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Internacional Nova York vê aumento drástico de tiroteios durante pandemia

Nova York vê aumento drástico de tiroteios durante pandemia

Em junho deste ano, 39 pessoas morreram em 205 tiroteios, o que representa um aumento de 130% em relação a junho do ano passado

Bronx, um dos distritos mais afetados pelo aumento dos tiroteios em Nova York

Bronx, um dos distritos mais afetados pelo aumento dos tiroteios em Nova York

Justin Lane /EFE/EPA - 24.06.2020

Nova York registrou, em junho, um drástico aumento de tiroteios, o que gerou alerta no grande estado norte-americano. No mês passado, 39 pessoas morreram em 205 tiroteios ocorridos, o que representa um aumento de 130% em relação ao mesmo mês do ano passado.

É o segundo mês consecutivo que o número de incidentes como este bate os registros do ano anteiror. Autoridades fazem relação com a crise causada pela pandemia da covid-19 e a frustração causada pela violência policial. 

Ja a polícia diz que o aumento está vinculado às novas leis que impedem algumas práticas de detenção — consideradas violentas ou arbitrárias. Outras fontes avaliam que uma suposta desaceleração deliberada nas ações policiais, como resposta às pressões dos protestos contra os abusos da corporação, teria colaborado com o pico de violência.

Um dos últimos tiroteios na cidade de Nova York foi filmado e se tornou viral. Alguns segundos de imagens mostram a crueldade que as estatísticas não refletem: como um homem que anda segurando sua filha pela mão, no Bronx, é morto por um tiro disparado de um veículo.

Na segunda-feira (6), "vimos nos vídeos um homem que estava andando com sua filha de seis anos quando o mataram na frente dela", disse à Efe Rubén Díaz, presidente do condado de Bronx, um dos distritos mais afetados pelo aumento dos tiroteios , próximo ao Brooklyn e ao bairro Harlem (no norte de Manhattan).

Crise da pobreza e do coronavírus

"Estamos em uma epidemia de coronavírus na qual os tribunais estão fechados; tivemos que libertar muitos dos que foram encarcerados na prisão de Rikers Island e em outros lugares devido a doença; vimos muitas imagens da brutalidade por redes sociais e de vídeo nos EUA. Toda essa frustração, desemprego e as pessoas que agora saem às ruas também são os ingredientes do que está acontecendo", enfatiza Rubén Díaz.

Mas Díaz, que participou do aniversário de um jovem que foi baleado no pescoço há duas semanas em um churrasco, insiste em lembrar que essa violência é alimentada pela pobreza em comunidades "onde não há oportunidade, onde não há trabalho, onde não há recursos para a saúde, para a educação".

Prefeito de NY relaciona surto de violência com  coronavírus

Prefeito de NY relaciona surto de violência com coronavírus

Ed Reed / Divulgação via EFE - 28.5.2020

Por esse motivo, ele está convencido de que o investimento nessas áreas pode acabar com esse fenômeno: "Sabemos que um jovem que cresce em um ambiente em que recebe oportunidade, educação, onde seus pais podem trabalhar... ele se torna um adulto que não quer se envolver na vida do crime."

O prefeito de Nova York, Bill De Blasio, por sua vez, considera que a situação atual decorre, "acima de tudo", da crise do coronavírus.

"O fato de tantas pessoas não terem nada para fazer, que perderam o emprego, que não têm escola para frequentar, que há uma grande frustração, dor e trauma, que o sistema judicial não está funcionando… estes são fatores realmente importantes aqui", explicou na terça-feira (7) em uma entrevista coletiva.

A versão da polícia

Além desses fatores, o Departamento de Polícia criticou fortemente várias leis que vetam certas ações policiais consideradas desproporcionais e perigosas e que foram aprovadas em resposta ao movimento anti-racista Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que ocorreu com ímpeto nos Estados Unidos no final de maio, em reação ao assassinato de um home negro, George Floyd, por um policial branco.

