"O modelo tradicional de jornalismo está quebrado", afirma Gene Policinski, do Instituto Newseum

Para especialista, internet abre as portas para uma melhor interação com o público

"O modelo tradicional de jornalismo está quebrado", afirma Gene Policinski, do Instituto Newseum

"Acredito que a verdade é o poder na política, e os indivíduos, o governo e o jornalismo falham quando não dão a totalidade dos fatos. A imprensa livre e a liberdade de expressão são valores vitais para a sociedade", afirma Gene Policinski

"Acredito que a verdade é o poder na política, e os indivíduos, o governo e o jornalismo falham quando não dão a totalidade dos fatos. A imprensa livre e a liberdade de expressão são valores vitais para a sociedade", afirma Gene Policinski

Reprodução/ Maria Bryk/Newseum

Diretor do Instituto Newseum (museu sobre a imprensa mundial localizado na capital dos Estados Unidos, Washington DC) e vice-presidente do First Amendment Center, o jornalista Gene Policinski está no Brasil para uma série de palestras, na qual irá abordar o papel do jornalismo na defesa de democracia.

Entre tantas boas afirmações, Policinski solta o verbo e sem rodeios defende a liberdade de imprensa e discute as mudanças no jornalismo diante da internet:

— (...)O modelo tradicional de jornalismo está quebrado. (...) Não estamos perdendo só números, mas experiência e perspectiva.

Em mais de 45 anos de profissão, Policinski acumulou grandes coberturas. Ele também ajudou a fundar o jornal USA Today em 1982, atuando inicialmente como editor de notícias relacionadas à capital dos EUA. Alguns anos depois, ele mudou de editoria e se tornou chefe do setor de Esportes. Desde 1996, Policinski atua no Newseum, renomado centro de referência para o jornalismo e sua história.

Em entrevista ao R7, ele não poupou palavras ao falar sobre polêmicas e o papel da imprensa na defesa dos direitos individuais. Confira esta incrível a entrevista na íntegra a seguir:

R7: No Brasil, diversos jornalistas vêm sendo demitidos de veículos tradicionais de imprensa. Até mesmo a internet está sofrendo. Recentemente, um dos maiores portais de notícias do país demitiu a maioria de seus empregados. Qual é a sua opinião sobre o futuro do jornalismo? O setor está em crise?

Eu acho que, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, o modelo tradicional de jornalismo está quebrado. Não estamos perdendo só os empregos, mas também as pessoas que fazem jornalismo. Os primeiros empregados que são demitidos costumam ser os mais velhos, que têm a possibilidade de adicionar mais conhecimento para os assuntos abordados nas notícias. Não estamos perdendo só números, mas experiência e perspectiva.

Eu espero que nós estejamos apenas mudando de um sistema para outro. Grandes jornais, como o New York Times, também estão mudando. Só posso dizer que as pessoas precisam de informação, e o que está quebrado não é o jornalismo, mas a maneira como pagamos por ele.

Uma das coisas que as pessoas tem que entender é que não é incomum que se pague mais de 150 dólares por mês por uma assinatura de TV a cabo, mas a população espera conseguir as notícias de graça na internet. Acho que temos que saber que a informação que temos de graça é na verdade propaganda que usa os seus dados. Temos que retomar a ideia de que a informação tem valor e que devemos pagar por isso.

R7: Como você vê a internet nesse contexto? Você acredita que as mudanças trazidas pela rede são positivas para o jornalismo?

Em décadas de jornalismo, foram criamos sistemas para garantir a qualidade da informação. Atualmente, as pessoas esperam que a notícia saia na hora. Nós não temos a chance de confirmar os dados nem entrevistar as fontes.

O lado positivo é que eu não preciso mais trabalhar apenas para as mesmas empresas tradicionais. E eu posso alcançar o mundo inteiro com a minha produção. Além disso, os leitores podem interagir de volta conosco, o que nos traz uma visão mais rica do assuntos. As pessoas não precisam mais procurar a informação, elas sabem que tem uma grande variedade de fontes disponíveis. Acredito que os benefícios proporcionados pela internet são tantos quanto seus pontos negativos.

