Internacional Nastya Rybka: a modelo no centro da polêmica que liga Donald Trump à Rússia

Nastya Rybka: a modelo no centro da polêmica que liga Donald Trump à Rússia

Modelo afirmou ter provas da interferência russa na campanha eleitoral dos EUA em favor de Donald Trump. Acabou presa duas vezes depois por supostos crimes relacionados A prostituição e afirma que o suposto material com revelações foi todo deletado

Modelo afirmou ter provas da interferência russa na campanha eleitoral dos EUA em favor de Donald Trump. Acabou presa duas vezes depois por supostos crimes relacionados A prostituição e afirma que o suposto material com revelações foi todo deletado.

Rybka e seu "guru da sedução sexual" Alexander Kirillov foram deportados da Tailândia este mês. Ela acabou presa de novo, na Rússia

Rybka e seu "guru da sedução sexual" Alexander Kirillov foram deportados da Tailândia este mês. Ela acabou presa de novo, na Rússia

BBC NEWS BRASIL/ AFP

Nastya Rybka passou alguns dias, em 2016, "só se divertindo" com um bilionário russo no iate dele. Ela se gabou depois, publicamente, do "golpe" que havia dado.

O bilionário era Oleg Deripaska, um poderoso amigo do presidente russo Vladimir Putin. E ela afirmou ter provas de que houve interferência russa nas eleições presidenciais americanas naquele ano para que Donald Trump saísse vitorioso.

Essa suposta interferência já havia sido apontada pelas duas principais agências de segurança dos Estados Unidos - o FBI e a CIA. Os objetivos da Rússia com isso seriam "minar a fé do povo americano" no processo democrático dos EUA e atingir a imagem da adversária democrata de Trump, Hillary Clinton, prejudicando sua candidatura e possível mandato.

O relatório divulgado pelas agências à época não traz provas concretas sobre o papel de Putin na campanha contra Clinton. Afirma, no entanto, que as ações da Rússia incluíram hackear emails de contas do Comitê Nacional Democrata e de membros da alta cúpula do partido; usar intermediários como os sites WikiLeaks, DCLeaks.com e Guccifer 2.0 para publicar informações adquiridas no hackeamento; usar propaganda financiada pelo Estado além de pagar usuários de mídia sociais ou "trolls" para fazer comentários desagradáveis sobre a então candidata.

Quem é Nastya Rybka e o que ela tem a ver com essa história

Mais conhecida como Nastya Rybka, a modelo bielorrussa Anastasia Vashukevich tem 27 anos estava, em 2016, trabalhando como "acompanhante de luxo" no iate de Deripaska e disse ter obtido provas da interferência russa nas eleições americanas.

Ela teria feito gravações a bordo do iate, mas, em entrevista à BBC News Rússia publicada em vídeo nesta semana, afirmou que "todo o material foi deletado". O conteúdo não chegou a ser divulgado.

Em fevereiro de 2018, ela acabou presa na Tailândia quando organizava um seminário de "treinamento sexual" - ela acredita que a prisão poderia estar ligada à questão EUA-Rússia. Ela também diz que teria sido uma vítima involuntária, usada por terceiros.

Rybka disse que estava apaixonada por Deripaska.

"Eu me apaixonei. Ele é um homem muito bonito e tem olhos lindos. Por que não?", disse sobre ele, na entrevista. Tudo o que ela queria, diz, "era estar no iate dele" - o que conseguiu em 2016.

O assunto só tem causado problemas ao bilionário.

A modelo bielorrussa foi levada ao tribunal em Moscou este mês acusada de envolvimento em prostituição, mas foi logo libertada

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BBC NEWS BRASIL/ EPA

Ele, um magnata do setor de alumínio, e outros magnatas e políticos russos sofreram sanções americanas no ano passado por suposta "atividade nociva" em operações internacionais.

Em meio a toda essa história, também veio à tona que Deripaska havia mantido contatos comerciais com Paul Manafort, o ex-coordenador da campanha eleitoral de Trump.

"Ele (Oleg Deripaska) tem muitos problemas", diz Rybka. "Eu acho que eu criei esses problemas, que eu sou o começo disso."

O bilionário negou as afirmações da modelo e processou, com sucesso, por invasão de privacidade tanto ela quanto o chamado "guru do sexo" dela, Alex Lesley, também conhecido como Alexander Kirillov.

