O que foi feito para que Hiroshima e Nagasaki não se repetissem

Três tratados internacionais abordam o tema que diz respeito a toda humanidade, e o objetivo ainda é ver o mundo livre deste tipo de ameaça

Cogumelos de Hiroshima (d) e Nagasaki (e): cenas da destruição nas duas cidades

Cogumelos de Hiroshima (d) e Nagasaki (e): cenas da destruição nas duas cidades

Fotos: Arquivo Reuters / Montagem: R7

As bombas nucleares lançadas pelos Estados Unidos contra Hiroshima e Nagasaki no Japão mudaram o mundo. Primeiro, nasceu o temor de que algo tão destruidor voltasse a se repetir. A partir disso, também surgiu a iniciativa de regulamentar futuras guerras, e a tentativa de garantir que a humanidade continue habitando nosso planeta.

Sem dúvida, uma das armas de guerra mais devastadoras criadas no mundo inteiro são as bombas nucleares. Elas foram utilizadas contra civis nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, durante a Segunda Guerra mundial. Seu poder de calor e sua onda de impacto alcançam quilômetros, queimando qualquer vida que estiver no caminho.

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Mas nestes 75 anos, o debate sobre o uso de armas nucleares rendeu ao mundo ao menos três instrumentos internacionais e multilaterais para combatê-las: o TNP (Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares), o CTBT (Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares) e o TPAN (Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares).

O primeiro deles, o TPN foi assinado em 1968, mas só entrou em vigor em 1970. Atualmente, ele conta com a adesão de 189 países, além dos únicos cinco países que possuem este tipo de armas de forma pública — Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China. 

De acordo com Cristian Wittmann, integrante da ICAN (Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares), o TPN possui três pilares centrais: o compromisso da não-proliferação de armas nucleares, o desarmamento dos únicos países que possuem este tipo de arma e o uso pacífico delas.

Falta de ação

Com o passar dos anos, um dos tópicos centrais do TPN foi sendo deixado de lado pelas potências nucleares. "Esse tratado já existe há décadas, mas o problema central é que os Estados que possuem armas nucleares não cumprem sua obrigação legal de realizar seu desarme completo", lamenta Wittmann.

Coreia do Norte segue exemplo das potências nucleares

Coreia do Norte segue exemplo das potências nucleares

Kim Hong-Ji / Reuters - 31.7.2019

Os discursos contra as armas nucleares chega a emocionar o mundo. Em 2009, o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama ganhou o Nobel da Paz após defender um mundo sem armas nucleares. "Mas não houve avanços, em nenhum dos países. Ao contrário, a gente só vê a modernização destas armas", reforça Wittman.

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O especialista explica que a lógica da não-proliferação passa pelo desarme completo dos países que possuem bombas nucleares. Para ele, este é um ponto essencial, já que os outros países que não possuem este tipo de tecnologia, concordaram em não possuir, desde que aqueles que a possuíssem, se desfizessem dela.

A "inércia", como classifica Wittmann, destas potências pode acabar incentivando outros países a desenvolverem tecnologia semelhante, como é o caso da República Popular Democrática da Coreia, mais conhecida como Coreia do Norte, que decidiu deixar o TPN e ainda incrementar seu projeto nuclear.

Para Wittmann, como "alguns Estados focam na arma nuclear grande parte da sua doutrina militar, eles acabam incentivando que outros atores venham a ter também, já que elas produzem paz e segurança".

Outro instrumento posto de lado pelos países é o CTBT (Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares). De acordo com o especialista no tema, este tratado nunca foi cumprido. "Até hoje não é realidade."

"Jogo infantil"

A manutenção de armas nucleares por alguns países passa uma imagem equivocada, de acordo com o especilista, de que supostamente "existem mãos seguras para armas erradas". Mas Wittmann relembra as recentes declarações entre Estados Unidos e a Coreia do Norte, após o segundo deixar o tratado. 

"A discussão ficava em torno de quem tinha o maior botão para ameaçar a humanidade inteira. Então, em um jogo infantil, dois chefes de estado brincam com a nossa existência", ressalta. Ele lembra ainda que existem inúmeras possibilidades de acidentes envolvendo este tipo de armamento.

Em certa ocasião, no transporte de uma destas armas nos Estados Unidos, uma delas caiu durante o trajeto do voo, mas o acidente não foi pior graças a mecanismos que impediram que ela explodisse.

"Estas armas não comportam sua existência, seja por uso intencional, ou a detonação por mal manuseio, ou seja, uma detonação não intencional que causaria impacto para as nossas vidas e futuras gerações. Estamos em um risco constante e ele é global", alerta.

Lanternas em Hiroshima, com o domo que se tornou símbolo do ataque nuclear

Lanternas em Hiroshima, com o domo que se tornou símbolo do ataque nuclear

DAI KUROKAWA/ EPA/ EFE/ 06.08.2020

Esperança renovada

Apesar do cenário negativo um novo tratado de 2017 decidiu pela proibição das armas nucleares fechando as lacunas que o TPN deixava. O TPAN (Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares) já foi ratificado por 75 países, e ainda precisa da aprovação de outros 7, ainda assim o especialista classifica o tratado como um "avanço significativo".

Uma situação que poderá ser combatida com o TPAN é o dos países umbrella states, ou na tradução, países guarda-chuva de armas nucleares. A Holanda, por exemplo, por ser um aliado da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), possui em seu território uma base dos Estados Unidos. E apesar do país não possuir armas nucleares, ela abriga parte destas armas dos EUA. 

Estas armas estacionárias, como são chamadas, serão proibidas segundo o TPAN. "Estes países guarda-chuva, assinaram o TNP, mas dormem sob o pretexto de que estão protegidos por armas nucleares de outros países", destaca Wittmann.

Com um novo estigma e peso do TPAN, a tendência é fechar o cerco as armas nucleares. "Existem estudos que uma eventual detonação nuclear poderia causar a fome no mundo todo, mesmo ocorrendo em um cenário teoricamente isolado", finaliza Wittmann.