R7: Como você vê o jornalismo investigativo hoje em dia? Vamos depender mais de gente de dentro do governo e das empresas, como Snowden e Assange, para obter grandes escândalos?

Eu não classificaria o Assange como um jornalista, mas sim um ativista que usa ferramentas de jornalismo.

Acredito que o número de pessoas fazendo jornalismo investigativo está diminuindo, até mesmo em jornais como o Washington Post. Eu vejo o trabalho sendo feito nos Estados Unidos, mas a internet proporciona a possibilidade de pesquisar mais informações. Hoje, se eu estou investigando um escândalo, posso publicar nas redes pedindo para o público entrar em contato se já teve algum problema com aquela empresa.

É difícil generalizar. Acho que o jornalismo investigativo se tornou um tipo de produção muito destacada depois do escândalo de Watergate, mas nós temos hoje mais ferramentas de investigação.

R7: Você acredita que a internet tem alguma responsabilidade pela intolerância política que vem se manifestando no País nos últimos meses?

Incidentes e acontecimentos que só seriam conhecidos regionalmente agora podem ganhar destaque nacional, e isso produz conflito. Também há o fato de que as pessoas podem tuítar qualquer coisa e ganhar visibilidade.

Eu acho que isso faz parte da curva de aprendizado da internet. A internet tem o poder de adicionar drama e aumentar o peso das coisas, e nós temos nos acostumar com isso. Se você pensar sobre as caricaturas do profeta Maomé que levaram à morte dos jornalistas do Charlie Hebdo, elas nunca teriam sido vistas pelo resto do mundo há alguns anos atrás. A publicação tinha uma tiragem muito baixa. Mas, por causa da internet, aquelas sátiras atingiram um público muito maior.

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Isso é uma circunstância que há 20 anos nunca existiria. E esse grande alcance também traz novas preocupações. Trata-se de um processo de educação, e é algo que eu espero que o mundo aprenda. Se eu não gostei de algo que você publicou, não vou ficar em frente à sua redação com uma arma, eu vou e crio um site e dou a minha versão da história.

Mesmo com todos os milhões de dólares que os donos dos meios de comunicação investiram, hoje eu consigo viralizar um vídeo e ter uma audiência dez vezes maior do que esses veículos. As pessoas precisam se acostumar com isso, com o poder que elas têm com a internet. Elas podem de fato se comunicar com o mundo.

R7: Para você, qual é o papel da mídia nesse contexto?

Eu acho que o papel da mídia, em situações como essa, é oferecer os fatos e dar ao público a chance de expressar sua opinião, mas também oferecer uma perspectiva separada dos fatos. Nos Estados Unidos, nós temos a primeira emenda, que protege a imprensa. Se você olhar para os direitos civis, foram 100 anos para nos livrarmos da escravidão e outros 150 anos para os negros ganharem direitos. Essa mudança foi potencializada pelo mercado de ideias, o direito de se manifestar por mudanças.

Eu acredito que o papel da mídia aqui é reportar tudo o que acontece, dar aos brasileiros todos os fatos para que eles tenham a oportunidade de criar a sua opinião. Acho que um dos maiores perigos de uma sociedade é desconfiar da verdade. Acredito que a verdade é o poder na política, e os indivíduos, o governo e o jornalismo falham quando não dão a totalidade dos fatos. A imprensa livre e a liberdade de expressão são valores vitais para a sociedade.

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É por isso que eu fico tão feliz por nós termos a internet. Os críticos, que há 20 anos não tinham voz, hoje têm com a rede. Se nós acreditamos que o jornalismo não está falando sobre algo, podemos contornar a mídia tradicional e usar a internet.

Recentemente, nós tivemos muitas mortes envolvendo policiais nos Estados Unidos, e o que me surpreendeu é que os depoimentos dos cidadãos dominou o noticiário, enquanto os relatórios oficiais se tornaram secundários.

A habilidade de postar livremente na internet seria difícil de contornar se você me fizesse essa pergunta há 20 anos atrás. Eu teria dificuldades de responder, porque o poder estava nas mãos de poucas pessoas, mas hoje você pode medir a opinião pública até mesmo ignorando a mídia tradicional.