Como a modelo acabou presa na Tailândia

Rybka ganhou notoriedade há um ano, quando um livro que escreveu e postagens que fez no Instagram, com fotografias e descrições de pessoas que conheceu no iate em 2016, acabaram sendo base de uma investigação publicada pelo líder da oposição russa, Alexei Navalny.

De acordo com informações publicadas no jornal britânico The Guardian, essa investigação insinuava ligações corruptas entre Deripaska e um alto funcionário do Kremlin, o vice-primeiro-ministro Sergei Prikhodko.

O relatório incluía um vídeo do iate de Deripaska em 2016, quando a modelo estava a bordo. Nas imagens, Prikhodko na embarcação.

Deripaska não contestou que a reunião no iate com Prikhodko ocorreu, e, segundo o Guardian, afirmou que a investigação de Navalny fazia parte de uma campanha planejada para prejudicar sua reputação.

Prikhodko teria dito que os assuntos tratados a bordo do iate foram principalmente questões de política externa e, depois que a história veio a público, foi vago sobre se tinha ou não sido hospedado por Deripaska, como foi divulgado.

Logo depois que Navalny postou um vídeo na internet com os supostos indícios que havia encontrado na investigação, Deripaska o processou por motivos de privacidade e o vídeo foi bloqueado pela agência do governo russo responsável por regular a mídia.

Os veículos de comunicação do país que divulgaram o material tiveram que retirar essas publicações do ar.

Enquanto isso, Rybka e Kirillov foram para a Tailândia organizar um seminário de "treinamento sexual".

Em 25 de fevereiro de 2018, eles foram presos por supostamente trabalhar sem permissão no país e porteriormente acusados de oferta de serviços sexuais.

Por que Rybka recorreu ao FBI

Logo após sua prisão, Rybka achou que os Estados Unidos poderiam ajudá-la.

Apelando à mídia americana por meio de um vídeo no Instagram, em uma van da polícia, ela disse que tinha informações importantes, além de "partes que faltavam no quebra-cabeça" sobre ligações entre Paul Manafort e a campanha de Trump.

Agora, ela afirma que foram os americanos que promoveram sua prisão.

"Talvez os americanos estivessem com medo de eu ter algo contra o novo presidente", diz ela. "Isso não é jogo nosso. É maior do que nós."

Ela evita dar detalhes sobre o tipo de informação que estava prometendo e ressalta que não entregou nada aos investigadores do FBI, por quem foi interrogada na prisão da Tailândia.

"O FBI perguntou se eu tenho algum material sobre a vida de Trump, Manafort e Deripaska. Um monte de gente veio e perguntou a mesma coisa. Depois disso eu decidi que o que eu tenho é perigoso para mim. Eu enviei para Oleg Deripaska", disse ela.

Não se sabe se Rybka tinha realmente algum material e do que se tratava. Também não há confirmação de que Deripaska recebeu alguma coisa.

Em 17 de janeiro, ela e Leslie tiveram suas penas suspensas e foram deportados da Tailândia.

'Eu tenho que viver aqui'

Chegando na Rússia, porém, eles foram presos novamente, em janeiro deste ano, sob a acusação de aliciar pessoas para prostituição. O advogado de Rybka postou um vídeo no Instagram mostrando o momento de sua prisão.

A modelo já havia demonstrado arrependimento sobre as alegações que fez e implorado o perdão de Oleg Deripaska.

Dois dias depois da prisão, ela e Leslie foram soltos - em 22 de janeiro - embora o caso ainda não tenha sido encerrado.

Rybka diz que não tem nenhum material relacionado a esse assunto. E que também nem tem mais celular ou computador.

Ela insiste que não fez nenhum acordo em troca de sua libertação. Mas não nega que, assim que voltou à Rússia, foi instruída, de forma muito clara, sobre como deveria se comportar.

"Fui orientada sobre como eu posso falar a respeito disso. E eu tenho que viver aqui. A versão oficial é que eu não tenho nenhum registro e quaisquer que fossem esses registros, eles já eram."

Agora ela e seu "guru" parecem culpar Alexei Navalny por todos os problemas que tiveram. E essa visão bate com a versão oficial de Oleg Deripaska e da Rússia sobre a história: de que uma simples viagem de lazer foi indevidamente ampliada e transformada em um conto de corrupção e conspiração internacional.

Então, o que Nastya Rybka quis dizer há um ano quando afirmou que Oleg Deripaska estava envolvido na interferência do governo russo nas eleições presidenciais dos EUA?

"Eu não posso responder a essa pergunta", diz ela.