Internacional Não houve referendo na Catalunha hoje, diz premiê espanhol

Não houve referendo na Catalunha hoje, diz premiê espanhol

Mariano Rajoy afirma que consulta sobre independência é ilegal 

Manifestantes pela independência da Catalunha protestam contra ação da polícia no dia do referendo

Manifestantes pela independência da Catalunha protestam contra ação da polícia no dia do referendo

REUTERS/Juan Medina

A região espanhola da Catalunha não conseguiu realizar um referendo de independência neste domingo (1º), disse o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, depois de mais de 840 pessoas terem feridas em confrontos entre policiais e eleitores durante a votação. O governo de Madri considera ilegal a consulta popular sobre a separação da Catalunha.

O povo da Catalunha foi enganado para participar da votação proibida, disse Rajoy, acrescentando que o referendo é uma estratégia do governo regional contra a legalidade e a harmonia democrática e um "caminho que não leva a lugar nenhum".

Em declarações à imprensa após a votação independentista realizada na região da Catalunha, Rajoy disse que todos os espanhóis constataram que o Estado de Direito se mantém “forte e vigente”.

O chefe de governo afirmou que o processo de demandas políticas não passa pela "quebra da legalidade" e responsabilizou o governo autonômo catalão, promotor da iniciativa, de ter agido contra a convivência democrática.

O referendo foi convocado no início de setembro pelo Executivo catalão e suspenso pelo Tribunal Constitucional. O governo local manteve a iniciativa de consultar a população sobre se ela quer ou não que a Catalunha se torne uma república independente.

Na última sexta-feira (29), as Nações Unidas divulgaram nota afirmando que a Espanha deveria garantir o respeito pelos direitos fundamentais na sua resposta ao referendo catalão e pedindo que as autoridades não violassem direitos como a liberdade de expressão, reunião e associação e participação pública.

Rajoy agradeceu as forças de segurança por defender a lei e fazer seu trabalho.

Ele também convocou uma reunião com todos os partidos políticos espanhóis para discutir o futuro do país após o referendo.

A polícia de choque espanhola entrou em estações de votação em toda a Catalunha no domingo, confiscando cédulas e documentos de votação para tentar suspender um referendo proibido sobre a divisão da Espanha, com Madri afirmando sua autoridade sobre a região rebelde.

Reuters/Sergio Perez/

A polícia arrebentou portas para forçar a entrada nos locais de votação, enquanto catalães gritavam "Fora forças de ocupação" e cantavam o hino da rica região do Nordeste. Em um incidente em Barcelona, ​​a polícia disparou balas de borracha.

Policiais atingiram pessoas com cacetetes e removeram a força pessoas das estações de votação, incluindo mulheres e idosos.

O referendo, declarado ilegal pelo governo central da Espanha, lançou o país em sua pior crise constitucional em décadas e aprofundou um racha centenário entre Madri e Barcelona.

Apesar da ação policial, filas com centenas de pessoas foram formadas em cidades e vilas em toda a região para votar. Em um local de votação em Barcelona, ​​pessoas idosas e crianças tiveram preferência na entrada.

"Estou tão satisfeito porque, apesar de todos os obstáculos que colocaram, consegui votar", disse Teresa, uma aposentada de 72 anos em Barcelona, ​​que ficou em fila por seis horas.

A votação não terá status legal, já que foi bloqueada pelo Tribunal Constitucional da Espanha e por Madri por estar em desacordo com a Constituição de 1978.

Uma minoria de cerca de 40 por cento dos catalães apoia a independência, mostram as pesquisas, embora a maioria queira um referendo sobre o assunto. A região de 7,5 milhões de pessoas tem uma economia maior que a de Portugal.

No entanto, se a votação acontecer, um “sim” é altamente provável, considerando que a maioria daqueles que apoiam a independência deve votar, enquanto a maioria daqueles que são contra não irão.

Grandes multidões

Organizadores pediram que os eleitores comparecessem antes do dia amanhecer, na esperança de que a primeira imagem da votação fosse de grandes filas.

“Isto é uma grande oportunidade. Eu esperei 80 anos por isso”, disse Ramon Jordana, de 92 anos, ex-motorista de táxi que estava aguardando para votar em Sant Pere de Torello, uma cidade aos pés do Pirineus e um bastião pró-independência.

O governo catalão disse que os eleitores podem imprimir as cédulas em casa e apresentá-las em qualquer zona eleitoral que não tenha sido fechada pela polícia.

Separatistas fazem ato pelo referendo: forças policiais do governo central invadiram salas de votação

Separatistas fazem ato pelo referendo: forças policiais do governo central invadiram salas de votação

REUTERS/Yves Herman

Em outros lugares, as pessoas não conseguiram acessar as urnas. Em uma cidade na província de Girona onde o líder catalão Carles Puigdemont deveria votar, a Guarda Civil destruiu painéis de vidro para abrir a porta e fazer uma busca por urnas.

Puigdemont votou em uma cidade diferente da província. Ele acusou a Espanha de violência injustificada para impedir o voto e disse que isso criou uma imagem ruim da Espanha.

“A violência injustificada, desproporcional e irresponsável do Estado espanhol hoje não apenas falhou em parar o desejo dos catalães de votar... mas ajudou a esclarecer todas as dúvidas que tínhamos que resolver hoje”, ele disse.

O governo disse que 12 policiais se feriram nos confrontos.

Nicola Sturgeon, líder pró-independência da Escócia, que votou para permanecer parte do Reino Unido em um referendo em 2014, disse que ela estava preocupada com as imagens que estava vendo na Catalunha.

“Indiferentemente das visões sobre a independência, nós devemos condenar as cenas que estão sendo vistas e pedir que a Espanha mude de direção antes que alguém seja seriamente ferido”, disse ela no Twitter.

O primeiro-ministro belga, Charles Michel, tuítou: “A violência nunca pode ser a resposta! Nós condenamos todas as formas de violência e reafirmamos nosso pedido para um diálogo político”.

Zonas eleitorais invadidas

Cerca de 70 zonas eleitorais foram invadidas pela polícia, disse o ministro do Interior da Espanha, Ignacio Zoido.

O objetivo das invasões foi apreender materiais do referendo e não visava pessoas que queriam votar, disse outra autoridade sênior do governo.

A vice-primeira-ministra da Espanha, Soraya Saenz de Santamaría, disse que a polícia agiu de maneira proporcional.

“Nós fomos forçados a fazer algo que não queríamos”, disse Enric Millo, representante do governo central na Catalunha, em uma coletiva de imprensa.

Um analista disse que as cenas vistas na Catalunha no domingo tornam mais difícil para Madri e Barcelona encontraram uma saída.

“Eu acho que isso vai deixar os confrontos mais intensos e ficará mais difícil encontrar uma solução”, disse Antonio Barroso, da Teneo Intelligence.

Puigdemont originalmente disse que se o “sim” ganhasse, o governo catalão declararia independência dentro de 48 horas, mas os líderes regionais desde então reconheceram que a repressão estava minando a votação.

Os mercados reagiram cautelosamente mas calmamente à situação até agora, embora a agência de classificação de risco S&P disse nesta sexta-feira que as tensões prolongadas na Catalunha podem atingir as perspectivas econômicas da Espanha. A região responde por um quinto da economia espanhola.