R7: Qual é exatamente o papel do Newseum?

Nós existimos para educar os Americanos sobre as liberdades individuais. Muitos cidadãos acham que seus direitos estão garantidos e que vai ser sempre assim. E nós olhamos para o mundo e dizemos, “não, tem gente morrendo por esses direitos que você acha que estão garantidos”. Nós ainda somos um experimento na democracia.

Acreditamos que o Newseum é uma entidade neutral, porque não escolhemos lados, achamos que é importante trazer todos os lados para um mesmo local para discutir sobre a liberdade de expressão. Nós somos muito duros com o que eu chamo de democracia experimental. Nós podemos fazer um trabalho melhor em casa e prover ajuda a outros países, mas eu não posso chegar e dizer “eu posso resolver todos os seus problemas”.

Ainda somos estudantes da democracia. Nos últimos anos, tenho me encontrado muito com jornalistas comunitários. E eu quero levar essa ideia para casa, mostrar que essa é a maneira que as pessoas estão usando para recrutar pessoas nas comunidades. E eu posso dizer “é assim que eles estão fazendo no Brasil para resolver esses problemas”.

R7: Qual é a influência dos blogueiros na formação da opinião pública?

Eu odiaria que não houvessem blogueiros, mas também odiaria que só houvessem blogueiros. Acho que as pessoas que fazem blogs costumam se dedicar muito para um determinado assunto. E elas vão se especializar em reportar aquilo, e também vão dar a sua opinião sobre aquele assunto. Deste modo, elas têm um ponto de vista que pode não ser o do jornalismo objetivo.

Um jornalista que cobre serviços municipais, por exemplo, pode reportar um processo de aumento de tarifas, e daqui há três anos, ele diz “espere ai, há três anos vocês propuseram um aumento e nós descobrimos que não era necessário”. Essa relação, o blogueiro pode não ter. Então eu odeio quando alguém diz que os blogs vão substituir o jornalista tradicional, porque acredito que eles fazem dois trabalhos distintos. Olho para os blogueiros como uma adição à produção de notícias, e não como substitutos dos jornalistas.

R7: Qual é a importância da liberdade de expressão em uma sociedade democrática?

Para resumir, se você olhar para a história, as nações que preservam a liberdade de expressão são as civilizações cujos governos foram mais longos e melhores. Por outro lado, as nações que restringem a liberdade de expressão ou restringindo a imprensa tiraram a criatividade das pessoas, diminuíram a produtividade. As nações mais bem sucedidas da história são as mais livres. Mas no final, acredito que as nações com um “mercado livre de ideias” se deram melhor, e eu acho que é assim que o progresso humano vai se manter. Se restringirmos isso, vamos estar tirando energia de um processo extremamente positivo. 

*Reportagem de Luis Jourdain, jornalista do Portal R7 

Palestras de Gene Policinski no Brasil 

Brasília – Evento 1

Apresentação sobre “Desafios e tendências da liberdade de expressão ao redor do mundo”

na Universidade Católica de Brasília para estudantes e profissionais com interesse no tema

Local: Auditório do Bloco K, Universidade Católica de Brasília, Campus Central, Águas Claras
Horário: 9h30
Data: 8 de outubro, 2015
Informações sobre o evento: Assessoria de Imprensa da Embaixada dos EUA: (61) 3312-7350

Brasília – Evento 2

Palestra gratuita e aberta ao público: “Desafios e tendências que a indústria da mídia enfrenta no século 21”

Local: Auditório Hipólito José da Costa – Correio Braziliense, SIG Quadra 2, lote 340
Horário: 15h
Data: 8 de outubro, 2015.

Informações sobre o evento: Assessoria de Imprensa da Embaixada dos EUA: (61) 3312-7350

São Paulo

Seminário “Desafios Atuais à Liberdade de Imprensa”

Local: Teatro Casper Libero – Av. Paulista, 900 (1º andar)
Horário: 8h30
Data: sexta-feira, 9/10/2015

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