Terror na Europa
Internacional O país que virou polo de tráfico de armas pesadas na Europa

O país que virou polo de tráfico de armas pesadas na Europa

Bélgica é apontada como centro do contrabando de material militar para terroristas

Cerca de 81 milhões de armas de fogo civis circulam atualmente nos 28 países da União Europeia. Do total, 79% seriam de origem ilícita

Cerca de 81 milhões de armas de fogo civis circulam atualmente nos 28 países da União Europeia. Do total, 79% seriam de origem ilícita

Thinkstock

Uma semana depois dos atentados terroristas que deixaram ao menos 130 mortos em Paris, a União Europeia estuda como fortalecer o controle de armas de fogo e deter o contrabando de material militar, do qual a Bélgica é apontada como um importante centro.

Segundo a Comissão Europeia (braço Executivo da UE), cerca de 81 milhões de armas de fogo civis circulam atualmente nos 28 países da União Europeia. Desse total, 79% seriam de origem ilícita. O cálculo é baseado em uma estimativa da organização Gun Policy.

No entanto, a instituição ressalta que "é impossível quantificar a verdadeira escala do problema".

Permissividade

"O tráfico de armas existe em toda grande cidade com um grande nível de criminalidade. Mas a Bélgica aparece como um centro de abastecimento de terroristas, em parte por causa de suas características geográficas", explicou à BBC Brasil Nils Duquet, pesquisador do Instituto de Flandres pela Paz.

O organismo registra uma média de 5,7 mil casos de posse ilegal de armas tratados a cada ano pela polícia belga, mas observa que o volume traficado deve ser muito maior.
 

Terroristas planejavam ataques com bombas em estádio da Alemanha, diz jornal

Presidente da Rússia diz que países do G20 financiam o Estado Islâmico

Soldados sírios são espancados até a morte por defensores do Estado Islâmico

"Somos um país pequeno, com fronteiras abertas, no centro da Europa. É muito fácil para um criminoso com conexões vir aqui, comprar um fuzil e desaparecer em duas horas."

Além disso, a longa tradição belga de produção de armas, associada a uma legislação permissiva até 2006, tornaram o país popular entre as organizações criminosas.

"Nos anos 70, o governo era reticente à ideia de frear as vendas de armas, que tinham um importante peso econômico para o país. Por isso, qualquer um podia comprar uma arma legalmente, só apresentando a carteira de identidade", analisa Brice De Ruyver, diretor do Instituto Internacional de Pesquisa sobre Política Criminal na Universidade de Gante, na Bélgica.

Mãe brasileira de jihadista belga relata dor da perda e estigmas sociais

Filho de brasileira acusado de jihadismo é condenado a 5 anos de prisão

A legislação seria modificada em 2006, em resposta ao assassinato de uma criança e sua babá de origem africana por um jovem de extrema-direita em Antuérpia.

Conexões

Mas a introdução de novas exigências para a compra legal de armas não rompeu as sólidas redes de abastecimento criadas anos antes pelos criminosos e aproveitadas pelos jihadistas de hoje em dia.

De Ruyver observa que a maioria dos europeus que se juntaram às filas do grupo extremista autodenominado "Estado Islâmico" ("EI") na Síria cumpriram penas de prisão.

A grande proporção de combatentes belgas no país explicaria a preferências dos extremistas pela Bélgica na hora de montar os arsenais usados em atentados.

Sabe-se que pelo menos parte das armas usadas por Amédy Coulibaly no ataque a um supermercado judeu de Paris, em janeiro, foram adquiridas na Bélgica, assim como a Kalashnikov usada por Ayoub El-Kahzzani no atentado frustrado a um trem de alta velocidade entre Amsterdã e Paris, em agosto.

Também há suspeitas de que Mehdi Nemmouche, autor do atentado ao Museu Judaico de Bruxelas, em maio de 2014, teria adquirido suas armas na capital belga.

Balcãs

Segundo Duquet, a maioria das armas pesadas comercializadas ilegalmente na Bélgica eram originárias dos países comunistas no começo dos anos 90, principalmente a Bulgária.

Depois da guerra na antiga Iugoslávia, os países balcânicos se tornaram os principais fornecedores.

"Muitos civis guardaram as armas que usaram durante a guerra para defender suas famílias ou que encontraram junto a corpos de soldados e agora, com dificuldades financeiras, vendem por até 500 euros (cerca de R$ 2 mil)", afirma o pesquisador.

Esses equipamentos entram na Bélgica em pequenas quantidades, escondidos em carros particulares.

"Estamos falando de duas ou três peças por viagem. Uma vez que entram no Espaço Schengen (de livre circulação interna na UE), não há mais controle", diz Duquet.

Algumas armas entram nos países europeus de maneira legal, depois de serem manipuladas para não funcionar, o que se chama de desmilitarização, e encontram na Bélgica um grande número de especialistas capazes de reabilitá-las.

"Justamente pelo histórico do país na produção de armas, há muitos conhecedores, gente que sabe como reativar um fuzil desmilitarizado e até que fabrica suas próprias armas a partir de peças compradas pela internet", afirma Duquet.

A prática é ilegal, mas praticamente impossível de detectar.

Uma das armas utilizadas no atentado contra o jornal satírico Charlie Hebdo em Paris, em janeiro passado, foi uma Kalashnikov desmilitarizada adquirida na Eslováquia e reabilitada na Bélgica.

Segundo os especialistas ouvidos pela BBC Brasil, uma arma desse tipo pode ser comprada no mercado ilegal belga por a partir de mil euros (cerca de R$ 4 mil).

Resposta europeia

Apesar da maioria dos países europeus possuir regras específicas para a desativação de armas militares, a Comissão Europeia (CE) reconhece que o controle não é efetivo em muitos deles e que os diferentes parâmetros de um país para outro facilitam a atuação das redes criminosas.

Por isso, a União Europeia adotou esta semana um protocolo comum de desmilitarização, que entrará em vigor dentro de três meses, e proíbe o comércio online entre particulares de armas ou peças relacionadas.

"Armas desativadas deverão continuar a ser consideradas como armas. As mais perigosas deverão ser banidas e destruídas. As demais, as autoridades deverão ser capazes de localizar", explicou a comissária europeia de Justiça, Elzbieta Bienkowska.

As duas medidas são parte de um amplo pacote de iniciativas proposto em resposta aos atentados de Paris.

Conheça o R7 Play e assista a todos os programas da Record na íntegra!