MS-13: a gangue que virou uma ‘franquia do crime’ nas Américas

Apontada como uma das maiores gangues do mundo, MS-13 desafia o senso comum por funcionar de forma diferente de outras organizações criminosas

Ilustração: Matheus Vigliar/R7

Apontada como uma das maiores e mais violentas gangues do mundo, o MS-13 desafia o senso comum. Não existe um bom paralelo no cenário brasileiro, porque ela opera em pequenas células locais, como se fossem franquias. Não é um cartel de drogas, uma máfia ou uma facção que atue dentro de presídios.

Os métodos do MS-13 são violentos e eles têm diversos tipos de atividades criminosas em seu “portfólio”. No entanto, é uma gangue sem comando central, sem hierarquia interna e sem a organização necessária para conseguir dominar atividades lucrativas como o tráfico internacional de drogas ou de armas.

Muitas vezes, são contratados por outros grupos criminosos, para atividades braçais como atacar rivais, proteger territórios ou transportar pessoas.

Ainda assim, a franquia é um imenso sucesso.

Segundo estimativas das forças de segurança dos Estados Unidos, existem entre 40 mil e 50 mil membros da gangue espalhados por pelo menos quatro países das Américas Central e do Norte. Só nos Estados Unidos, acredita-se que existam mais de 60 células independentes.

A grande estrela da franquia MS-13 é El Salvador, com 250 células da gangue

O MS-13 também está em Honduras, na Guatemala, no México e começa a chegar na Itália e na Espanha, em números ainda modestos.

Mas a grande estrela da franquia MS-13 é El Salvador. Estima-se que 250 células da gangue funcionem no pequeno país centro-americano.

Cerco aos imigrantes

O MS-13 vem sendo usado como justificativa por políticos conservadores, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para implementar leis mais rígidas deb imigração. O que acontece, segundo a advogada Clara Long, especialista em políticas de imigração e fronteiras da Human Rights Watch, é que medidas como a deportação em massa, na realidade, ajudaram a organização a crescer.

— Durante décadas, a deportação foi o principal método que o governo dos Estados Unidos usou para combater o MS-13. Nunca funcionou. Membros de gangue deportados para El Salvador simplesmente se reagrupam e voltam para os EUA, voltam para as “clicas” (como são chamadas as células em espanhol). Tudo que o governo consegue com isso é recrutar novos membros para a gangue.

"Tudo que o governo consegue com deportações é recrutar novos membros para a gangue"
Clara Long, Human Rights Watch

Para a pesquisadora, apertar o cerco contra os imigrantes também é contraproducente porque tira o foco de esforços que realmente diminuem o apelo das gangues, que encontram seus recrutas entre jovens imigrantes que buscam redes de proteção em suas comunidades.

— Há esforços que podem parar o crescimento da gangue: lidar com a exclusão social que leva os jovens às gangues e proteger as vítimas com investigações profundas sobre os crimes.

Gangue nasceu entre imigrantes salvadorenhos para se defender de outros grupos

Gangue nasceu entre imigrantes salvadorenhos para se defender de outros grupos

Reprodução/Instagram

Primeiros passos

O MS-13 nasceu na década de 1980 em Los Angeles, na Califórnia. Foi quando grupos de imigrantes de El Salvador, fugindo da guerra civil que assolava o país e buscando se proteger e conseguir algum dinheiro no novo país, se juntaram em grupos para andar juntos e enfrentar outras gangues de imigrantes que surgiam na região.

O “nome completo” da gangue é “Mara Salvatrucha” — “mara” é uma referência a enxames, “salva” lembra a origem salvadorenha dos membros e “trucha” vem de truta, mas na gíria em espanhol significa estar alerta, vigilante. O “13” foi adotado porque o “M” é a 13ª letra do alfabeto.

O “nome completo” da gangue é “Mara Salvatrucha”

Com o fluxo cada vez maior de imigrantes que deixavam El Salvador por causa da guerra, os números da gangue foram aumentando. Conforme os membros foram sendo presos, a necessidade de se proteger de outras gangues dentro do sistema penal os levou a se aliar à Máfia Mexicana. A “eMe”, como é conhecida, é uma organização de poucos membros, mas pela influência em presídios passou a controlar gangues menos organizadas como o MS-13 e seus principais rivais na Califórnia, a Barrio 18.

De acordo com um artigo publicado este mês pela Insight Crime, organização jornalística que estuda organizações criminosas na América Central e no Caribe, a Máfia Mexicana hoje controla a maior parte das clicas da Costa Oeste dos EUA, mas não interfere nas atividades diárias.

Como uma franquia que parece funcionar num sistema de pirâmide, cada uma das células tem independência para agir e os membros frequentemente são mais leais às lideranças locais.

Deportação e recrutamento

Com o endurecimento das políticas de imigração entre 2001 e 2010, centenas de milhares de acusados de pertencer a gangues foram deportados para a América Central. El Salvador recebeu 40 mil criminosos, 44 mil foram mandados para Honduras e outros 37 mil para Honduras. Com tantos novos membros, as clicas nesses países tomaram conta das atividades criminosas.

Em El Salvador, a situação chegou ao ponto de o governo se vir obrigado a negociar um “cessar-fogo” com o MS-13, que só fez o poder da gangue crescer. Com quase 250 clicas em atividade, as lideranças de El Salvador formaram um conselho que tenta unificar o controle mundial da gangue.

Atualmente, eles estão tentando encontrar formas de centralizar a liderança sobre as clicas da Costa Leste dos Estados Unidos, mas os esforços ainda esbarram em resistência dos diferentes grupos que formam a franquia.

Ilustração: Matheus Vigliar/R7