No Iêmen, acordo entre governo e separatistas não é fim da guerra

Tratado assinado nesta semana pretende dividir poder na região sul. Especialista aponta, porém, que luta com movimento houthi deve continuar

Iêmen vive guerra desde 2015

Iêmen vive guerra desde 2015

REUTERS/Fawaz Salman/30.08.2019

O acordo firmado na última semana entre o governo do Iêmen reconhecido internacionalmente e os separatistas do sul pouco deve mudar o conflito, dentro do país, com o movimento rebelde dos houthis — alinhado com o Irã.

“Não é o fim da guerra”, ressalta Gunther Rudzit, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios do Oriente Médio da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).

O tratado, assinado nesta terça-feira (5) na Arábia Saudita, se deu entre a administração do presidente Abdo Rabu Mansour Hadi e o grupo chamado de Conselho de Transição do Sul, apoiado pelos Emirados Árabes. O objetivo é dividir o poder na região sul do Iêmen — onde fica a importante cidade de Áden.

“Essa imagem que boa parte da mídia divulga, de que a guerra do Iêmen se resume a um conflito do governo reconhecido internacionalmente — com o apoio da Arábia Saudita — contra os houthis, não é bem verdade”, explica o professor.

“Existe também uma disputa interna entre esses separatistas do Conselho de Transição do Sul — que têm o suporte dos Emirados Árabes — contra o governo com reconhecimento internacional, do presidente Abdo Rabu Mansour Hadi. Acontece que, fora do Iêmen, os Emirados Árabes são parceiros dos sauditas, que apoiam Hadi. O acordo é uma tentativa de parar com essa batalha entre aliados”, completa.

Revoltas em agosto

Em agosto, os separatistas tomaram temporariamente o controle de Áden, que hoje funciona como sede provisória do governo do presidente Hadi. O ato foi denunciado pelo mandatário como "um golpe de Estado contra as instituições estatais legítimas".

Em meio aos conflitos e manifestações ocorridos, pelo menos 40 soldados do Exército iemenita morreram por bombardeios atribuídos aos Emirados Árabes.

Divisão de poder

Cidade de Áden é sede provisória do governo

Cidade de Áden é sede provisória do governo

REUTERS/Fawaz Salman/08.11.2019

Pelo novo pacto, o poder será repartido na região, com a formação de uma nova administração com todos os órgãos militares integrados sob o controle dos ministérios de Interior e Defesa. Analistas internacionais, entretanto, veem o tratado com ceticismo, conforme detalha Rudzit.

“Ali naquele território, é muito comum que acordos sejam assinados, mas sem implementação de fato. Isso é bastante recorrente inclusive no Oriente Médio como um todo. Além disso, a medida vai exigir um compromisso das partes a conviver dividindo governo. Não se sabe como isso vai se dar. Existe uma desconfiança se os governos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes realmente estão do mesmo lado”, acrescenta o professor.

Iêmen vive pior crise humanitária do mundo por causa da guerra

Iêmen vive pior crise humanitária do mundo por causa da guerra

Mohamed al-Sayaghi/Reuters/13-12-18

Alívio para civis no sul

Em todo caso, Gunther Rudzit assinala que os civis que vivem atualmente no sul do Iêmen devem se beneficiar caso o acordo seja, de fato, levado adiante. “Ali, a guerra pararia. Não é, entretanto, o que deve ocorrer no norte do Iêmen — onde os houthis têm maior presença e provavelmente vão continuar lutando

A guerra no Iêmen, vale lembrar, se arrasta desde 2015. Com portos fechados e sem acesso a alimentos, os iemenitas vivem a pior crise humanitária da atualidade, com 16 milhões de pessoas assoladas pela fome.

ONGs ainda apontam que cerca de 85 mil crianças morreram por desnutrição nos últimos três anos de confrontos.