniu empresários e jornalistas na Amcham

Seminário Futuro da Relação Bilateral Brasil e Estados Unidos reuniu empresários e jornalistas na Amcham

Mário Miranda/Amcham

Vice-presidente Executivo Global do grupo Stefanini, Ailtom Barberino Nascimento acredita que a não aprovação do acordo pode favorecer a exportação de empresas brasileiras.

— Talvez não para os Estados Unidos, mas sim para outros países.

Mudança?

Pesquisador do GECI e especialista em comércio norte-americano de armas, João Finazzi afirma que, apesar de a imagem construída do presidente eleito é a de um “doido que vai sair bombardeando todo mundo”, a administração Obama foi a que mais comprou armas desde a 2ª Guerra Mundial, e interfere atualmente em pelo menos 7 conflitos internacionais.

Já o professor de Relações Internacionais da UFABC, Flávio Rocha de Oliveira, afirma que a política de defesa propagandeada por Trump gira em torno de dois principais temas: a aliança militar Otan (Organização para o Tratado do Atlântico Norte) e a relação dos EUA com a Rússia.

De acordo com o especialista, o presidente eleito tem uma posição semelhante à adotada no início do governo Obama em 2008 em relação à Otan: a necessidade de haver uma redistribuição dos custos econômicos da aliança entre os países que a compõe.

Atualmente, os EUA são os maiores investidores da aliança, enquanto países ricos como a Alemanha destinam menos do que deveriam em gastos militares.

Em relação à Rússia, a expectativa do professor é que haja uma acomodação na relação entre os dois países — no entanto, ele ressalta que isso não necessariamente significará uma aproximação diplomática, já que os interesses de ambos os países são diferentes.

A opinião é compartilhada também pelo pesquisador do programa San Tiago Dantas, Denis Matozko. Ele lembra que algumas propostas do Trump se chocam diretamente com os interesses estratégicos russos, como as declarações do presidente eleito a favor da proliferação nuclear no Japão e na Coreia e seu apoio ao escudo antimísseis da Otan nos países de fronteira com a Rússia.

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— Também não há um consenso de que o reatamento das relações com a Rússia seja algo bom – muito pelo contrário. Inclusive alguns republicanos já se declararam contra, como o senador John McCain (candidato derrotado à presidência em 2008).

Matozko lembra ainda que Trump terá que tomar duas decisões importantes em relação à política externa logo no começo do seu mandato: a renovação das sanções contra a Rússia por conta da invasão da Criméia, que expiram em março de 2017, e uma maior cooperação com a Rússia no combate ao Estado Islâmico na Síria.

Guerra ao Terror

Mestrando do programa de Pós-graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP), Willian Moraes lembra que Trump adotou um discurso agressivo ao longo da campanha contra colocar os EUA em “guerras desnecessárias”.

Nesse contexto, uma das posições que diferenciam a política externa de Trump em relação à de Obama diz respeito à Síria, onde o presidente eleito coloca como prioridade o combate ao Estado Islâmico — o que pode representar um alívio para o ditador Bashar Al Assad.

Trump também se declarou contrário ao apoio dos EUA a grupos armados na guerra da Síria. Atualmente, o governo Obama financia e fornece armas para grupos considerados moderados, entre eles os curdos sírios, que conquistaram um largo território no norte do país.

Moraes lembra que o presidente da Turquia, Recep Erdogan, considera o grupo turco-curdo PKK como terrorista, assim como o Estado Islâmico. Com isso, a eleição de Trump e a adoção da possível política de não-intervenção pode beneficiar os interesses turcos, que vêm investindo seus esforços para impedir que os curdos do sul da Turquia e do norte da Sìria se unifiquem e conquistem autonomia.

— A questão mais importante para a Turquia é a questão curda.

* Por Luis Felipe Segura