Em Nova York, a imobilização de suspeitos usando chave de estrangulamento ou a prática conhecida como "parar e revistar", por vezes aplicada de forma arbitrária, foi proibida.

O chefe do Departamento de Polícia de Nova York, Terence Monahan, chamou essas reformas legais, incluindo o corte de US $ 1 bilhão (mais de R$ 5 bilhões) nos orçamentos policiais, de "insanidade", acrescentando que há "tremenda animosidade" contra a polícia e que "praticamente" todo mundo com quem os policiais lidam durante uma prisão "tenta lutar" contra eles.

NY proíbe polícia de usar chave de estrangulamento

NY proíbe polícia de usar chave de estrangulamento

Alba Vigaray /EFE/EPA - 01/06/2020

Segundo Monahan, os policiais "têm medo" de terminar no tribunal se usarem uma chave de imobilização durante uma prisão, 'enquanto estão lutando por suas vidas".

No entanto, essas preocupações policiais não são compartilhadas nem por De Blasio, que chamou a prática de prisão e punição de sistema "racista" e "fracasso", nem pelo presidente do Condado de Bronx, que defende a expulsão do "mal policial" do departamento e a continuidade de treinamento para que a polícia atue de maneira "respeitosa".

"Queremos remover o crime de nossas ruas, manter nossas comunidades mais seguras, mas podemos fazê-lo de uma maneira que não tenhamos que aceitar a brutalidade da polícia, e podendo investir em outras áreas que sabemos que também são a causa do crime ", enfatizou Diaz.

O chefe do Comitê de Segurança Pública do Conselho de Nova York, Donovan Richard, acusou a polícia de agir deliberadamente lenta, a favor de um aumento da violência para poder responsabilizar as recentes medidas legais. A afirmação é rechaçada pelos dirigentes da polícia.

"Há uma desaceleração, com certeza, e a polícia está permitindo isso. Vimos nos últimos anos o que a polícia faz quando quer manter baixos os registros de tiroteios. Todos os anos estamos quebrando recordes, mas agora eles não estão sequer se esforçando para fazer isso", disse Richard.

Uma tendência nacional

Todavia, esse fenômeno não é exclusivo da cidade de Nova York, e com diferentes nuances, está sendo repetido em outras grandes cidades norte-americanas, como Chicago.

De acordo com uma análise realizada pelo The New York Times, a tendência de Nova York se repete em muitas cidades, onde o aumento dos tiroteios e assassinatos contrasta com uma diminuição de crimes, em geral.

No caso de Nova York, de acordo com dados do Departamento de Polícia consultados pela Efe, os tiroteios e assassinatos registraram um aumento desenfreado, especialmente em maio, quando os tiroteios aumentaram 63% e os assassinatos 78,9%, em comparação com maio do ano anterior.

Da mesma forma, em junho, houve 205 tiroteios - em comparação com 89 ocorridos em junho de 2019 - e 39 assassinatos em comparação com 30 no mesmo período do ano passado.

Nos dois meses, houve também um aumento significativo de roubos de propriedades particulares, principalmente em junho, onde dobraram, passando de 817 para 1.783.

No entanto, outros crimes como estupros, roubos com violência e agressões continuaram registrando quedas contínuas na cidade que tem registrado os números mais baixos de violência nas últimas décadas, por sete anos consecutivos.

Nesse sentido, o presidente do condado de Bronx, Rubén Díaz, destacou a necessidade de colocar em perspectiva esse ressurgimento da violência e destacou que não se deve esquecer que os dados deste ano são comparados com os dados recordes de baixa violência registrados no ano de 2019.

Isso faz com que qualquer aumento pareça mais do que é, algo que não acontece na cidade de Chicago, que em 2016, por exemplo, registrou um de seus números mais altos de assassinatos, com 778, em comparação com 336 cometidos no mesmo ano em Nova York.

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